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Estudo de 2025 aponta letrozol e irinotecano como candidatos contra a doença de Alzheimer

Cientista em laboratório analisa modelo digital 3D de cérebro com dados em monitores ao lado.

Em busca de novas formas de travar a doença de Alzheimer, cientistas têm vindo a avaliar medicamentos já existentes que possam ser reaproveitados para esta patologia. Um estudo de 2025 destacou dois candidatos considerados promissores - ambos actualmente utilizados no tratamento do cancro.

Os fármacos em causa, já autorizados pelas autoridades reguladoras nos Estados Unidos (o que pode acelerar o arranque de ensaios clínicos para Alzheimer), são o letrozol - habitualmente prescrito para cancro da mama - e o irinotecano, mais comum no cancro do cólon e no cancro do pulmão.

Como a doença de Alzheimer alterou a expressão génica no cérebro

Uma equipa de investigadores norte-americanos começou por analisar de que forma a doença de Alzheimer modificava a expressão génica no cérebro. Ou seja, procuraram perceber quais os genes cuja actividade ficava aumentada ou diminuída em contexto de doença.

A partir daí, os cientistas recorreram a uma base de dados médica conhecida como Connectivity Map, procurando fármacos que, em teoria, invertessem esses padrões de expressão génica associados ao Alzheimer.

Porque é que letrozol e irinotecano se destacaram

Depois de identificarem medicamentos que contrariavam as alterações de expressão génica observadas, os investigadores cruzaram esses resultados com registos de doentes que tinham tomado essas substâncias no âmbito de terapêuticas oncológicas. Neste cruzamento, os dois fármacos seleccionados pareceram estar associados a um menor risco de desenvolvimento de doença de Alzheimer.

"A doença de Alzheimer vem acompanhada de mudanças complexas no cérebro, o que tem dificultado o seu estudo e tratamento, mas as nossas ferramentas computacionais abriram a possibilidade de enfrentar directamente essa complexidade", afirma a bióloga computacional Marina Sirota, da Universidade da Califórnia em São Francisco.

"Estamos entusiasmados por a nossa abordagem computacional nos ter conduzido a uma potencial terapia combinada para o Alzheimer com base em medicamentos já aprovados pela FDA."

Testes em modelos de ratinho e efeitos no tau, aprendizagem e memória

Depois de apontarem letrozol e irinotecano como os candidatos mais fortes, os investigadores avançaram para testes em modelos de ratinho da doença de Alzheimer. Quando administrados em conjunto, os dois medicamentos mostraram capacidade para reverter algumas das alterações cerebrais desencadeadas pela doença.

Em particular, observou-se uma redução significativa dos aglomerados nocivos de proteína tau que se acumulam no cérebro afectado por Alzheimer. Além disso, os ratinhos apresentaram melhorias em tarefas de aprendizagem e memória - duas capacidades frequentemente comprometidas nesta doença.

Ao combinar os dois fármacos, os cientistas conseguiram também actuar sobre diferentes tipos de células cerebrais afectadas. O letrozol pareceu contrariar aspectos do Alzheimer ao nível dos neurónios, enquanto o irinotecano mostrou efeitos nas células da glia.

"O Alzheimer é provavelmente o resultado de inúmeras alterações em muitos genes e proteínas que, em conjunto, perturbam a saúde do cérebro", diz o neurocientista Yadong Huang, da Universidade da Califórnia em São Francisco e dos Institutos Gladstone.

"Isto torna o desenvolvimento de medicamentos muito desafiante - já que, tradicionalmente, se produz um medicamento para um único gene ou proteína que impulsiona a doença."

Limitações, efeitos secundários e os próximos passos em pessoas

Apesar de o ponto de partida ser animador, ainda há etapas importantes por cumprir. Para já, estes fármacos foram testados directamente apenas em ratinhos, e ambos podem causar efeitos secundários. Se vierem a ser reaproveitados para uma doença diferente daquela para a qual foram originalmente aprovados, será essencial ponderar esses riscos em paralelo com os potenciais benefícios.

Um passo seguinte apontado pelos autores passa por ensaios clínicos em pessoas com doença de Alzheimer. Segundo a equipa, esta estratégia poderá abrir caminho a terapias mais personalizadas e potencialmente mais eficazes, ajustadas ao modo como a expressão génica se encontra alterada em cada caso.

Estima-se que mais de 55 milhões de pessoas vivam com doença de Alzheimer e, à medida que a população mundial envelhece, espera-se que esse número mais do que duplique nos próximos 25 anos. Descobrir formas de prevenir a doença e até de reverter sintomas teria um impacto significativo na saúde global.

"Se fontes de dados completamente independentes, como dados de expressão de célula única e registos clínicos, nos conduzirem às mesmas vias e aos mesmos medicamentos e, depois, resolverem o Alzheimer num modelo genético, então talvez estejamos a descobrir algo", afirma Sirota.

"Temos esperança de que isto possa ser rapidamente traduzido numa solução real para milhões de doentes com Alzheimer."

A investigação foi publicada na revista Cell.

Uma versão anterior deste artigo foi publicada em Julho de 2025.

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