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Satélites detetam que o vulcão Taftan no Irão subiu 9 centímetros em 10 meses

Pessoa observa erupção vulcânica com equipamento de monitorização num terreno rochoso ao pôr do sol.

Um vulcão no sudeste do Irão elevou-se cerca de 9 centímetros (3,5 polegadas) ao longo de 10 meses. À primeira vista parece uma variação mínima, mas é um sinal com peso.

Segundo um estudo recente baseado em dados de satélite, a deformação indica acumulação de pressão junto ao topo.

O vulcão em causa é o Taftan. Apesar de não existirem registos de erupções em tempos históricos, este novo indício sugere que o sistema está activo e justifica vigilância.

Estudar o vulcão Taftan

Os investigadores acompanharam o movimento do terreno com InSAR, uma técnica de radar que mede deformações da superfície a partir do espaço. Para isso recorreram aos satélites Sentinel-1, capazes de operar de dia e de noite e de “ver” através de nuvens.

A elevação no vulcão Taftan prolongou-se por pouco mais de dez meses e teve o seu foco próximo do cume. Até ao momento, não houve um recuo posterior da superfície, o que aponta para pressão ainda por libertar.

O trabalho foi liderado por Pablo J. González, do Instituto de Produtos Naturais e Agrobiologia do Conselho Superior de Investigações Científicas de Espanha (IPNA), como autor sénior.

Como o Taftan se encontra numa zona remota e praticamente sem instrumentação no terreno - por exemplo, receptores GPS contínuos -, o radar espacial torna-se a forma mais eficaz de acompanhar uma montanha pouco visitada, mas ainda assim rodeada por várias localidades.

Onde está a pressão

A equipa modelou uma fonte situada a apenas 490 a 630 metros (1 600 a 2 070 pés) abaixo da superfície. Por ser tão superficial, é compatível com a presença e acumulação de gases num sistema hidrotermal - isto é, uma rede subterrânea onde água quente e gases circulam sob um vulcão.

Foram avaliadas explicações frequentes e afastadas hipóteses como precipitação intensa e sismos próximos enquanto factores desencadeantes. O sinal aumentou e depois abrandou sem um estímulo externo claro, um comportamento mais coerente com processos internos no edifício vulcânico.

Mais em profundidade, no interior do vulcão Taftan, existe o reservatório magmático - uma grande massa de rocha fundida no subsolo.

Esse reservatório encontra-se a mais de 3,2 quilómetros (mais de 2 milhas), pelo que a pressão observada agora deverá resultar sobretudo de gases acima dessa zona, e não de novo magma a subir até à superfície.

O padrão observado lembra um aperto gradual: primeiro o terreno subiu e, mais tarde, estabilizou quando se abriram novas fracturas e parte dos gases encontrou vias de escape.

Rótulos de “vulcão extinto” podem enganar

O vulcão Taftan é um estratovulcão com 3 940 metros (12 927 pés), íngreme e construído por camadas sucessivas de lava e cinzas. A presença de fumarolas no cume - aberturas que libertam gases - é um indício de que o sistema continua dinâmico.

Os registos de erupções dos últimos 10 000 anos são escassos, e isso complica a avaliação. A ausência de relatos escritos não significa, por si só, que o sistema esteja morto em termos geológicos.

Os vulcões podem permanecer longos períodos em aparente repouso e, ainda assim, alterar-se num espaço de meses. Por isso, os cientistas não dependem apenas de colunas de cinza como aviso precoce: também seguem gases, calor e deformação do solo.

As classificações ajudam, mas o que pesa são as medições. Neste caso, a deformação detectada é um dado mensurável, não um rótulo.

Elevações sem magma

Uma explicação plausível é a acumulação de gás em rochas compactas e em fracturas. À medida que a pressão gasosa aumenta, o maciço pode levantar-se ligeiramente, e a zona do cume tende a responder primeiro.

Outra hipótese é a de um pequeno impulso de material fundido que terá libertado voláteis - gases que se libertam do magma - para a canalização mais superficial em profundidade. Esses gases podem ascender, infiltrar-se e aumentar a pressão nos poros.

Ambos os cenários são compatíveis com a fonte pouco profunda e com o calendário do fenómeno. Os dados também indicam que, quando os gases encontraram caminhos de saída, a taxa de elevação diminuiu.

Nada disto implica obrigatoriamente uma erupção. Implica, isso sim, acompanhamento, porque a pressão terá de sair por algum percurso - e o trajecto escolhido faz diferença.

Riscos do vulcão Taftan

Os principais perigos a curto prazo não são escoadas de lava. O risco mais relevante são explosões freáticas - explosões movidas a vapor que podem ocorrer quando fluidos muito quentes vaporizam de forma súbita perto da superfície.

Emissões súbitas de gases podem irritar olhos e pulmões e afectar culturas agrícolas a sotavento durante períodos curtos. A cidade de Khash fica a cerca de 50 quilómetros (31 milhas), uma distância suficiente para, com o vento certo, se sentir o cheiro a enxofre.

“Tem de ser libertado de alguma forma no futuro, seja violentamente ou de maneira mais silenciosa. Este estudo não pretende gerar pânico nas pessoas. É um alerta às autoridades na região, no Irão, para designarem alguns recursos para observar isto”, explicou González.

Trata-se de alertas directos, não de previsões. A ideia é preparar enquanto a montanha ainda “sussurra”, e não quando começar a “gritar”.

Os cientistas já têm um plano

As equipas pretendem medir os gases nas aberturas e nas encostas. Leituras contínuas de dióxido de enxofre, dióxido de carbono e vapor de água podem mostrar se a pressão está a subir ou a aliviar.

Também é defendida a criação de uma rede básica de sismómetros e unidades de GPS para registar tremor e deformação lenta. Mesmo um sistema modesto melhoraria a precisão temporal e reduziria pontos cegos.

Os satélites continuarão a observar. O InSAR, técnica de radar para seguir o movimento do solo a partir do espaço, consegue sinalizar alterações pequenas que equipas no terreno podem verificar em poucos dias.

As autoridades, por seu lado, podem delinear rotas de evacuação, produzir cartas de perigo e divulgar orientações simples às comunidades próximas. Ter procedimentos claros no papel hoje reduz a confusão quando as condições mudarem.

Vulcão Taftan em contexto

O Taftan localiza-se numa zona de subducção, onde uma placa tectónica mergulha por baixo de outra. Este enquadramento favorece a geração de magma em profundidade e de fluidos ricos em gás a níveis mais altos.

O vulcão apresenta dois picos principais e emissões gasosas persistentes. Para os cientistas, estes traços sugerem que o calor continua a ascender a partir do interior.

Em muitos vulcões pelo mundo, mudanças lentas e semelhantes nunca culminam numa erupção. Noutros casos, após um período calmo, a actividade acelera rapidamente e exige resposta imediata.

A conclusão prática é que monitorização contínua, mesmo quando parece “aborrecida”, salva vidas: transforma surpresas em riscos conhecidos e em respostas planeadas.

Os satélites são uma grande ajuda

Os satélites de radar atravessam nuvens e fumo e não dependem da luz do dia. Isso é especialmente útil em regiões altas e secas, onde o tempo é duro e as estações no terreno podem falhar.

O Sentinel-1 transporta radar em banda C e repete passagens com frequência suficiente para construir uma espécie de filme do movimento. Essa repetição é essencial quando a alteração é de apenas alguns centímetros.

Com mais satélites em órbita, os intervalos de revisita encurtam, permitindo actualizações mais rápidas quando as condições mudam.

A combinação de medições espaciais e observações no terreno é a mais eficaz: os satélites dão o panorama geral e os instrumentos instalados no vulcão acrescentam detalhe.

Vulcão Taftan e o futuro

Se o solo começar a descer, será sinal de alívio de pressão e de abertura de novas vias de escape para os gases. Se a elevação continuar ou acelerar, a pressão mantém-se em aumento e cresce a probabilidade de eventos a vapor.

Se as medições de gases subirem e permanecerem elevadas, esse será outro indicador importante. Mudanças abruptas em micro-sismos sob o cume também aumentariam a preocupação.

Os cientistas vão testar se a canalização interna permaneceu “fechada” ou se se abriu. Essa resposta ajudará a estimar quão grande poderá ser o próximo impulso de gás.

Para quem vive nas proximidades, medidas simples são úteis: conhecer os padrões do vento, ter máscaras disponíveis para episódios de cheiro a enxofre e seguir as orientações oficiais.

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