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Leituras em viagem: Viena - Londres - Nova Iorque - Tóquio - Toulouse

Jovem sentado num comboio a ler um livro, com máquina fotográfica, passaporte e fotos espalhadas na mesa.

VIENA - LONDRES - NOVA IORQUE - TÓQUIO

Ler também pode ser uma forma de amar. Fazemo-lo em navegação de cabotagem: atravessamos leituras obrigatórias, voltamos a elas, insistimos. Lemos até adormecer. Lemos em comboios e em aviões. Lemos no intervalo curto de um semáforo para peões. Lemos com as pontas dos dedos, a decifrar braille. Lemos enquanto esperamos o resultado de um exame clínico daqueles complicados. E, se for preciso, procuramos autoajuda em manuais de instruções de varinhas mágicas ou em frases rabiscadas nos muros.

Talvez, em cada página, descubramos uma viagem - e ninguém tem de dar por isso.

Há quem leia tudo o que lhe cai nas mãos. Existem amantes de biblioteca, ratos de livraria, espeleólogas de alfarrabista. E conheço também quem prefira o digital, sem pó e sem sinais de desarrumação. As regras de leitura não se passam de pessoa para pessoa. Uma leitura pode estar a encobrir outra. E, no fim, qualquer leitura é sempre preferível ao vazio.

No cinema, o filme de Chloé Zhao “Hamnet” devolve-nos às palavras de William Shakespeare. E está prestes a chegar às livrarias uma edição bilingue de “Hamlet”, com versão portuguesa de Daniel Ramalho. Shakespeare terá escrito este drama por volta de 1599, com energia suficiente para continuar a renascer em páginas e em palcos, sem prazo de validade.

Por volta de 1930, o arquiteto Felix Augenfeld concebeu uma cadeira de escritório feita à medida para Sigmund Freud, fundador da Psicanálise. A encomenda partiu de Mathilde, filha de Freud. A intenção era simples: dar-lhe conforto físico, porque Freud gostava de ler sentado de formas pouco convencionais, com uma perna pousada num dos braços da cadeira. Essa mesma cadeira seria fotografada em Viena pouco antes de Freud seguir para o exílio em Londres, em julho de 1938. O nazismo estava instalado, aproximava-se a II Guerra Mundial. E o Holocausto já tinha sido posto em marcha, delineado pela cúpula do regime ditatorial de Adolf Hitler.

Em Viena, é possível visitar o Museu Sigmund Freud. Já em Londres, o Museu Freud apresenta até 28 de junho a obra surrealista de Leonora Carrington. E, em permanência, exibe também a cadeira desenhada por Augenfeld. Décadas após a morte de Freud, Robert Longo viria a criar uma série de desenhos a partir das fotografias de 1938, feitas como gesto de despedida à casa austríaca de Freud.

Dessa série freudiana de Robert Longo, um dos desenhos pode ver-se em “Espetáculo de Cadeiras”, até 23 de maio na Galeria Pace, em Nova Iorque. Reúnem-se ali cadeiras de artistas como David Byrne, José Bento, René Magritte, Isamu Noguchi ou Robert Rauschenberg. E também Andy Warhol, que transformou uma cadeira elétrica num ícone. No Japão, a obra de Longo está patente até 17 de junho na Galeria Pace de Tóquio. Inclui uma caricatura do atual inquilino da Casa Branca, em forma de transportador de hambúrgueres. E inclui ainda este ser marinho, que também faz lembrar um cogumelo atómico.


Resistência

TOULOUSE

A leitura silenciosa é um gesto íntimo e vulnerável. O caminho mais direto entre uma página e a seguinte pode interromper-se. E é possível que nunca mais regressemos àquele poema, àquele romance ou ensaio, àquela reportagem ou entrevista. Podem até ser palavras gravadas na pedra há milénios, mas cansámo-nos. O interesse deslocou-se para outro território. E foi a própria leitura que nos deu o impulso para largar essas frases e seguir viagem - agora de pé, para fora.

Cada pessoa vai descobrindo as suas posturas preferidas para ler, que tanto podem ficar fixas como mudar ao longo do tempo. Podem ser versos de Taylor Swift ou de Luís Severo, pensados para serem escutados mais do que lidos. Podem ser cartas trocadas entre pessoas sem qualquer preocupação com a posteridade. Podem ser colunas de um jornal da tarde de há décadas. Ou versos de deslocação e contenção, escritos há séculos por Matsuo Bashô.

Ler é, além disso, uma forma antiga de resistência perante as desumanidades. Como esta linha ténue pintada por Helena Almeida, até 23 de agosto em Toulouse, na exposição do Château d’Eau “Desenhos habitados”, com Chema Madoz. Sim: habitamos aquilo que lemos.


FOTOMATON

Nova Iorque, 1990. Anton Corbijn fotografou Martin Gore, dos Depeche Mode, desta maneira. Agora, estas lunetas estão no Japão, no festival Kyotographie. Podem ser vistas até 17 de maio na Galeria Shimadai, em Quioto.

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