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Ao passarem o tempo a fazer scroll todos os dias, os adolescentes estão gradualmente a perder a capacidade de se concentrar.

Adolescente sentada numa secretária a estudar e a usar um smartphone com mensagens a surgir no ecrã.

O que parece uma rotina inofensiva - uns minutos no TikTok aqui, uma espreitadela rápida ao Instagram ali - pode estar, de forma discreta, a alterar a maneira como os cérebros jovens lidam com concentração, atenção e esforço.

Erosão silenciosa da atenção na adolescência

Raramente um médico vê um adolescente acordar, de um dia para o outro, com problemas de atenção súbitos e dramáticos. Na maioria dos casos, a mudança instala-se devagar. Mais distração na sala de aula. Uma vontade cada vez mais forte de pegar no telemóvel a meio dos trabalhos de casa. A sensação persistente de que ler um capítulo inteiro sem parar se tornou, estranhamente, um esforço pesado.

Muitos pais atribuem isto a “comportamento típico de adolescente”. Professores apontam o dedo ao aborrecimento. Entre amigos, vira piada dizer que se tem “zero capacidade de atenção”. Ainda assim, os dados epidemiológicos desenham um cenário mais inquietante. Nos últimos 15 anos, os diagnósticos de perturbações de atenção em crianças e adolescentes têm aumentado de forma consistente nos EUA e noutros países de alto rendimento.

Uma parte dessa subida explica-se, de facto, por maior consciência, menos estigma e melhores rastreios. Porém, investigadores defendem cada vez mais que isso não chega para justificar a tendência. Parece existir algo no ambiente em que as crianças crescem que vai desequilibrando, pouco a pouco, os sistemas de atenção - muito antes de haver intervenção médica.

"O que parece uma distração menor ao nível individual pode, multiplicado por milhões de crianças, empurrar muitas mais para lá do limiar clínico."

Redes sociais diárias, e não apenas tempo de ecrã, são o fator decisivo

O foco da investigação recente começa a deslocar-se de “ecrãs” em geral para tipos específicos de uso digital. Um grande estudo longitudinal, publicado em 2025 na revista Pediatria: Ciência Aberta, acompanhou mais de 8,300 crianças durante quatro anos, a partir de cerca dos 10 anos de idade.

Todos os anos, as crianças indicavam quanto tempo passavam em diferentes atividades com ecrã: redes sociais, videojogos, vídeos online e outros usos. Em paralelo, os pais preenchiam questionários padronizados sobre atenção: capacidade de manter-se na tarefa, facilidade de distração, esquecimento e outros comportamentos frequentemente usados no rastreio de ADHD.

O resultado principal foi claro: as redes sociais destacaram-se. O uso regular de plataformas com feeds infinitos e atualizações constantes associou-se a um aumento gradual de sintomas de desatenção ao longo do período do estudo. Esse padrão não surgiu para o tempo passado a jogar ou a ver vídeos, depois de controlados outros fatores.

"As análises estatísticas apontaram para um efeito de sentido único: o uso mais intenso de redes sociais tendia a surgir primeiro, e a subida da desatenção vinha depois."

Em média, as crianças que já exibiam maior distração no início não passaram, à medida que cresciam, a procurar redes sociais mais do que as restantes. Pelo contrário: uma maior exposição a estas aplicações antecipou um agravamento posterior nas pontuações de atenção, mesmo quando os investigadores ajustaram variáveis como sexo, rendimento familiar, medicação e risco genético para perturbações de atenção.

Porque é que os feeds sociais afetam mais a atenção do que os jogos

As várias atividades digitais não exigem as mesmas competências cognitivas. Muitos videojogos - sobretudo os de narrativa ou estratégia - implicam atenção sustentada, memória e planeamento. Ver um filme ou um vídeo longo no YouTube também pode envolver atenção relativamente estável a uma narrativa.

Já os feeds das redes sociais são construídos de outra forma. Disparam conteúdos curtos e emocionalmente carregados, misturados com gostos, comentários e notificações imprevisíveis. O próprio desenho recompensa verificações rápidas e alternância constante, em vez de envolvimento profundo.

  • As publicações surgem em scrolls intermináveis, sem um ponto natural de paragem.
  • As notificações chegam em intervalos aleatórios, treinando a antecipação.
  • O conteúdo muda a cada segundo, forçando microdecisões contínuas: continuar a ver, passar à frente, partilhar, reagir.
  • As pistas sociais - quem gostou do quê, quem respondeu - elevam a carga emocional.

Num cérebro em desenvolvimento, este ambiente funciona como um treino permanente de atenção curta e fragmentada. Com o tempo, esse padrão pode substituir a capacidade de permanecer numa única tarefa quando não há nada a piscar, a apitar ou a recompensar de imediato.

Pequenas mudanças individuais, grandes efeitos na população

Para um adolescente em particular, o impacto do scroll diário pode parecer mínimo. Uns pontos a mais numa escala de atenção não se transformam automaticamente num diagnóstico inequívoco de ADHD. Muitos jovens mantêm boas notas e organizam a sua vida, apesar de passarem mais tempo online.

No entanto, investigadores de saúde pública alertam que pequenas alterações na média são importantes quando acontecem numa geração inteira. Com base nos seus dados, os autores do estudo de 2025 estimaram que apenas mais uma hora por dia em redes sociais poderia traduzir-se num aumento relativo superior a 30% do número de jovens a ultrapassar o limiar clínico de desatenção.

"Um ligeiro deslize na concentração de milhões de adolescentes pode provocar um aumento dos que passam a ter dificuldades suficientes para precisar de apoio médico e educativo."

O calendário também chama a atenção. Entre os 9 e os 13 anos, o uso médio diário de redes sociais sobe de cerca de 30 minutos para mais de duas horas, segundo a mesma investigação - apesar de a maioria das plataformas restringir oficialmente contas a menores de 13 anos. E são precisamente esses anos em que as redes de atenção do cérebro ainda estão a afinar ligações e hábitos.

Como as notificações intermináveis remodelam um dia típico com redes sociais

Imagine um dia comum de semana para um jovem de 13 anos. No autocarro para a escola, faz scroll pelas publicações da noite. Entre aulas, dá “só uma olhadela” para o caso de ter perdido algo. Os trabalhos de casa são interrompidos por pings de conversas de grupo e clipes de vídeo curtos. À noite, termina o dia com mais scroll na cama.

Nenhum destes momentos parece dramático. Ainda assim, cada interrupção pede ao cérebro que pare, mude de tarefa e recomece. Ao longo do tempo, o custo mental de alternar pode aumentar, enquanto a tolerância para manter o foco numa única coisa diminui.

Professores já referem que até alunos com bom desempenho académico têm mais dificuldade em ler textos longos ou em persistir num problema que não oferece feedback imediato. Para alguns, o problema não é falta de inteligência, mas uma crescente intolerância ao aborrecimento e à espera.

Pais e escolas entre benefícios e riscos

As plataformas sociais trazem benefícios reais para adolescentes. Podem oferecer apoio social, espaços criativos e acesso a interesses de nicho que, fora da Internet, poderiam ser isolantes. Cortar totalmente nem é realista nem é sempre desejável, sobretudo para jovens que dependem de comunidades online.

A questão central está em como se usam as redes sociais e com que frequência. A investigação sugere que sessões irregulares mas intensas - “maratonas” - podem ser menos prejudiciais para a atenção do que verificações constantes, de baixa intensidade, ao longo do dia. A regularidade parece pesar tanto quanto o tempo total.

Famílias e escolas estão a experimentar novas regras e ferramentas, desde salas de aula sem telemóveis até pontos de carregamento fora dos quartos, tentando recuperar períodos mais longos sem interrupções. Alguns pais preferem criar “janelas de scroll” específicas em vez de permitir acesso permanente.

Formas práticas de proteger a atenção

Especialistas que estudam atenção e hábitos digitais tendem a recomendar passos simples e concretos, em vez de proibições radicais. Entre os conselhos mais citados:

  • Manter os telemóveis fora do quarto à noite para proteger o sono e reduzir o scroll noturno.
  • Usar o modo “Não incomodar” ou modos de concentração durante trabalhos de casa, refeições e leitura.
  • Incentivar pelo menos uma atividade diária que exija foco sustentado: desporto, instrumento, leitura longa ou um passatempo manual.
  • Adiar a criação de contas em redes sociais até ao início da adolescência, quando possível, e começar com uso limitado no tempo.
  • Falar abertamente com os adolescentes sobre como as aplicações são desenhadas, para que reconheçam técnicas persuasivas em vez de se culpabilizarem.

"A atenção comporta-se como um músculo: enfraquece com interrupções constantes e fortalece quando é esticada suavemente ao longo do tempo."

Termos-chave e o que significam na prática

A conversa pública sobre atenção e ecrãs mistura frequentemente linguagem médica e linguagem do dia a dia. Algumas distinções ajudam a perceber melhor o que os dados realmente indicam.

Sintomas de desatenção referem-se a comportamentos como perder o fio a tarefas, distrair-se com facilidade ou ter dificuldades em organizar o trabalho. Muitas pessoas exibem alguns destes traços sem terem uma perturbação.

ADHD (perturbação de défice de atenção e hiperatividade) é um diagnóstico clínico baseado em sintomas persistentes e incapacitantes em vários contextos, como casa e escola. Quando a desatenção média aumenta na população, mais jovens podem aproximar-se do intervalo de diagnóstico, mesmo que a maioria nunca lá chegue.

Tempo de ecrã é uma medida ampla que junta atividades muito diferentes. Esta investigação recente sugere que o tipo e o padrão de utilização - especialmente feeds sociais diários - contam mais do que o número bruto de horas.

O que acontece se os hábitos não mudarem?

Os investigadores começam a modelar cenários futuros. Se a tendência atual de aumento do uso de redes sociais entre os 9 e os 13 anos continuar, a proporção de jovens com dificuldades de atenção nas salas de aula poderá crescer de forma constante ao longo da próxima década.

Essa mudança não afetaria apenas as notas. A atenção sustenta o autocontrolo, a regulação emocional e a capacidade de manter objetivos de longo prazo. Dificuldades ligeiras podem acumular-se: uma criança que se dispersa mais nas aulas pode aprender menos, sentir mais frustração e recorrer ainda mais ao telemóvel para aliviar.

Por outro lado, mudanças modestas nas rotinas podem produzir o efeito oposto. Períodos regulares sem telemóvel na escola e em casa, combinados com mais atividades que estiquem a concentração, podem melhorar ligeiramente a atenção média. À escala da população, isso poderia significar menos crianças a entrar no intervalo em que passam a precisar de ajuda clínica, aliviando a pressão sobre famílias, professores e serviços de saúde.

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