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Tempestade “Kristin” deixa Colmeias e Memória, em Leiria, sem telecomunicações há 100 dias

Homem deitado a dormir no sofá de uma sala com janela aberta, enquanto dois homens trabalham fora num telhado.

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“Venham ver! Aqui ainda não há internet nem televisão!” Em Barracão, na união de freguesias de Colmeias e Memória, a carrinha identificada do Expresso não passa despercebida: há quem acene e quem chame. Fernanda aparece à janela, regador na mão, a tratar das plantas. Há 100 dias que está sem telecomunicações, desde o dia em que a tempestade “Kristin” atingiu a zona com violência. Ao lado, a vizinha Adosinda ajuda-a e explica que, em sua casa, o serviço já regressou parcialmente - mas com um sinal fraco e instável.

Poucos metros adiante, em poucos minutos, acumulam-se clientes à porta da florista Bela Flor, todos com relatos semelhantes. A proprietária, Anabela Mota, descreve o impacto no negócio: “Não consigo imprimir as faturas, mas o pior mesmo é não receber as chamadas dos clientes que querem fazer encomendas. Estou a perder dinheiro todos os dias.” Belinha, como é conhecida por quem a trata de perto, continua também sem internet e televisão fixas desde a tempestade, tanto na loja como em casa, em Carnide de Cima.

Em várias localidades do concelho de Leiria, a normalidade das telecomunicações existe numa casa e falha na seguinte. Para quem ficou sem serviço fixo, resta a rede móvel - tão débil que, muitas vezes, nem chega ao interior dos estabelecimentos. “O multibanco ora apanha rede lá dentro, ora tenho de andar na rua com o terminal à pesca”, relata a florista. “Nos dias em que não apanho nada, muitos clientes dizem que vão levantar dinheiro e não voltam.”

Multibanco e encomendas: o comércio à espera de rede

A explicação para as pessoas não regressarem surge logo ali ao lado: as caixas do BPI, o banco mais próximo, também ficaram sem rede, e isso transformou em confusão as manhãs na pastelaria Aroma de Trigo. “Os clientes entram aqui esbaforidos. Não podem pagar o café com o multibanco e também não conseguem levantar dinheiro”, descreve a proprietária, Célia Santos, 51 anos.

Quase três meses após a tempestade, Célia diz ter deixado de esperar por uma solução das operadoras: “Já liguei, já fui à loja. Não resolviam nada. Decidi subscrever o serviço da Starlink. Pago €30 por mês e ao menos consigo imprimir faturas e usar o multibanco.” Mesmo assim, a rede móvel continua irregular: “Dentro da loja, umas vezes recebo chamadas, outras não. Perco muitas encomendas. Na Páscoa, faturei menos €700 do que no ano passado e mandei muita coisa fora.”

Entre 20 a 50% das intervenções da NOS no terreno são para recuperar ligações anteriormente reparadas

Estendais de fios

A Meo quantifica a dimensão dos estragos: “A tempestade destruiu 2000 km de fibra ótica, 28.000 postes e 47 torres de rede móvel”. Nas áreas atingidas, a reposição tem avançado ligação a ligação, literalmente casa a casa. Nas freguesias de Bidoeira de Cima, Colmeias e Memória, permanecem 60 clientes NOS sem serviço. “Deverá ficar solucionado até ao fim do mês de maio”, indica a operadora.

A Vodafone, por seu lado, refere que a rede móvel já foi restabelecida, embora com limitações: as torres de telecomunicações destruídas deram lugar a “torres provisórias e mais pequenas”, o que, diz, se reflete na qualidade do sinal.

Reparações de emergência e cabos no solo

Ao Expresso, as três principais operadoras admitem que a maior dificuldade continua a ser repor o serviço fixo. Explicam ainda que, quando é necessário substituir postes - ou quando estes foram destruídos - muitas vezes “a substituição ou destruição dos postes obriga a deixar muitas vezes no solo os novos cabos de fibra, aumentando a probabilidade de haver novos cortes por parte de terceiros”. A NOS acrescenta que a repetição de avarias tem sido frequente e calcula que “20 a 50% das intervenções no terreno são dedicadas à recuperação de ligações já anteriormente reparadas”.

O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, corrobora o carácter provisório do trabalho em curso: “Os técnicos andam de poste em poste, a enxertar cabos, a remendá-los. Não é uma intervenção que permita garantir segurança para o futuro, é uma reposição de emergência.” O vereador Luís Lopes dá um nome ao que vê no terreno - estendais de fios: “Temos vários espalhados pelo município. Existe uma grande necessidade de repor o serviço e, para isso, as operadoras recorrem a soluções pouco estáveis. Como fazem outsourcing deste tipo de serviços, acabam por contratar todas as mesmas empresas e a verdade é que há poucas equipas para tanto trabalho.”

“Torres temporárias mais baixas resultam numa cobertura de serviço distinta”, reconhece a Vodafone

Para a população, o primeiro pedido de ajuda chega muitas vezes à União de Freguesias de Colmeias e Memória, mas a presidente, Patrícia Marcelino, admite limitações na resposta: “É uma zona rural, com uma população envelhecida. Não temos uma via rápida de comunicação com as operadoras, porque está tudo centralizado na Câmara.” Perante isto, os casos mais urgentes acabam por ser resolvidos com apoio entre vizinhos. Anabela, a florista, dá exemplos concretos: “Eu também faço pagamentos de faturas de água, luz e carrego os telemóveis aos velhotes. Muitas vezes, para os ajudar, como não há rede aqui, eu pego nas faturas todas e vou a Pombal pagá-las.”

Sem redes sociais, Simão dorme melhor

Em casa, Anabela diz que o filho parece ter energia inesgotável: pergunta a cada cliente que entra na loja qual é o clube, anda com cromos no bolso e vive obcecado por futebol. A mãe descreve como a rotina familiar mudou com a falta de telecomunicações e confessa um efeito inesperado: Simão passou a dormir melhor. “O pediatra receitou-lhe duas horas sem ecrãs antes de dormir, mas nunca tínhamos conseguido cumprir. Fomos forçados a isso pela tempestade. Foi remédio santo”, conta. “Não só começou a dormir melhor como começou a ir mais vezes até à casa do avô, no fim da rua. Agora, até jogam às cartas um com o outro. Antes, ficava agarrado ao telemóvel.”

Simão semicerrar os olhos e provoca a mãe. Quando Anabela se afasta para atender um cliente, ele baixa a voz e atira: “Vou ao telemóvel dela na mesma, quando ela vai tomar banho.” Desata a rir. O “jejum” de redes sociais prescrito pelo médico e imposto pela tempestade começa, entretanto, a ser quebrado pelo regresso gradual da rede móvel a Carnide de Cima. Anabela percebe que ele diz uma asneira qualquer e não liga: “Mesmo que vá ao TikTok um bocadinho, não é a mesma coisa. Não fica naquilo até se ir deitar.”

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