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Estudo revela que planetas gigantes rodam mais depressa do que anãs castanhas

Mulher observando imagens de planetas num ecrã de computador numa sala de astronomia à noite.

Um novo estudo concluiu que, quando se têm em conta o tamanho, a massa e a idade, os planetas gigantes rodam mais depressa do que companheiros mais pesados do tipo anã castanha.

Esta divisão transforma a rotação numa pista directa sobre a formação de mundos distantes e ajuda a perceber porque é que objectos com aspecto semelhante podem seguir trajectórias evolutivas muito diferentes.

A luz revela a rotação dos planetas gigantes

Em dezenas de mundos ténues que orbitam a grandes distâncias das suas estrelas, as velocidades de rotação distinguem os planetas gigantes de companheiros mais massivos do tipo anã castanha, apesar de à primeira vista parecerem parentes próximos.

Ao separar a luz destes objectos, Chih-Chun “Dino” Hsu, da Universidade Northwestern, associou esses padrões de rotação a diferenças físicas que, no fundo, remontam ao modo como cada corpo se formou.

O mesmo contraste surge até entre objectos dentro do mesmo sistema: um planeta mais leve pode rodar várias vezes mais depressa do que um companheiro mais pesado nas proximidades.

O facto de a tendência se repetir em ambientes distintos estabelece um limite que o resto da análise tem de justificar, ligando a rotação à física de base da formação planetária.

A amostra aumentou

A equipa obteve medições directas de 32 alvos e, depois, incorporou resultados de rotação já publicados anteriormente.

Com essa junção, o conjunto final passou a incluir 43 companheiros e planetas gigantes, além de 54 objectos errantes de massa planetária - mundos que vagueiam sem uma estrela hospedeira.

Considerando o conjunto completo, os planetas gigantes apresentaram rotações correspondentes a uma fracção maior da sua velocidade de rutura, isto é, a velocidade a partir da qual a rotação começaria a desagregar o corpo.

Como a diferença permaneceu visível mesmo depois de a equipa controlar massa, dimensão e idade, o padrão pareceu apontar para física fundamental, e não para uma coincidência.

Onde fica a linha de separação

Na análise, destacou-se um valor: mundos abaixo de cerca de 0,8 por cento da massa da sua estrela caíram do lado das rotações mais rápidas.

Este limiar funcionou melhor do que um corte simples nas dez massas de Júpiter, porque alguns objectos na fronteira continuam a comportar-se mais como planetas.

A divisão mais nítida também apareceu quando a equipa comparou planetas gigantes com anãs castanhas de baixa massa.

Deste modo, a rotação deixa de parecer um pormenor curioso e passa a soar a fronteira física entre dois caminhos de formação.

Rotação planetária e campos magnéticos

A explicação principal começa quando estes mundos ainda estão a crescer dentro de discos de gás e poeira.

Um mundo jovem perde rotação quando o seu campo magnético “agarra” o disco à volta e transfere momento rotacional para o exterior.

Como esse travão actua cedo, a rotação observada hoje pode manter sinais dos primeiros milhões de anos. A rotação funciona como um registo fóssil da forma como um planeta se formou.

Surgiu outra pista ao comparar companheiros com objectos que viajam sozinhos. As anãs castanhas companheiras de estrelas rodavam mais lentamente do que anãs castanhas isoladas de massa semelhante.

Essa diferença sugere que uma estrela próxima e um disco local podem retirar rotação adicional durante a formação. O ambiente - e não apenas o tamanho - parece influenciar quanta da rotação inicial de um mundo jovem chega até ao presente.

Rotação planetária no Sistema Solar

Indícios da mesma regra já aparecem no nosso próprio conjunto de planetas gigantes.

No Sistema Solar, Júpiter completa uma rotação em cerca de dez horas, e Saturno tem um dia de aproximadamente 10,7 horas.

A rotação rápida ajuda a moldar o tempo atmosférico e o comportamento magnético, reforçando a ideia de que a rotação contém informação profunda sobre mundos gigantes.

Observar um padrão semelhante em torno de outras estrelas sugere que o Sistema Solar poderá seguir uma regra mais geral, e não uma peculiaridade local.

Ler mundos escondidos

As medições recorreram ao Instrumento de Imagem e Caracterização de Planetas do Keck (KPIC), concebido para isolar a fraca luz planetária do brilho intenso da estrela.

À medida que um mundo roda, as linhas de absorção no espectro alargam-se, porque a luz de um lado se desloca para nós e a do outro se afasta.

Mesmo com o KPIC, esse alargamento é diminuto, mas espectros de alta resolução permitem detectá-lo em mundos que orbitam longe das suas estrelas.

Quando o KPIC consegue medir este efeito de forma consistente, a rotação passa a juntar-se à química e à órbita como instrumento para classificar estes objectos.

O que vem a seguir

Agora, os investigadores pretendem obter medições de rotação do mesmo tipo para planetas mais pequenos e para mais objectos errantes de massa planetária.

Aumentar a amostra poderá mostrar se o limite observado se mantém para idades, massas e ambientes de nascimento diferentes.

Associar rotação à química atmosférica também permitiria testar se os mundos de rotação rápida exibem as marcas químicas esperadas de planetas formados em disco.

“Estamos apenas a começar a explorar o que a rotação planetária nos pode dizer”, afirmou Hsu.

Quão robusto é o resultado

Mantém-se, contudo, uma ressalva importante no sinal estatístico. Quando os investigadores assumiram que estes mundos rodam alinhados com as suas órbitas, a separação atingiu 4 a 4,5 sigma e tornou-se muito mais fraca quando se consideraram inclinações aleatórias.

Uma parte desta incerteza vem de um problema básico em exoplanetas: os astrónomos, em geral, não conseguem observar directamente o eixo de rotação de um mundo distante.

Ainda assim, a evidência parece agora suficientemente forte para transformar uma ideia prevista há muito num resultado claro.

Importância da rotação planetária

A rotação planetária parece cada vez menos um detalhe secundário e cada vez mais um registo de como massa, magnetismo e ambiente moldaram um mundo antes de ser possível observá-lo.

À medida que os astrónomos acrescentarem planetas mais pequenos, mundos solitários e melhores dados atmosféricos, esta medição simples poderá tornar-se um dos testes mais limpos sobre como se formam os mundos gigantes.

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