As previsões oficiais para 2026 foram revistas em baixa no que diz respeito ao crescimento económico e ao saldo orçamental. O Ministério das Finanças aponta como principais razões os estragos provocados pelas tempestades de janeiro e fevereiro e a instabilidade no Médio Oriente, um conflito que o Governo considera não ter desfecho próximo.
Ainda assim, o Executivo não antecipa um choque prolongado na atividade devido ao mau tempo do início do ano, defendendo que a execução de investimento deverá amortecer grande parte do efeito. Do lado das finanças públicas, sustenta que o excedente registado no ano anterior funcionará como almofada para limitar o agravamento das contas em 2026, num contexto marcado por esta dupla crise.
Em comparação com os pressupostos do Orçamento do Estado (OE) para 2026, a nova projeção para a economia é menos favorável: o produto interno bruto (PIB) deverá aumentar 2% em termos reais, abaixo dos 2,3% inscritos em outubro.
A equipa do Terreiro do Paço coloca grande parte da aposta na componente de investimento. Sendo 2026 o último ano do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o Governo entende que a fase final do programa será determinante para alcançar a taxa de crescimento agora projetada.
Nas contas públicas, a despesa extraordinária associada às crises levou apenas a um ajustamento moderado. O excedente de 0,1% do PIB que Joaquim Miranda Sarmento tinha inicialmente apontado para 2026 é agora substituído por um saldo nulo - isto é, receita e despesa deverão fechar o ano em equilíbrio.
Estas atualizações constam do Relatório Anual de Progresso (RAP), documento que os Estados-Membros da União Europeia devem entregar até 30 de abril de cada ano e que integra a informação macroeconómica e orçamental mais recente, bem como o ponto de situação da execução das medidas de política pública.
Investimento salva
O Governo admite que os efeitos combinados das tempestades e da guerra já se fizeram sentir no arranque do ano, contribuindo para a travagem da atividade sinalizada esta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Depois de um crescimento real do PIB de 0,9% entre o terceiro e o quarto trimestres de 2025, o INE estima que, nos primeiros três meses do ano, a variação tenha sido nula.
Neste contexto, o gabinete de Miranda Sarmento ajustou as projeções para 2026. No RAP, lê-se que: “A atual previsão de um crescimento de 2% em 2026 representa uma revisão em baixa em 0,3 p.p.” face ao OE, “em larga medida devido ao impacto da atualização das hipóteses externas, no contexto dos efeitos das atuais tensões no Médio Oriente”, segundo o documento divulgado esta quinta-feira, 30 de abril.
O cenário macro com que o Executivo trabalha incorpora agora taxas de juro de curto prazo mais elevadas e um preço médio do barril de Brent de 89,8 dólares. Em outubro, o OE assumia 65,4 dólares por barril de crude.
Quanto ao impacto das tempestades, o RAP procura minimizar o efeito no total do ano, sublinhando que “o impacto em termos anuais deverá ser reduzido”, por se ir diluindo ao longo de 2026. A principal via para essa compensação será o investimento.
O Executivo detalha o mecanismo de recuperação: “A desaceleração da atividade no primeiro trimestre deverá ser compensada ao longo do ano pelo crescimento expectável derivado dos esforços de reconstrução das áreas afetadas pelas tempestades, bem como da execução final dos projetos do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência]”, já na reta final.
Além do investimento, também as exportações deverão dar contributo (embora menor) para atingir os 2% de crescimento, com o RAP a apontar “um crescimento das exportações mais próximo do da procura externa dirigida à economia portuguesa, após a perda de quota de mercado observada em 2025”.
Medidas custam quase €2 mil milhões
A passagem de um excedente previsto de 0,1% do PIB para um saldo nulo em 2026 é justificada, por um lado, pelo “impacto negativo dos mais recentes desenvolvimentos climáticos e geopolíticos que ocorreram no primeiro trimestre de 2026”. Por outro, esse efeito é atenuado pelo “resultado orçamental de 2025 acima do esperado”, ou seja, pelo “brilharete” orçamental de 2025, quando foi alcançado um excedente de 0,7%.
No capítulo das respostas de emergência, o Governo estima em €1199 milhões o custo total das medidas tomadas na sequência da tempestade Kristin.
Pelo lado da receita, o conjunto de intempéries deverá traduzir-se numa redução aproximada de 0,2 p.p. do PIB. O RAP atribui esta evolução a uma quebra associada a impostos sobre a produção e a importação, “influenciada pela evolução modesta dos impostos sobre a produção e a importação, dado o impacto da tempestade Kristin e os apoios para fazer face ao aumento do preço dos combustíveis.”
Inflação vai pesar
O RAP também assinala o regresso do risco inflacionista, o que o documento descreve como o retorno do “monstro” da inflação. O Governo prevê que a subida de preços se reflita de forma clara nas despesas das famílias, que têm sido um dos motores da economia nacional nos últimos trimestres.
A projeção para o consumo privado é de um crescimento de 1,9%, uma desaceleração expressiva face aos 2,7% previstos no OE,
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