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Alemanha, França e Espanha reúnem a 11 de Dezembro para desbloquear o FCAS

Quatro homens em reunião formal discutem projeto de avião de combate com bandeiras de França e Espanha na mesa.

Os ministros da Defesa da Alemanha, de França e de Espanha vão reunir-se a 11 de Dezembro com o objectivo de tentar desbloquear o Future Combat Air System (FCAS), o programa europeu para desenvolver um caça de sexta geração acompanhado por drones, avaliado em cerca de 100 mil milhões de euros. A reunião, conhecida antecipadamente através de fontes consultadas pela Reuters, pretende ultrapassar os conflitos industriais que têm travado o avanço do projecto.

Reunião de 11 de Dezembro para desbloquear o FCAS

A Bloomberg noticiou em primeiro lugar a realização deste encontro, que surge após várias semanas de negociações sem sucesso entre a Dassault Aviation e a Airbus. Fontes alemãs indicam que a Dassault procuraria controlar 80% do programa, algo que a empresa francesa rejeita. Do lado francês, fontes acusam a Airbus de tentar alargar a sua margem de decisão, aproveitando o facto de ser o representante industrial da Alemanha e de Espanha.

Um participante nos contactos preparatórios afirmou que os fabricantes continuam em desacordo “sem mudanças”. Na terça-feira, o CEO da Airbus, Guillaume Faury, alertou a Reuters de que “the jury is still out” quanto ao desfecho das conversas, ao mesmo tempo que insistiu na manutenção do actual modelo de governação para a fase seguinte. “We don’t want to be in a situation where there is one partner dominating the others and saying ‘do this, do that,’” afirmou.

A Dassault evitou comentar recentemente, embora o seu CEO, Éric Trappier, tenha sublinhado que a empresa precisa de ter autoridade de decisão sobre o núcleo do NGF (Next Generation Fighter), enquanto a Airbus deveria liderar os segmentos ligados a sistemas não tripulados.

FCAS/SCAF, o NGF e o demonstrador tecnológico

O FCAS - ou SCAF, em francês - foi lançado há mais de oito anos com a ambição de colocar em serviço, por volta de 2040, um sistema de combate aéreo em rede, alinhado com o programa GCAP desenvolvido pelo Reino Unido, Itália e Japão. Apesar disso, divergências entre a Dassault Aviation e a Airbus interromperam o caminho para a próxima etapa, que inclui a construção de um demonstrador tecnológico.

Tensões acumuladas entre Dassault e Airbus

As conversas em curso somam-se a uma sequência de desacordos tornados públicos nos últimos meses. Em Julho, Trappier criticou abertamente a estrutura de governação do FCAS, defendendo que uma “three-headed leadership” dificulta a tomada de decisões. “The question is not whether Dassault leaves the program, but whether it can continue under these conditions,” afirmou durante a apresentação dos resultados semestrais da empresa. Segundo o executivo, um projecto desta dimensão exige “um arquitecto com verdadeira autoridade de decisão”.

Entretanto, notícias sobre um alegado pedido francês para controlar 80% do programa geraram críticas na Alemanha. Deputados do Bundestag avisaram que seria politicamente inaceitável financiar um projecto dominado por França. A Dassault negou ter feito essa exigência, mas o clima entre os parceiros deteriorou-se.

Em Setembro, a crise agravou-se quando um responsável francês disse que o país está preparado para avançar sozinho caso não haja entendimento. “If we fail to reach an agreement on FCAS, there is no need to worry, France has built, knows how to build, and will build a fighter on its own,” declarou a jornalistas sob condição de anonimato. O mesmo responsável frisou ainda que o objectivo de entrada ao serviço em 2040 é “non-negotiable”.

Poucos dias antes, tanto a Dassault Aviation como a Airbus Defence and Space tinham afirmado que, do ponto de vista técnico, conseguiriam desenvolver o NGF sem depender uma da outra, embora persistam dúvidas sobre a capacidade financeira de França para sustentar sozinha o projecto.

Trappier voltou a insistir, perante deputados franceses, que a distribuição actual de responsabilidades pode provocar atrasos se não for ajustada. “I am not against the project, but when Germany says it is going to exclude France, doesn’t that bother you? (…) Unfortunately, today, if a dynamic of hard power is not created, no results are obtained,” argumentou.

Um projecto estratégico europeu em risco

O FCAS está pensado como substituto futuro do Rafale e do Eurofighter Typhoon, com um sistema de combate assente num caça tripulado, drones acompanhantes e uma “combat cloud” que liga todas as plataformas. Contudo, quase uma década depois do lançamento, o conflito industrial deixou o programa num impasse.

A reunião de 11 de Dezembro será determinante para perceber se Alemanha, França e Espanha conseguem chegar a um novo modelo de governação que permita avançar para a construção do demonstrador. O resultado ditará se a Europa mantém um desenvolvimento conjunto ou se cada país seguirá caminhos separados para a próxima geração de aeronaves de combate.

Imagens meramente ilustrativas.

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