Cheguei de Angola, onde quase tudo está por construir e isso põe em perspetiva os pequenos dramas caseiros, e dei de caras com mais um capítulo da novela política que, entretanto, perdeu fôlego: Pedro Nuno Santos voltou ao parlamento com estrondo e obrigou toda a gente a responder. Nada disto surpreende quando um antigo líder decide ficar como deputado - uma escolha que, na prática, só se entende se houver a intenção de voltar a ser alguém com peso político.
Duarte Cordeiro respondeu à acusação de “tacticismo”. É verdade que podia ter avançado contra Carneiro. Quando o ciclo mudou, Pedro Nuno avançou. E fê-lo no pior momento para si e para o PS. Ainda assim, numa coisa Cordeiro acerta: é o tipo de polémica que entusiasma comentadores e, ao mesmo tempo, embala de tédio a maioria dos portugueses.
Pedro Nuno Santos e o ruído que ocupa o espaço
Interessa-me mais, por isso, a leitura de Pedro Adão e Silva, que conhece o PS melhor do que eu. Mesmo discordando de várias passagens - a aproximação entre Pedro Nuno e Santana Lopes é uma ferroada absurda que até enfraquece a força analítica do texto -, o debate relevante está para lá da falta de carisma de Carneiro (que, ainda assim, se vai safando) ou da vontade de travar Duarte Cordeiro numa fase em que o PS sobe nas sondagens.
A questão não é tanto, como escreve Adão e Silva, se a liderança é mais ou menos “populista” - uma palavra tão maltratada que deixou de servir para o debate político. O ponto, como ele também sublinha, é perceber se há espaço para polarizar. E eu digo que não, por experiência recente e pela própria lógica da política.
O balancé eleitoral: como as margens inclinam os grandes partidos
O PSD, que se foi radicalizando nos últimos anos - da imigração à segurança, da economia às leis laborais, dos costumes à relação com a nossa memória - enquanto classifica como radical tudo o que exista à sua esquerda, não o fez por mero impulso. Fê-lo para responder ao crescimento da IL e do Chega. Isto não significa que essas posições lhe sejam completamente alheias; significa, isso sim, que esse movimento libertou uma força interna que já estava lá.
Do lado do PS, nenhuma das campanhas dos dois últimos candidatos vindos da ala esquerda socialista (Pedro Nuno Santos e Alexandra Leitão) se aproximou de qualquer forma de radicalismo. Pelo contrário, ficaram quase esvaziadas por tantas demonstrações de moderação que tiveram de dar num contexto mediático cada vez mais desequilibrado. Não é por o PS estar impossibilitado de ser fiel à sua matriz social-democrata; é porque o equilíbrio político-partidário o empurra para o centro e para a direita.
Tenho defendido que o sistema funciona como um balancé: não é quem ocupa o meio que decide para onde pende, mas sim o peso que está em cada prato. Hoje, são as margens que determinam a inclinação dos partidos mais abrangentes e, por natureza, mais maleáveis. À direita do PSD concentram-se quase 30% dos votos; à esquerda do PS há menos de 10%, ainda por cima repartidos por três partidos. Um olha para a sua direita, o outro olha para o centro - para onde estão os votos.
Porque a polarização não cabe no PS - e faz falta fora dele
É evidente que o tabuleiro ainda pode mudar muito. O PS pode definhar ao ponto de Chega e PSD passarem a disputar o poder, como acontece em vários países do Leste. Ou uma força do centro pode ocupar a posição charneira, com três blocos, como em França. Ou, em alternativa, o PSD pode entrar em crise e o Chega tornar-se hegemónico à direita.
Em qualquer destes cenários, a batalha do PS pelo centro não terá contrapeso à esquerda e acabará - como acabou nas últimas presidenciais - por impor a um eleitorado de esquerda cada vez mais frustrado (incluindo eleitores do PS) a escolha do mal menor, cada vez mais morno. E, pela forma como o sistema partidário está organizado, isso deixará uma faixa crescente de eleitores sem representação política, vulnerável ao apelo da extrema-direita.
Neste quadro, não vejo como é que a liderança socialista pode ser ocupada por alguém mais conotado com a esquerda - falar em “radical” aqui é absurdo. O máximo que conseguem é guardar os seus valores no saco, comer o pouco que resta à sua esquerda e passar o resto do tempo a tentar ser aquilo que não são. No caso português, a situação é até mais dura do que a dos partidos irmãos na Europa Ocidental: o PS nem sequer tem uma origem operária e sindical que o prenda a uma tradição ou a uma memória.
Mesmo que o PS ganhe as próximas eleições, terá de governar com apoio do PSD. E nem terá margem para fazer pisca-pisca tático ou fingir que não vê, como Montenegro. Terá de cumprir as exigências do PSD, que, pressionado pelos partidos à sua direita, não fará qualquer esforço de moderação. Que dirigente mais à esquerda conseguiria desempenhar esse papel?
Uma liderança à esquerda e, em alguma medida, polarizadora, não é, nas condições atuais, viável no PS. Mas é precisamente isso que se torna indispensável fora do PS: só assim se reequilibram os pratos da balança, se recupera parte do voto que a esquerda perdeu para a extrema-direita (que o PS não tem condições de reconquistar), se ajuda a transformar uma maioria social em defesa do Estado Providência, dos direitos laborais e da redistribuição da riqueza numa maioria política e se dá ao PS um motivo para olhar para o que existe à sua esquerda.
O equívoco é acreditar que essa regeneração da esquerda pode nascer de protagonistas do PS. Talvez quem o defende apenas queira mostrar a Pedro Nuno e a outros a porta da rua - o que, para além de pouco elegante, é imprudente: o que parece certo para os próximos tempos não tem de ser verdade no médio e longo prazo, quando os socialistas podem voltar a precisar da sua ala esquerda. É por isso que a espera de Pedro Nuno não é absurda. É suficientemente novo para aguardar uma segunda oportunidade, num contexto diferente, dentro do PS.
As posições de muitos eleitores do Chega em matérias sociais e laborais mostram que existe muito terreno à esquerda para disputar. Mas isso não se faz com figuras marcantes do PS. O cansaço com o PS - que, em poucos anos, se estenderá ao PSD e a tudo o que vem do passado - é um travão ao crescimento.
Dito isto, não é o PS que tem agora de fazer uma reflexão rápida e sair do beco em que está. São os que estão à sua esquerda. Como se vê noutras experiências internacionais, poderão ser rostos diferentes, vindos de fora da vida política dos últimos dez anos, a constituir a resposta. Quais? Não sei. Ando nisto há tempo suficiente para não fingir que sei. Outros, mais frescos, talvez tenham pistas.
NOTA: deixo para a edição semanal do Expresso o texto sobre detenção de mais 15 polícias das esquadras do Rato e do Bairro Alto e a abjeta reação de André Ventura, que defende suspeitos de violação e tortura, desde que usem farda.
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