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56% dos estudantes da Universidade de Lisboa já ponderaram desistir por se sentirem “psicologicamente esgotados”

Jovem sentado à secretária com laptop, livros e carteira, esfregando o nariz com expressão cansada.

Mais de metade dos alunos da Universidade de Lisboa admite que já equacionou abandonar o curso por se sentir “psicologicamente esgotados”, conclui um estudo sobre saúde mental promovido pela Associação Académica e divulgado esta terça-feira.

Segundo os dados a que a Expresso teve acesso, 56% dos participantes referem que já pensaram desistir por esse motivo, enquanto 44% garantem que “nunca” o consideraram. Para o estudo, isto “significa que mais de metade da amostra já experimentou um nível de desgaste suficientemente elevado para pensar em abandonar o percurso académico”. No caso dos bolseiros, a percentagem sobe: quase 60% dizem ter ponderado sair, o que poderá “sugerir uma maior vulnerabilidade emocional ou uma maior pressão acumulada entre estudantes com apoio social”.

O inquérito reuniu 503 respostas e esteve disponível entre 19 de fevereiro e 6 de março, através de um questionário online, avaliando várias dimensões do bem-estar psicológico. A amostra é maioritariamente feminina e composta sobretudo por jovens entre os 18 e os 23 anos, com maior representatividade da Faculdade de Letras (27%) e da Faculdade de Direito (22%), embora várias outras escolas da Universidade de Lisboa também estejam incluídas.

Apenas 5% dizem nunca ter tido crises de ansiedade

O relatório aponta que os resultados “revelam sinais relevantes de sofrimento psicológico entre os estudantes”. Só 5% indicam nunca ter passado por crises de ansiedade, definidas como “taquicardia, sudorese, dificuldades respiratórias, tremores, pensamentos destrutivos”. Entre os restantes, quatro em cada dez afirmam senti-las “frequentemente”, 35% “raramente” e 3% dizem vivê-las “sempre”, o que, segundo o estudo, “confirma que a ansiedade é uma experiência comum na amostra”.

No indicador de bem-estar geral, 83% dizem sentir-se bem física e psicologicamente apenas “às vezes”, o que remete para “uma perceção de bem-estar instável e não permanente”. Já ao nível do descanso, 41% apontam dificuldades em dormir ou em acordar a horas “às vezes” e 34% “sempre”, “revelando que os problemas de descanso e regularidade são muito frequentes”.

A desmotivação surge igualmente em destaque: cerca de 72% dos estudantes admitem sentir-se “às vezes” desinteressados ou desmotivados nas rotinas diárias, e um em cada cinco refere sentir-se “sempre” assim, o que “sugere um nível elevado de desgaste emocional”. Também a tendência para o isolamento é descrita como “significativa”: 44% dizem senti-la “frequentemente” e 40% “raramente”, sinalizando “oscilações no relacionamento social e no desejo de afastamento”.

Quanto à relação entre desempenho académico e saúde mental, 71% consideram que o rendimento escolar piorou devido ao seu estado psicológico, e 64% dizem que a própria saúde mental se deteriorou por causa dos resultados académicos. Para 72% dos inquiridos, o método de avaliação da faculdade onde estudam tem “efeitos nocivos” no bem-estar psicológico.

O estudo acrescenta que estes dados “reforçam a ideia de que existe um impacto real do stress académico na saúde mental dos inquiridos”. Ainda assim, 62% colocam o estudo e a faculdade como “prioritários em relação à saúde mental”, o que “sugere uma forte valorização do percurso académico, mesmo quando isso possa implicar algum sacrifício do bem-estar psicológico”.

Pressão financeira agrava o mal-estar

A componente económica aparece como outro elemento com peso. Mais de metade (54%) considera que a situação financeira tem impacto negativo na saúde mental: 20% dizem que afeta e 34% apontam efeito “moderadamente”. Entre os bolseiros, o total aumenta para 66%, com 41% a indicarem impacto “moderado” e 25% um impacto direto.

A ligação entre dificuldades económicas e bem-estar psicológico é sublinhada por Gonçalo Osório de Castro, presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa. “É de relevar que 50% dos estudantes consideram que as suas situações financeiras impactam negativamente a sua saúde mental. Não podemos, portanto, dissociar a problemática habitacional e do custo de vida da questão psicológica”, afirma ao Expresso.

Os encargos associados à frequência universitária revelam-se particularmente relevantes para estudantes deslocados. Dentro deste grupo, 35% dizem ter despesas superiores a 800 euros por mês, 31% situam-nas entre 600 e 800 euros e 18% entre 400 e 600 euros. Apenas 15% referem custos mensais abaixo de 400 euros. Entre os não deslocados, o padrão muda: 47% afirmam gastar menos de 400 euros por mês, 26% entre 400 e 600 euros, e 14% entre 600 e 800 euros ou mais de 800 euros. O estudo nota que “estes valores indicam que uma parte significativa dos estudantes vive com orçamentos reduzidos, o que traduz alguma pressão financeira no quotidiano”.

Sobre a residência durante o período letivo, 69% vivem com a família, algo que “pode funcionar como proteção financeira e emocional”. Ainda assim, 16% moram em quarto arrendado, 8% em residência universitária e 7% em casa arrendada. Nos transportes, 70% utilizam principalmente transporte público, e os tempos de deslocação são muitas vezes longos: 31% demoram entre 30 minutos e uma hora, e 27% entre uma hora e uma hora e meia. Só 11% chegam à faculdade em menos de 15 minutos.

Mais de metade dos alunos não conhece o cheque-psicólogo

No que toca ao acesso a cuidados de saúde mental, o estudo destaca o desconhecimento do cheque-psicólogo, medida que assegura consultas gratuitas a estudantes do ensino superior. No total, 65% dizem não conhecer este apoio, “o que mostra uma baixa literacia sobre este apoio”. Entre os 35% que afirmam conhecê-lo, apenas 9% já o utilizaram.

Apesar desse desconhecimento, 66% dos inquiridos referem que já recorreram a apoio psicológico. A resposta mais utilizada é o setor privado, representando 64% dos casos, bem acima do SNS (9%) e das respostas disponibilizadas pelas universidades (11%), algo que, segundo o estudo, “evidencia uma forte dependência de recursos pagos”.

Quanto às dificuldades no acesso, 56% dizem “nunca” ter problemas em obter consulta de psicologia ou psiquiatria, mas 45% reportam obstáculos - 32% “sempre” e 13% “às vezes”. Mesmo no grupo com despesas regulares em saúde mental (38% da amostra), 29% reconhecem dificuldades para conseguir consultas ou medicação, “mostrando que o acesso continua a ser uma barreira concreta”.

Na conclusão, a associação académica sustenta que os dados “mostram que a saúde mental no ensino superior tem de ser tratada como um problema estrutural que afeta de forma direta a permanência, o desempenho e o bem-estar dos estudantes”. O estudo aponta “níveis elevados” de mal-estar psicológico, ligados em parte à “precariedade financeira e às condições de vida”, e assinala fragilidades na resposta pública. “É ainda insuficiente, sobretudo quando muitos dos apoios existentes dependem de financiamento temporário do PRR, com término previsto para 31 de agosto de 2026”, lê-se.

Gonçalo Osório de Castro realça o trabalho recente da Universidade de Lisboa e considera que “o trabalho que tem sido desenvolvido nos últimos anos nesta vertente, com um aumento do número de consultas de psicologia, é extremamente meritório”, deixando, porém, um alerta: esta “missão não pode, contudo, ficar hipotecada pela quebra de financiamento do PRR que se avizinha”.

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