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Mark Mazower, Columbia e “Antissemitismo - Uma Palavra na História”: IHRA, protestos e o debate nos EUA

Jovem lê livro num acampamento em protesto com tendas e faixa contra o apartheid à frente de edifício público.

Protestos em Gaza, a Universidade de Columbia e a reacção política

Em 2024, uma vaga de protestos contra a violência israelita em Gaza converteu instituições históricas de ensino superior em palcos que faziam lembrar mobilizações de outras épocas, como as lutas pelos direitos civis e a contestação à guerra do Vietname. A Universidade de Columbia, no norte de Manhattan, tornou-se um dos emblemas mais visíveis dessa maré: os espaços exteriores foram ocupados por muitos activistas e por um conjunto de tendas que, segundo se dizia, estariam a impedir o funcionamento normal da vida académica. Ao mesmo tempo, chegaram aos meios de comunicação social queixas de que docentes, estudantes e funcionários judeus estariam a ser alvo de várias formas de violência, tanto verbal como física.

O historiador britânico Mark Mazower, há muito professor de História na Columbia, considera, porém, que a forma como tudo foi descrito na imprensa foi inflacionada. Como se sabe, as cenas apresentadas como quase dantescas serviram de pretexto para uma resposta governamental dura, aplicada nessa universidade e noutras, pressionando-as - sob ameaça de perda de financiamento estatal, crucial, entre outras coisas, para sustentar investigação científica - a reprimir este tipo de protestos e a adoptar novos códigos de conduta destinados a proteger, de alegadas agressões, as supostas vítimas.

Entre as universidades de topo que foram visadas, Harvard esteve entre as poucas que resistiram. À acção da Administração Trump somou-se ainda a de um conjunto de doadores bilionários judeus que, também eles, optaram por cortar apoios financeiros às universidades até estas passarem a comportar-se de modo mais alinhado com o que entendiam ser aceitável - isto é, de forma mais favorável às políticas do Governo israelita. É precisamente esse o ponto que, em larga medida, está em causa, como este livro torna claro.

Mark Mazower e “Antissemitismo - Uma Palavra na História”

A extensão do domínio, no presente, de grande parte do discurso político oficial norte-americano por imposições ligadas a Israel é ampla. Por todo o país, surgem legislaturas a adoptar definições de antissemitismo cujo efeito prático é travar qualquer crítica às acções do Governo em Telavive, sob pena de diferentes sanções. Mazower é particularmente severo em relação à definição avançada pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto - IHRA, no acrónimo original - que, cada vez mais, e de forma errada, tem servido para orientar os esforços do Governo norte-americano nesta matéria.

Mazower é tão acima de suspeitas quanto se pode pedir. Vem de uma família judia: um dos seus antepassados integrou o Bund, partido socialista judaico russo que acabaria por se fundir no Partido Comunista (história que ele conta em “O que não me contaste: um passado russo e a viagem de regresso a casa”, uma exploração familiar publicada há alguns anos), e outro foi um romancista judeu polaco de grande relevo. Cresceu em Golders Green, área londrina tradicionalmente marcada por forte presença judaica, antes de se formar em Oxford e na Johns Hopkins University. Deu aulas em várias universidades britânicas e em Princeton, e passou a ocupar a cátedra Ira D. Wallach de História na Columbia. O seu trabalho académico não se centrou sobretudo no Médio Oriente, mas na Grécia e nos Balcãs, temas sobre os quais publicou várias obras. Alargando o foco, tem também abordado a história europeia do século XX em livros como “O Continente das Trevas” e “O Império de Hitler” (ambos nas Edições 70).

“Antissemitismo - Uma Palavra na História” surgiu quase por acaso, como resposta aos acontecimentos dos últimos anos. É um livro simultaneamente oportuno e muito rico em materiais, organizado em duas partes distintas e igualmente apelativas. Na primeira, Mazower acompanha o nascimento e a trajectória do termo ‘antissemitismo’, desde as origens, nas últimas décadas do século XIX. Não pretende, porém, narrar a história do fenómeno em si desde tempos remotos: a narrativa arranca na emancipação judaica em meados desse século e mostra como o antissemitismo - enquanto palavra e enquanto versão moderna do fenómeno - foi uma reacção a essa emancipação.

Parte do que Mazower descreve é bem conhecido; outra parte, ou caiu no esquecimento, ou não costuma ser apresentada com o grau de detalhe que ele oferece. Surgem nomes familiares associados a massacres, lado a lado com outros menos lembrados, por vezes de dimensão comparável e até ocorridos nos mesmos locais - a Ucrânia é um exemplo. A cada etapa aparecem formulações que fazem pensar, seja uma frase proferida por um político, seja uma comparação como a que Eric Hobsbawm estabelece entre historiadores e cultivadores de papoila no Afeganistão: o que estes representam para os dependentes de heroína, aqueles representam para o nacionalismo. Sem querer esticar a ideia, talvez não seja totalmente fortuito que o pai do actual primeiro-ministro israelita tenha sido historiador da Inquisição espanhola.

Mazower é particularmente severo em relação à definição avançada pela IHRA, que, cada vez mais, e de forma errada, tem servido para orientar os esforços do Governo norte-americano nesta matéria

IHRA, legislação anti-discriminação e o uso de “antissemitismo” no debate público

Depois da II Guerra Mundial, com o antissemitismo desacreditado pela derrota nazi e pelas revelações sobre as monstruosidades cometidas, parecia que ficaria enterrado para sempre. Evidentemente, não ficou. Mas, com a maioria da população judaica a viver já não na Europa, mas em Israel e nos EUA - onde passou a ocupar lugares de influência crescente -, os equilíbrios de poder alteraram-se, a ponto de hoje a palavra ‘antissemitismo’ ser usada para bloquear formas de crítica que, em quaisquer outras circunstâncias, seriam consideradas razoáveis.

Regressando ao quadro descrito no início, Mazower explica como “devido à legislação federal norte-americana contra a discriminação, os administradores universitários enfrentavam a ameaça de serem acusados de criar um ambiente hostil para determinados grupos. Foi isso que abriu caminho para que se começasse a argumentar, pela primeira vez com alguma probabilidade de êxito, que a crítica a Israel poderia, por si só, ser considerada como criadora de um ambiente hostil. Até então, ninguém tinha pensado em usar a legislação antidiscriminação dessa forma”.

“Com base nas ambiguidades difusas da definição de IHRA”, prossegue Mazower, “advogados especializados em direitos civis começaram a apresentar queixas ao abrigo do Título VI junto do Departamento de Educação, alegando que certas universidades estavam a tolerar o antissemitismo. Foi o início de uma deriva preocupante. Em 2024, dezenas de universidades e faculdades norte-americanas encontravam-se sob investigação por parte do OCR, em processos que podiam ser desencadeados, não por estudantes ou seus representantes, mas por grupos de pressão política”.

Conclusão paradoxal: “Mesmo quando o Governo dos EUA começou a desmantelar o aparato mais amplo de combate à discriminação, destacou o antissemitismo nos campus como um caso especial.” Há-os sempre.


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