As alterações climáticas na Europa deixaram de ser um tema que se pode empurrar para amanhã. Já se estão a infiltrar no quotidiano.
É isso que evidencia um novo relatório: o aumento do calor já está a roubar horas de trabalho, a encarecer a alimentação saudável e a colocar a maior pressão precisamente sobre quem já vivia com menos margem.
Estas conclusões constam do relatório Europe Lancet Countdown 2026 sobre saúde e alterações climáticas.
Entre os autores que contribuíram para o documento está o cientista do CMCC Shouro Dasgupta, cujo trabalho se centra no impacto económico das alterações climáticas na saúde.
Ao traduzir números e tendências para efeitos palpáveis - menos rendimento, orçamentos mais apertados e maior tensão em sistemas que já estavam no limite - a investigação de Dasgupta ajuda a tornar o problema menos abstracto e mais imediato.
O calor já está a prejudicar o trabalho
Um dos sinais mais claros aparece na capacidade das pessoas para trabalhar.
Em toda a Europa, entre 2000 e 2023, os trabalhadores perderam, em média, cerca de 24 horas de trabalho por ano devido ao aumento das temperaturas.
O impacto é particularmente severo nas profissões ao ar livre. A agricultura e a construção destacam-se, porque nestes sectores é comum passar muitas horas exposto ao calor directo, com pouca protecção.
Quando as condições térmicas se tornam perigosas, as pessoas são obrigadas a abrandar, a fazer pausas não planeadas ou, nalguns casos, a interromper totalmente a actividade.
Essa perda traduz-se em menos salário para alguns trabalhadores, maior risco de lesão e mais desgaste físico. E significa também que as economias nacionais já estão a ser enfraquecidas por condições climáticas que continuam a agravar-se.
“As prioridades mais urgentes são claras: a Europa precisa de protecções contra o calor juridicamente vinculativas para os trabalhadores, com avisos precoces directamente ligados a normas de segurança no trabalho aplicáveis e fiscalizáveis, sobretudo em sectores de alto risco como a agricultura e a construção”, afirmou Dasgupta.
“Ao mesmo tempo, os sistemas de protecção social têm de ser reforçados para responder a choques climáticos - através de apoio ao rendimento, ajuda alimentar e programas de refeições escolares. E, em última análise, nada disto será suficiente sem reduções rápidas e sustentadas das emissões.”
A alimentação está a tornar-se mais difícil de pagar
O relatório mostra ainda que as alterações climáticas estão a alimentar a insegurança alimentar na Europa, embora não seja sobretudo por falta absoluta de alimentos. O problema maior é o preço - e o impacto desses preços na qualidade da dieta.
Ondas de calor e secas estão a reduzir a produtividade agrícola e a deteriorar a qualidade dos produtos, sobretudo de frutas e legumes. Quando isso acontece, os preços sobem e, muitas vezes, a alimentação saudável é a primeira despesa a ser cortada pelas famílias.
De acordo com o relatório, mais de um milhão de pessoas adicionais são afectadas por insegurança alimentar relacionada com o clima. É um número alarmante, especialmente num contexto em que, na Europa, a insegurança alimentar é frequentemente encarada como um fenómeno mais limitado ou mais marginal do que realmente é.
“O mecanismo é sobretudo através dos preços dos alimentos e da acessibilidade económica das dietas: ondas de calor e secas reduzem as colheitas e a qualidade de frutas e legumes, fazem subir os preços e dificultam que as famílias mantenham uma alimentação saudável e diversificada”, explicou Dasgupta.
O peso da geografia na desigualdade
Outro ponto muito evidente no relatório é que as alterações climáticas não estão a afectar todos na Europa da mesma forma. Pelo contrário, estão a agravar desigualdades já existentes.
Uma parte desta diferença tem a ver com geografia. O sul e o sudeste da Europa já registam taxas mais elevadas de mortalidade associada ao calor e perdas económicas mais pesadas, enquanto na Europa de Leste as pessoas mais velhas ficam especialmente expostas durante as ondas de calor.
Mas o local onde se vive é apenas uma parte da explicação. O rendimento e as condições habitacionais contam tanto quanto isso.
Os agregados de baixo rendimento enfrentam um risco de insegurança alimentar cerca de 11 pontos percentuais mais elevado perante os mesmos choques climáticos.
Se uma família já gasta uma grande fatia do rendimento em alimentação, qualquer subida de preços pesa mais. E quando há pouca poupança, quase não existe almofada financeira quando a situação piora.
O mesmo padrão surge noutros domínios. Os trabalhadores ao ar livre não só estão sujeitos a riscos de saúde maiores devido ao calor, como também à possibilidade de perder rendimento quando o trabalho desacelera ou pára.
Os bairros mais pobres tendem a estar mais expostos a calor extremo e ao fumo de incêndios florestais. E, em algumas zonas da Europa, os idosos tornam-se mais vulneráveis durante as ondas de calor simplesmente por causa do lugar onde vivem e do apoio que têm (ou não têm) à sua volta.
Isto não é um problema de amanhã
O que dá força ao relatório é que ele não descreve uma Europa distante que um dia poderá ser transformada pelas alterações climáticas. Está a falar da Europa em que as pessoas já vivem hoje.
Os trabalhadores já estão a perder horas por causa do calor, as famílias já sentem mais dificuldade em pagar alimentos saudáveis, os agregados mais pobres já estão mais expostos e regiões inteiras já vêem os custos acumularem-se.
O trabalho recente de Dasgupta sobre planos de prevenção do calor acrescenta também uma nota importante: a protecção funciona. Planos eficazes salvam vidas; avisos precoces fazem diferença; normas no local de trabalho fazem diferença; apoio social faz diferença.
Ainda assim, o relatório é explícito ao afirmar que a adaptação, por si só, não chega. A Europa pode - e deve - proteger melhor as pessoas. Mas, a menos que as emissões desçam rapidamente e se mantenham baixas, o problema continuará a crescer mais depressa do que as medidas de protecção conseguem acompanhar.
As alterações climáticas já entram na vida diária de forma muito concreta. Estão a mudar a forma como as pessoas trabalham, aquilo que conseguem pagar para comer e a segurança que sentem quando o tempo se torna extremo.
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