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Frequência das evacuações e microbioma intestinal: estruturas e metabolitos distintos

Mulher em pé numa casa de banho segurando caderno, com papel higiénico, fruta e um copo de água numa mesa ao lado.

A frequência com que uma pessoa evacua associa-se a estruturas específicas do microbioma intestinal e a diferentes produtos químicos gerados no interior do organismo.

Isto sugere a existência de um padrão corporal rotineiro que, ao estabelecer certas condições internas, influencia o funcionamento diário do intestino.

Calendário interno do intestino

Em amostras de fezes recolhidas repetidamente ao longo de várias semanas, observaram-se diferenças nítidas entre as comunidades intestinais de pessoas com ritmos intestinais mais lentos e de outras com ritmos mais rápidos.

A partir dessas amostras, investigadores da Universidade de Sejong registaram alterações consistentes tanto na diversidade microbiana como nas espécies predominantes. Essa informação foi ligada de forma directa ao número de vezes que cada participante evacuava.

As discrepâncias mantiveram-se em vários momentos de recolha, o que indica que a frequência das evacuações se alinhou de modo estável com mudanças no ambiente intestinal.

Essa estabilidade aponta para o ritmo intestinal como uma condição de base que define o contexto em que os micróbios se desenvolvem, competem e produzem compostos químicos dentro do intestino.

Efeitos do movimento intestinal lento

Quando os resíduos permanecem mais tempo no cólon, os microrganismos dispõem de uma janela maior para degradar o que sobra e orientar a fermentação mais para proteínas.

Isto é relevante porque a lentidão altera a acidez e o tipo de combustível disponível, favorecendo organismos adaptados a uma refeição mais prolongada e com menos recursos.

Já um trânsito mais rápido reduz o tempo para processamento adicional; assim, espécies de crescimento mais célere, que preferem condições ricas em hidratos de carbono, tendem a ganhar vantagem.

O efeito final não se limita a alterar a lista de micróbios presentes: traduz-se também em substâncias diferentes a circularem e a acumularem-se no intestino.

Mudanças no equilíbrio microbiano

No grupo com menor frequência, o género bacteriano Ruminococcus, associado a conteúdo intestinal de progressão mais lenta, surgiu com maior regularidade e foi diminuindo à medida que a frequência aumentava.

Quem defecava diariamente apresentava maior predominância de Bacteroides, outro género comum que muitas vezes prospera quando o trânsito é mais rápido.

Nos dois extremos, verificou-se também uma perda de parte do equilíbrio observado em padrões intermédios, em consonância com um estudo anterior sobre trânsito.

Esse “meio-termo” sugeriu que nem um movimento muito lento nem um movimento muito acelerado oferece as melhores condições para coexistir o conjunto mais amplo de micróbios.

Metabolitos que assinalam cada padrão

As marcas químicas detectadas nas fezes indicaram que a frequência das evacuações não estava apenas a reorganizar micróbios; estava igualmente a alterar o conteúdo químico.

Entre as pessoas com evacuações menos frequentes, observaram-se mais sinais de vias de aminoácidos aromáticos e níveis mais elevados de indol e p-cresol.

Em contraste, quem evacuava com maior frequência mostrou mais evidência de degradação de aminoácidos de cadeia ramificada, o que coincidiu com o seu perfil mais carregado em Bacteroides.

Estas diferenças químicas ajudam a perceber porque é que dois intestinos podem reagir de forma distinta ao mesmo alimento antes mesmo de surgirem sintomas.

Estimar o trânsito dos alimentos

Como ninguém sente, em tempo real, a passagem dos alimentos pelo intestino, os investigadores recorreram a indicadores indirectos para estimar quanto tempo o material permanece no interior.

Uma ferramenta habitual é a Escala de Fezes de Bristol, um quadro que classifica as fezes desde pequenas bolinhas duras até uma massa aquosa.

Noutros trabalhos, acompanhou-se a passagem de corante azul, de milho doce ou de cápsulas com sensores que registavam pH e temperatura ao longo do percurso intestinal.

Numa revisão abrangente, a mediana do trânsito total em grupos saudáveis foi de cerca de 28 horas, embora a variação observada fosse muito maior.

A temporização altera resultados nutricionais

Na Universidade de Copenhaga, investigadores consideraram o timing das evacuações como um factor oculto por trás das diferenças microbianas.

Isto ajuda a explicar como duas pessoas podem comer a mesma refeição, tomar o mesmo probiótico e, ainda assim, obter resultados distintos.

“Altogether, a better understanding of the complex, bidirectional interactions between the gut microbiota and transit time is required,” escreveu Nicola Prochazkova, cientista da nutrição.

A ideia é prática: quando o intestino funciona mais lento ou mais rápido, o sinal que os cientistas julgam estar a medir pode ficar “baralhado”.

Evidência do estudo em Seul

Ao longo de 23 dias, o estudo coreano acompanhou 20 adultos e recolheu seis amostras por pessoa.

Quatro voluntários evacuavam de uma a três vezes por semana, sete evacuavam de quatro a seis vezes, e nove evacuavam todos os dias.

A idade e o índice de massa corporal quase não distinguiam os grupos, destacando um sinal intestinal mais claro do que aquele que muitos estudos do microbioma conseguem obter.

A recolha repetida reforçou a hipótese de que as diferenças não eram um acaso de um único dia, provocado por uma refeição invulgar ou por uma manhã mais stressante.

Previsão de hábitos intestinais por bactérias

Os padrões foram suficientemente consistentes para que um modelo de aprendizagem automática - software que aprende a partir de dados - conseguisse adivinhar o grupo de frequência das evacuações melhor do que o acaso.

A precisão global chegou a 60 por cento, acima de uma referência de 45 por cento, sendo o grupo diário o mais bem identificado, com 78 por cento.

As amostras de frequência intermédia geraram a melhor pontuação de curva, com uma área sob a curva de 0.83, o que sugere um sinal real, embora imperfeito.

Essa capacidade preditiva ainda é limitada, mas aponta para a possibilidade de a biologia das fezes vir a oferecer respostas mais robustas no futuro.

Frequência por si só não é saúde

Nada disto significa que evacuar diariamente seja, por definição, saudável, nem que um ritmo mais lento, por si só, provoque doença.

A experiência em Seul foi pequena, a componente de metabolitos incluiu apenas seis pessoas, e todos partilhavam o mesmo enterótipo, isto é, um padrão geral de comunidade intestinal.

Ainda assim, a literatura mais ampla sobre trânsito tem associado o movimento mais lento e a obstipação a problemas metabólicos, inflamatórios e neurológicos que merecem acompanhamento mais atento.

É por isso que os dados sobre ritmos de ida à casa de banho constituem uma variável em falta na medicina do microbioma.

Remodelar o futuro da investigação intestinal

Os cientistas começam a encarar o ritmo intestinal como parte do próprio ambiente do intestino, e não apenas como um sintoma a tratar em segundo plano.

Medições melhores do trânsito poderão, no futuro, tornar os estudos de dieta mais limpos, os ensaios com probióticos mais inteligentes e os cuidados pessoais mais ajustados a cada pessoa.

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