Os sinais de alerta soaram um pouco por toda a Europa e os decisores europeus começam agora a sentir, na prática, o peso das metas de emissões que definiram.
Entre despedimentos nas fábricas, uma quebra nas vendas de elétricos, subida de preços e o motor da economia europeia a perder fôlego, o cenário é preocupante. Se nada for ajustado, o setor automóvel europeu pode entrar numa crise sem precedentes - e os construtores podem acabar a enfrentar multas de milhares de milhões de euros.
É neste contexto que a Comissão Europeia se prepara para apresentar um plano de ação capaz de alterar o enquadramento atual e dar novo impulso à indústria automóvel na Europa. O que pode mudar, ao certo? Foi isso que procurámos perceber no mais recente episódio do Auto Rádio, um podcast da Razão Automóvel com o apoio do PiscaPisca.pt. Ora veja:
Metas europeias estão a falhar
A indústria automóvel europeia tem pela frente um desafio de grande dimensão: cumprir as exigentes metas de emissões de CO₂ definidas para 2025. Na prática, estas metas impõem que a média de emissões dos veículos novos desça 15% face aos valores de 2021, o que corresponde a um teto de 93,6 g/km de CO₂ (ciclo WLTP).
Ainda assim, os indicadores mais recentes mostram que, em 2023, a média de emissões dos automóveis novos vendidos na União Europeia foi de 107 g/km de CO₂. Isto representa apenas menos 1 g/km do que em 2022 e mantém-se longe do objetivo traçado para 2025. Este atraso coloca vários fabricantes numa posição de risco, com a possibilidade real de incumprimento - e, consequentemente, de penalizações pesadas.
Pelas regras em vigor, as marcas que ultrapassarem os limites de emissões ficam sujeitas a uma penalização de 95 euros por cada grama de CO₂ acima do permitido, por cada veículo vendido. Em 2021, estas multas somaram 550 milhões de euros, mas, segundo Luca de Meo, CEO do Grupo Renault, esse valor pode chegar aos 15 mil milhões de euros este ano.
Se estas multas avançarem, o montante necessário para as pagar terá um efeito imediato nos fundos disponíveis para desenvolver novos modelos, tecnologias e soluções técnicas. No limite, isto pode traduzir-se numa perda de competitividade dos fabricantes europeus face a concorrentes como a Tesla ou a BYD, deixando-os numa posição ainda mais vulnerável.
Solução pode estar nos motores de combustão
É verdade que os veículos elétricos representam um futuro inevitável para a mobilidade na Europa, mas a sua adoção não está a acelerar ao ritmo que os decisores europeus tinham idealizado.
Como quase sempre, é o mercado que acaba por impor o seu compasso. E, neste caso, o que se observa é um desalinhamento entre as políticas definidas em Bruxelas e aquilo que os consumidores europeus estão, de facto, dispostos (ou conseguem) acompanhar.
Por isso, temos visto várias marcas a abrandar a estratégia de eletrificação total. Basta olhar para exemplos como a Alfa Romeo, a Volvo ou até a própria Audi. Nenhuma delas desistiu definitivamente da transição elétrica, mas várias já deixaram claro que continuarão a canalizar investimento para os motores de combustão interna.
No essencial, aquilo que a maioria dos construtores pede é margem de flexibilidade, para evitar danos na competitividade do setor automóvel na Europa - um setor que, importa lembrar, tem 13 milhões de postos de trabalho associados.
À procura de soluções
Perante estas preocupações, a Comissão Europeia já está a reunir com vários representantes do setor automóvel para procurar alternativas. A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, afirmou recentemente a intenção de “arregaçar as mangas e encontrar soluções” para assegurar que a indústria automóvel europeia consegue prosperar e competir à escala global.
O que vier a ser decidido nas próximas semanas poderá redesenhar o futuro do setor, procurando conciliar a necessidade de reduzir emissões com a realidade do mercado e com a capacidade de adaptação dos fabricantes a estas exigências.
Seja qual for o resultado dessas discussões, há algo que parece certo: as regras do jogo têm de mudar. Caso contrário, o setor automóvel europeu poderá enfrentar uma das maiores crises de que há memória.
Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana
Motivos não faltam, por isso, para ver/ouvir o mais recente episódio do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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