As aves não formam casais, não criam crias nem exibem plumagens vistosas por mero capricho. Por trás desses comportamentos existe um factor mais fundamental. Um novo trabalho científico sugere que o grande motor não é o romance nem a rivalidade: é a sobrevivência.
Todos os anos, as aves eclodem em números aproximadamente iguais de machos e fêmeas. À partida parece um equilíbrio perfeito, mas esse cenário raramente se mantém.
À medida que crescem e enfrentam predadores, disputam alimento e lidam com doenças, é frequente um dos sexos morrer a um ritmo superior ao do outro. Quando chegam à idade adulta, a população pode ficar claramente inclinada para machos ou para fêmeas.
E esse desvio acaba por influenciar praticamente tudo o que se observa no comportamento das aves.
Um olhar mais atento às populações de aves
Uma equipa internacional de cientistas analisou 261 espécies de aves de 69 famílias. O objectivo era perceber o que surge primeiro: os comportamentos das aves ou o equilíbrio entre machos e fêmeas dentro de uma população.
À primeira vista, a resposta não é óbvia. Há comportamentos que parecem aumentar o risco. Fêmeas que incubam ovos podem tornar-se alvos fáceis para predadores.
Também os machos com penas chamativas podem atrair atenções indesejadas - tanto de potenciais parceiras como de caçadores. Isto levanta uma questão difícil: serão estes comportamentos os responsáveis por fazer morrer mais indivíduos de um sexo, ou acontecem precisamente porque um dos sexos já é mais abundante?
Para esclarecer esta dúvida, a equipa recorreu a grandes bases de dados e aplicou modelos estatísticos para separar os efeitos.
O que os dados revelaram
O professor Tamás Székely e colegas da Universidade de Bath trabalharam com investigadores da China, Alemanha e Hungria para desmontar este puzzle.
“Já demonstrámos anteriormente que o rácio sexual - o equilíbrio entre machos e fêmeas numa população - tem um papel crucial na forma como as aves escolhem parceiros, no grau de promiscuidade e em como mães e pais dividem as tarefas ao criar a descendência”, afirmou Székely.
“No entanto, até agora, não sabíamos se estes comportamentos são impulsionados pela demografia ou se são eles próprios que causam diferenças de sobrevivência entre os sexos, reforçando um desequilíbrio.”
Os resultados apontam de forma consistente para a mesma direcção: primeiro vem a demografia; depois, o comportamento.
O dilema do ovo e da galinha
Distinguir causa e consequência não foi simples. O Dr. Zitan Song, da Nanjing Forestry University, descreveu bem a dificuldade.
“Separar o que é causa e o que é consequência foi desafiante - um pouco como perguntar se veio primeiro o ovo ou a galinha - por isso usámos ferramentas estatísticas sofisticadas nas análises de dados de populações de aves contemporâneas”, disse o Dr. Song.
“Mesmo assim, os resultados foram convincentes: um rácio sexual desequilibrado foi a causa, e não a consequência, das diferenças entre sexos no comportamento reprodutivo e nos cuidados parentais.”
Isto ajuda a encerrar um debate antigo dentro da biologia evolutiva.
Quando um sexo supera o outro em número
Quando a composição da população fica enviesada, o modo de agir das aves altera-se. Se um dos sexos se torna raro, passa a ter uma vantagem.
“Os rácios sexuais são importantes porque, quando um sexo excede o outro em número, o sexo mais raro tem maior probabilidade de ser promíscuo e de se reproduzir com vários parceiros. Também é mais provável que deixe o outro progenitor a cuidar da descendência enquanto procura outro parceiro”, disse o professor Székely.
Essa mudança tem impacto directo na quantidade de cuidados que as crias recebem e pode determinar se ambos os progenitores se mantêm envolvidos ou se um deles assume quase todo o trabalho.
A competição molda a aparência
O desequilíbrio não se limita ao comportamento: também se reflecte no aspecto das aves.
Quando um dos sexos é mais comum, a concorrência intensifica-se. E essa pressão favorece traços físicos específicos. O sexo mais numeroso precisa de se destacar mais - ou de competir de forma mais agressiva - para conseguir parceiros.
Em espécies em que os machos são mais do que as fêmeas, é comum as fêmeas tornarem-se maiores ou mais competitivas. Já quando há mais fêmeas do que machos, os machos tendem a desenvolver características mais exibicionistas.
Os pavões são um exemplo conhecido. Os machos exibem grandes penas caudais coloridas que chamam a atenção.
No caso das abetardas, os machos podem atingir cerca de 2.5 vezes o tamanho das fêmeas. Estas diferenças são coerentes com pressões de competição mantidas ao longo do tempo.
Porque é que os padrões de sobrevivência importam
O estudo regressa a uma ideia simples: pequenas diferenças na sobrevivência podem propagar-se ao longo de gerações.
“Os nossos resultados apoiam um percurso evolutivo unidireccional: a demografia molda o rácio sexual, que por sua vez molda o comportamento social”, disse o professor Székely.
“Isto significa que, se um dos sexos morre consistentemente mais cedo, talvez devido a uma competição feroz por alimento, maior risco de infecção ou maior vulnerabilidade a predadores, o enviesamento do rácio sexual pode influenciar as pressões de selecção sexual, os papéis de sexo e o comportamento de acasalamento durante gerações.”
Esta reacção em cadeia ajuda a explicar porque é que as espécies de aves diferem tanto nas formas de acasalar, de cuidar das crias e de competir.
Uma visão mais ampla da evolução
Estas conclusões alteram a forma como os cientistas pensam sobre o comportamento na natureza. Em vez de tomar os hábitos de acasalamento ou os estilos de parentalidade como ponto de partida, faz mais sentido olhar primeiro para os padrões de sobrevivência.
Nas aves, muito fica decidido cedo. Quem consegue chegar à idade adulta condiciona o desenrolar de todo o resto.
E, quando esse equilíbrio muda, pode orientar o comportamento durante muitos anos - ou mesmo séculos.
O estudo completo foi publicado na revista Nature Communications.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário