Há quem olhe para França e se pergunte: com salários no topo a disparar e a carga fiscal a aliviar para quem mais tem, estará o país a transformar-se num “paraíso” para os muito ricos? Uma nova análise do Insee ajuda a perceber melhor o que está a acontecer no extremo superior da distribuição de rendimentos.
Ano após ano, o Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Económicos (Insee) publica o seu retrato social de França - uma espécie de radiografia que permite acompanhar a evolução socioeconómica do país e da sua população. A edição mais recente traz pistas particularmente interessantes sobre os muito elevados rendimentos no Hexágono.
Assim, entre os 100 cargos mais bem pagos em França, cerca de um terço corresponde a desportistas profissionais, a par de assalariados em funções de direção, noticia a TF1. Além disso, quem recebe as remunerações mais altas tem, na maioria dos casos, mais de 50 anos e trabalha frequentemente na região de Île-de-France.
La fracture sociale française grandit
Mas a principal conclusão deste relatório do Insee é a forte subida dos rendimentos dos mais abastados. O organismo público aponta para os 40 700 agregados fiscais com o nível de vida mais elevado - ou seja, 0,1% da população francesa - que ganham, em média, 1 milhão de euros por ano, o dobro do que recebiam há 20 anos.
O Libération уточa que, em 2003, estes muito altos rendimentos recebiam 21 vezes mais do que os outros agregados, contra 31 vezes mais em 2022. Como explicar esta mudança? Os rendimentos dos restantes agregados fiscais dependem sobretudo de salários ou pensões de reforma. Já no caso dos mais ricos, a origem é muitas vezes diferente, vindo de dividendos de ações e de rendimentos prediais.
Em paralelo, sucessivas decisões governativas favoreceram os mais abastados. A sua tributação desceu de 29,2% em 2003 para 25,7% em 2022, segundo a nossa colega. Isso foi possível, nomeadamente, com a redução do último escalão do imposto sobre o rendimento de 48% para 45% em 2012. Depois, em 2018, a introdução do prélèvement forfaitaire unique de 30% aplicado aos rendimentos de capital - também conhecido como “flat tax” - permitiu aliviar a fatura paga pelos mais endinheirados.
Este retrato torna-se ainda mais amargo por surgir após outro relatório do Insee publicado em julho passado. O organismo já assinalava um agravamento da fratura social em França, com a subida da taxa de pobreza para 15,4% em 2023, face a 14,4% no ano anterior. No total, 9,8 milhões de pessoas vivem agora com menos de 1 288 euros por mês (para uma pessoa sozinha) e 1 932 euros (para um casal).
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