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Arménia entre Rússia, EUA e UE: o desafio de Pashinyan

Homem com mapa entre duas cidades simbolizando Kremlin e Capitol dos EUA, com as bandeiras da Rússia e UE ao fundo.

Na semana passada, no Expresso, descrevi como o primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinyan, se envolveu numa disputa diplomática com Vladimir Putin. Foi um episódio curto e de baixa intensidade, mas com um grau de audácia pouco comum. Um país do Cáucaso, amarrado à Rússia por uma dependência - sobretudo energética - anunciou a intenção de cortar ligações institucionais a estruturas sob liderança do Kremlin: a União Económica Eurasiática e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva - em termos simples, a alternativa moscovita a uma comunidade de nações e o que restou da herança do Pacto de Varsóvia. Para quem acompanha o que aí vem na vizinhança europeia, este caso é uma lente rara para observar três potências perante o mesmo espaço: a Rússia, que se recusa a perdê-lo; os EUA, que podiam capitalizá-lo; e a UE, que parece não o notar.

Rússia e a dependência da Arménia

Do ponto de vista russo, o interesse é de natureza estrutural. Bastaram os últimos seis anos para se perceber até que ponto a Arménia está enredada numa teia de dependências que atravessa praticamente todos os domínios: energia, remessas de emigrantes, empresas arménias a operar em território russo (como a conhecida água Jermuk) e até o fluxo de jovens russos que escolhem investir na Arménia por causa do custo de vida mais baixo.

Esse conjunto de ligações ajuda a explicar por que razão, à medida que a Rússia se enfraquece no sistema internacional - fragilidade que se evidencia na dificuldade em forçar a capitulação do complexo militar-industrial ucraniano -, Moscovo procura compensar convertendo vulnerabilidade externa em projeção direta de poder sobre as antigas repúblicas soviéticas. Esse movimento não é hipotético: já começou.

Daí que a cedência de territórios e os termos que venham a sustentar o congelamento do conflito no Donbass sejam mais do que um detalhe: serão o que dá legitimidade, ou o que trava, as ambições de futuras aventuras expansionistas desta administração instalada no Kremlin.

EUA: oportunidade e hesitação na Arménia

Do lado norte-americano, a lacuna é evidente. Teria sido mais simples consolidar uma relação com a Arménia no momento em que foi assinado, no ano passado, o acordo de paz entre a Arménia e o Azerbaijão, mediado pelos EUA - mais um troféu no palmarés de paz de Donald Trump. Foi uma ocasião pouco frequente para Washington estender o seu raio de influência.

Os incentivos geopolíticos existem e são claros, até porque a vasta diáspora arménia nos EUA facilita essa aproximação. Trata-se de uma diáspora com capacidade para organizar grupos de interesse em solo norte-americano, que John Mearsheimer compara, com as devidas diferenças de escala e de poder, aos lobbies israelitas, no livro “the Israel Lobby and the US Foreign Policy”.

No território arménio, há um duplo interesse estratégico para sucessivas administrações norte-americanas. Em primeiro lugar, travar um revisionismo de matriz soviética: conter a projeção de força que passa pelo crescimento de partidos pró-russos e, simultaneamente, encontrar um bastião de valores cristãos ocidentais que funcione como contraponto à ortodoxia russa. Em segundo lugar, tal como acontece nas relações com as monarquias do Golfo, criar uma ligação com um país que possa apoiar esforços diplomáticos em eventuais confrontos com o Irão e abrir espaço a uma maior projeção de influência e de inteligência americana na região.

E, ainda assim, talvez por antecipar os riscos inerentes a essa escolha - e também por a Arménia não ser particularmente rica em nenhum elemento decisivo para as opções do mercado internacional -, Washington mantém-se reticente.

UE: afinidade cultural e ausência de agenda

Na frente europeia, o mutismo é quase uma formalidade. A UE tem demasiadas urgências em cima da mesa. Receio, aliás, que na próxima década a Arménia nem chegue a ser considerada prioridade. Se o alargamento europeu fosse uma refeição, não só a União Europeia tem “too much on its plate”, como a Arménia nem sequer aparece no menu.

É tratada como um daqueles digestivos oferecidos pela casa: algo de que ninguém espera muito, mas que pode surpreender - sobretudo por revelar uma capacidade crescente de projeção de poder brando através da plataforma TUMO, dedicada à inovação e à transferência de conhecimento. Erevan está a crescer a um ritmo notável, e torna-se difícil sustentar que não se trata de uma cidade com espírito europeu.

Os arménios têm um provérbio - “ush lini, nush lini” - que se traduz por algo como “pode demorar, mas vai correr bem”. Perante esta paciência, mesmo os mais convictos no “ush lini, nush lini” da aproximação ao Ocidente começam a recear que o esforço seja de sentido único: que o interesse da Arménia pelos EUA e pela UE não encontre um equivalente do lado americano e europeu. E é nessa espera prolongada que se decide o destino do país.

A Rússia consegue manter a Arménia dependente sem revelar vontade (ou capacidade) para assegurar a sua proteção face a outras potências médias da região. Os EUA têm à frente a oportunidade ideal, mas com o foco ligeiramente desviado para o Médio Oriente. A UE tem afinidade cultural, discurso e interesse, mas opera com uma hierarquia de prioridades onde a Arménia não entra. Antes dela surgem os Balcãs, a Moldova e a Geórgia.

Se esta aproximação de Pashinyan ao Ocidente falhar, é plausível que, dentro de meia década, estejamos a discutir o crescimento final e a cristalização de forças políticas pró-russas nas instituições e no sistema eleitoral arménio - um recuo democrático num país que procura ser ocidental, mas ao qual não apontam o norte.

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