A economia dos Estados Unidos registou um crescimento consistente ao longo das cinco décadas entre 1970 e 2020, destacando-se de forma clara - sobretudo a partir de 1990 - face à evolução real do PIB per capita noutras economias avançadas, em particular na Europa Ocidental e no Japão (ver tabela). É certo que, no período 1970-1990, o desempenho americano ficou aquém do japonês: nessa fase o Japão crescia a um ritmo muito elevado, partindo de níveis de PIB per capita relativamente bem inferiores aos dos EUA em 1970 e beneficiando ainda do efeito de convergência após a devastação da Segunda Guerra Mundial (o troço final da “explosão percentual” do crescimento japonês a partir “do zero”).
Índice do PIB Real per capita, 1970=100
A superioridade dos EUA torna-se ainda mais nítida quando se observa o nível relativo do PIB per capita ajustado pela paridade do poder de compra (ver a tabela seguinte). Em 1970, a Europa Ocidental situava-se nos 72% do valor registado nos EUA, mas em 2020 essa proporção já era apenas 68%. Mesmo o Japão - onde o indicador em 1970 correspondia a 49% do nível americano - só conseguiu reduzir a diferença em 10 pontos percentuais entre 1970 e 2020, apesar do impulso de convergência verificado até 1990, referido acima.
Nível relativo do PIB real per capita, face aos EUA, ajustado pelo poder de compra
Deste modo, os EUA preservaram níveis médios de riqueza substancialmente superiores aos das restantes economias avançadas. Importa, além disso, sublinhar que este fosso se alargou de forma muito marcada entre 1990 e 2020: os EUA alcançaram um crescimento real per capita de 54%, enquanto a Europa Ocidental ficou pelos 38% e o Japão pelos 30%.
Três pilares do desempenho da economia americana
Este percurso aconteceu num contexto em que predominava a liberalização do comércio internacional, primeiro sob a égide do GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) e, a partir de 1995, da WTO (Organização Mundial do Comércio). Ao longo desse período, os EUA mantiveram uma tarifa alfandegária média quase sempre abaixo de 5% - sendo em 2024 na ordem de 2% -, evitando opções protecionistas e operando, em geral, como uma economia aberta. Isso obrigava, de forma ampla, as empresas americanas a competir com os agentes mais eficientes do seu setor em todo o mundo e ajudava a garantir uma alocação interna de recursos mais eficiente.
A alocação eficiente de recursos é determinante para o desempenho económico de longo prazo. Em paralelo, a meritocracia típica da economia americana funcionou como um poderoso íman para talento global, ao proporcionar oportunidades singulares de afirmação profissional aos melhores entre os melhores. Esse mecanismo ajudou os EUA a manterem-se na linha da frente da inovação e da criação de valor, década após década.
A este quadro juntou-se uma vantagem adicional de grande peso: o dólar ser a principal moeda de reserva mundial e ocupar uma posição central no sistema internacional de pagamentos. Esse estatuto permite que a economia americana se financie a custos muito inferiores aos que enfrentaria sem essa condição.
Em conjunto, estes três pilares - economia aberta, capacidade ímpar de atrair e reter talento, e estatuto do dólar como moeda de reserva mundial - alimentaram-se mutuamente, criando um ciclo virtuoso que sustentou o crescimento e contrariou sucessivas previsões de esgotamento e declínio.
2026: como Trump está a desmontar os pilares
Avancemos rapidamente para 2026.
Os dois primeiros pilares (economia aberta e atração de talento) estão a ser sistematicamente desmontados pela administração Trump. O terceiro pilar (hegemonia do dólar) também pode vir a sofrer abalos, caso se combine uma eventual perda de independência da Reserva Federal com a continuação do agravamento do défice público e do peso da dívida do Estado no PIB - efeitos que seriam ainda ampliados pela erosão dos outros dois pilares.
Pilar 1 - Economia aberta e tarifas
No que respeita ao primeiro pilar, e deixando de lado os impactos (ainda incertos) da recente decisão do Supremo Tribunal sobre a (i)legalidade das alterações tarifárias decretadas por Trump em 2025, basta notar que, após essas medidas, a tarifa média deverá situar-se na ordem de 10/15%, contrastando com os referidos 2% em 2024.
Para encontrar níveis comparáveis aos atuais, é necessário recuar ao início dos anos 30 (durante a vigência da Lei Smoot-Hauley). Assim, o pilar da economia aberta - assente numa alocação interna eficiente de recursos - ficará comprometido, a menos que as tarifas consideradas ilegais pelo Supremo Tribunal sejam anuladas e não sejam substituídas (substituição que Trump já prometeu decretar, recorrendo a mecanismos legais alternativos).
O que Trump interpretou como um quadro de relações comerciais internacionais profundamente prejudicial para a economia americana foi, na realidade, um dos fatores decisivos para a sua força. Isto não implica que o sistema estivesse livre de falhas ou que não tivesse gerado, por vezes com impactos sociais intensos em segmentos da economia dos EUA, situações de grande injustiça relativa - sobretudo na indústria transformadora com mão de obra menos qualificada.
Ainda assim, estes problemas pediam respostas centradas em fortes incentivos à reconversão de trabalhadores menos qualificados, e não o bloqueio ou a “esclerose” da economia através da subsidiação de indústrias inviáveis, protegidas por barreiras tarifárias.
Pilar 2 - Atração e retenção de talento (ciência e vistos H-1B)
A destruição do segundo pilar (atração e retenção de talento) pode revelar-se, a prazo, ainda mais penalizadora. Um exemplo está nos cortes no financiamento da investigação científica, incluindo, por exemplo, uma redução de 7.5 mil milhões de dólares na investigação patrocinada pelo Departamento de Energia, incidindo sobretudo em energias renováveis. Em paralelo, há também cortes na investigação na área da Saúde, com riscos muito elevados, incluindo para planos de vacinação - referindo apenas dois dos domínios mais atingidos.
O efeito destas decisões na capacidade de atrair e reter os melhores cientistas e investigadores tenderá a ser transversal a toda a economia. Entretanto, e sem surpresa, a China reforçou o apoio à investigação, em particular nas energias renováveis, onde já detém uma liderança incontestada, por exemplo no solar.
Este segundo pilar é ainda afetado por outra das “traves mestras” da atuação de Trump, que incide sobre uma das maiores fontes de criação de valor na economia dos EUA nas últimas cinco décadas: o programa de vistos H-1B. Este regime concede licenças provisórias de trabalho a imigrantes qualificados, com elevada participação de candidatos com currículos STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), que mais tarde obtêm estatuto de residentes e se fixam nos EUA.
Doravante, cada candidato terá de suportar um custo de 100 mil dólares para obter este visto, o que funcionará como fator de exclusão para muitos candidatos oriundos de países como a Índia ou a China, que representavam uma parte significativa das candidaturas. Segundo o prestigiado Cato Institute, citando um estudo que cobre 1976/2012, 16% dos inventores americanos com atividade nesse período imigraram para os EUA quando tinham pelo menos 20 anos e foram responsáveis por 23% das patentes registadas nos EUA nesse intervalo - isto é, uma quota de patentes 40% acima da sua quota na população detentora de invenções patenteadas.
Com base na reação dos mercados ao registo de patentes por empresas americanas cotadas em bolsa, o estudo conclui que 25% do valor económico gerado por essas patentes naquele período é atribuível a inventores imigrantes. Trata-se de uma criação de riqueza desproporcionada face ao peso que representavam na população americana com qualificações académicas semelhantes - para não falar da comparação com o americano médio em idade produtiva.
Pilar 3 - Dólar e Reserva Federal
Quanto ao terceiro pilar (o estatuto do dólar como moeda de reserva para o resto do mundo), os episódios de pressão política sobre a Reserva Federal, recorrendo a métodos até aqui impensáveis, poderão já ter contribuído para a depreciação verificada desde o final de 2024.
Sem uma economia aberta, sem uma alocação otimizada de recursos, sem os melhores indicadores de inovação e de disrupção criativa, e sem uma moeda forte sustentada por um banco central credível e cuja independência esteja acima de qualquer suspeita, o modelo económico que produziu o denominado excecionalismo americano ficará seriamente ameaçado.
Os efeitos de tudo isto, com elevada probabilidade, não serão imediatamente visíveis nas estatísticas. No entanto, se estas políticas não forem revertidas, o seu impacto irá corroendo a competitividade da economia dos Estados Unidos de forma gradual, mas inexorável.
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