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Cannes abre o 79º Festival de Cannes com "La Vénus Électrique" e celebra 25 anos de "Velocidade Furiosa"

Mulher de vestido branco longo a caminhar no tapete vermelho com fotógrafos ao fundo.

Cerimónia de abertura do 79º Festival de Cannes

Gong Li e Jane Fonda, cada uma ao seu estilo e ambas figuras maiores do cinema mundial, deram o arranque oficial ao 79º Festival de Cannes - alternando entre chinês e inglês. Antes desse momento, os nove membros do júri, liderado pelo coreano Park Chan-wook, já estavam posicionados no palco, e Elijah Wood, para muitos eternamente Frodo, subira também para entregar a Palma de Ouro honorária a Peter Jackson.

O filme de abertura: "La Vénus Électrique"

Para abrir o festival, a escolha recaiu sobre a comédia "La Vénus Électrique", numa decisão que volta a funcionar como um gesto recorrente de apoio ao cinema francês. Ainda assim, o filme de Pierre Salvadori tem o seu próprio encanto, ao situar a narrativa nos anos 1920.

A história acompanha um pintor que, após perder o grande amor da sua vida, se vê incapaz de continuar a trabalhar - para frustração evidente do seu negociante de arte. Tudo muda quando, numa feira, ele se cruza com uma aprendiz de médium, que ali também distribui beijos acompanhados de choques elétricos. A partir desse encontro, desenha-se uma intriga que reafirma, mais uma vez, que os caminhos da vida - e do amor - são sempre insondáveis, e que o cinema é um bom instrumento para os tornar visíveis.

O filme sustenta-se sobretudo numa construção de argumento particularmente astuta, explorando a retrospetiva como recurso de linguagem cinematográfica - um procedimento que se tornou menos frequente, mas que continua cheio de possibilidades. A isto soma-se um elenco capaz de alternar entre o riso e a emoção, com Pio Marmaï, Anaïs Demoustier, Gilles Lellouche e Vimala Pons a darem corpo às personagens. Não seria surpresa se "Le Vénus Électrique" aparecesse, em breve, nas salas portuguesas.

Cannes entre cinema de autor e espetáculo

Cannes tem também um lado que roça o esquizofrénico. Por um lado, o festival continua a revelar, ano após ano, novas vozes no cinema internacional; por outro, acolhe os autores já consagrados pela cinefilia - sobretudo os que pertencem à chamada “família” do festival - que ali apresentam os seus trabalhos mais recentes.

Mas o certame não vive sem o brilho da passadeira vermelha, nem sem o desfile de estrelas que a atravessam e que, por vezes, nada têm a ver com qualquer filme programado. Ainda assim, acabam muitas vezes por dominar as páginas da imprensa internacional, ofuscando aquilo que de mais importante acontece em Cannes: o Cinema, com C grande.

Cinema de autor e cinema-espetáculo cruzam-se nesta “feira” chamada Cannes. A população VIP da Côte d'Azur sonha com a hipótese de conseguir um bilhete para uma das galas dos filmes em competição, mesmo quando se trata da estreia de um realizador vindo de uma cinematografia pouco conhecida. Mais do que simplesmente ver um filme, é participar num acontecimento - e os aplausos no final costumam ser sempre genuínos.

Passadeira vermelha, marcas e o recuo de Hollywood

Nas ruas mais próximas do Grande Teatro Lumière existem até lojas que alugam, por duas horas, um smoking ou um vestido de gala, peças essenciais para quem quer subir os 24 degraus mais famosos do mundo.

Há também marcas de luxo que tratam de convidar celebridades para a passadeira vermelha, diariamente cercada por centenas de fotógrafos, com a certeza de que, minutos depois, essas imagens já estarão a circular nas redes sociais. A “produção” pode sair cara - entre viagens, hotel, roupa, acessórios e maquilhagem -, mas o retorno chega depressa e em grande escala.

É dentro desta lógica que Cannes foi, durante muito tempo, um ponto de encontro para algumas das produções norte-americanas mais sonantes, aquelas com maior apelo global, sobretudo por virem carregadas de estrelas do cinema e, muitas vezes, também da televisão ou do mundo da música, sempre fotogénicas no topo da passadeira vermelha.

Só que Hollywood mudou: os grandes estúdios já não são o que eram - fundem-se, compram-se, desaparecem, reinventam-se - e deixaram de encarar Cannes como uma plataforma particularmente interessante para promover as suas próximas grandes superproduções.

Não deixa de soar estranho que a Disney, agora detentora do espólio de George Lucas, tenha escolhido a terceira semana de maio para lançar "Star Wars: The Mandalorian e Grogu" sem marcar presença em Cannes. O mesmo se aplica a outros filmes de grande espetáculo que estrearam pouco antes, ou que chegam logo a seguir ao festival francês, como "Michael", "O Dia da Revelação", o último Spielberg, ou "Toy Story 5".

O que sobrou a Cannes foi assinalar os 25 anos do primeiro título de "Velocidade Furiosa". É certo que, comparado com os capítulos mais recentes - uma série que já vai em dez filmes e que teve algumas cenas de um dos últimos rodadas em Portugal -, o filme inaugural, estreado em 2001, hoje parece quase um título independente ou de série B. Ainda assim, será curioso observar a reação dos cinéfilos mais empedernidos esta noite, quando a Croisette acelerar com aquilo que se espera ser um evento grandioso.

É Cannes a ser Cannes, e resta desejar um bom espetáculo a quem subir hoje à noite a mesma passadeira vermelha por onde vão passar Vin Diesel, Michelle Rodriguez, Jordana Brewster, Meadow Walker - filha de Paul Walker, que teve uma morte prematura, aos 40 anos -, bem como Neil H. Moritz, produtor da série desde a primeira hora. A projeção está prevista para as 23h45; vai ser longa a segunda noite de Cannes.

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