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Tarifas de Trump estão a destruir rentabilidade dos construtores europeus

Carro elétrico prata desportivo estacionado em ambiente interior moderno com iluminação suave.

Quando Donald Trump regressou à liderança dos EUA, em janeiro do ano passado, a indústria automóvel europeia acompanhou com prudência os possíveis efeitos da sua política comercial.

Passados doze meses, o impacto já é mensurável. A Automotive News Europe calcula que as tarifas tenham pesado cerca de 6 mil milhões de dólares (aprox. 5,2 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) no setor, só no ano passado. Para 2026, porém, o cenário antevisto é ainda mais negativo.

Apesar disso, quantificar com precisão o efeito real das tarifas continua a ser um desafio, uma vez que a maioria dos construtores tem evitado detalhar aos investidores o custo total associado às barreiras comerciais.

Construtor a construtor: tarifas nos EUA e impacto nos construtores europeus

Entre os poucos grupos que apresentaram dados mais explícitos sobre o efeito das tarifas nas contas está o Grupo Volkswagen, que viu os lucros encolherem 2,9 mil milhões de euros. A Audi foi a marca mais penalizada (1,2 mil milhões de euros), seguida da Volkswagen (900 milhões de euros) e da Porsche (700 milhões de euros).

A explicação é sobretudo estrutural: grande parte dos automóveis que o Grupo VW comercializa nos EUA é produzida na Europa ou no México e depois enviada para o mercado norte-americano, o que aumenta a exposição a qualquer aumento de direitos aduaneiros.

A BMW, por seu lado, não divulgou um montante total, limitando-se a indicar que, em 2025, as tarifas reduziram a margem de lucro EBIT (antes de juros e impostos) em cerca de 1,5 pontos percentuais. Isso poderá traduzir-se num impacto de aproximadamente 1,4 mil milhões de euros em 2025 e que poderá ser de 1,2 mil milhões de euros neste ano.

No caso da Mercedes-Benz, a empresa referiu apenas que a margem ajustada sobre as vendas da divisão automóvel desceu para cerca de 5% em 2025, face a 8,1% no ano anterior - uma quebra que atribui não apenas às tarifas, mas também a flutuações cambiais, pressão sobre os preços e redução de volumes.

Já a Volvo comunicou um efeito líquido de cerca de mil milhões de coroas suecas (cerca de 92 milhões de euros), depois de implementar medidas para compensar os custos. A Stellantis, por sua vez, indicou que as tarifas norte-americanas representaram para o Grupo um encargo de cerca de 1,2 mil milhões de euros, no ano passado.

Por fim, o diretor-financeiro da JLR, Richard Molyneux, afirmou que o Grupo teve de pagar 410 milhões de libras (aprox. 473 milhões de euros) em tarifas comerciais desde abril do ano passado.

Uma perturbação temporária?

De acordo com Arno Antlitz, diretor-financeiro do Grupo Volkswagen, “as tarifas vieram para ficar”. A declaração sintetiza uma perceção cada vez mais comum na indústria: muitos construtores deixaram de tratar o tema como uma turbulência momentânea e passaram a encará-lo como um fator estrutural, com efeitos diretos nas decisões de investimento e na localização da produção.

Cresce também o número de construtores a avisar que, com o atual nível de tarifas, determinados modelos exportados para os EUA deixam de ser rentáveis, intensificando a pressão sobre o presidente norte-americano para aliviar as taxas aplicadas.

Para este ano, antecipa-se um agravamento adicional. A Stellantis, por exemplo, estima mais 1,6 mil milhões de euros de impacto.

No verão passado, a União Europeia e os EUA chegaram a um entendimento comercial; ainda assim, a finalização do acordo ficou bloqueada depois de Trump ter ameaçado anexar a Gronelândia, no início deste ano, o que arrefeceu as relações transatlânticas. O Parlamento Europeu deverá ratificar o texto em breve.

Possíveis soluções

Entre as opções em cima da mesa está a criação de um novo enquadramento comercial que permita às marcas exportarem para a Europa veículos produzidos nos EUA sem tarifas. Para grupos como Volkswagen, Stellantis, BMW e Mercedes-Benz - que também dependem da produção no México e no Canadá - uma isenção mais abrangente seria uma vantagem decisiva.

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