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Quando é que nos sentimos velhos? Estudo Ipsos em França aponta para os 69 anos

Mulher sénior alegre mostra uma foto enquanto caminha com grupo de amigos num parque ensolarado.

Quando é que a sensação de estar “no centro da vida” passa para “agora já estou velho”? Um novo inquérito realizado em França ajuda a perceber até que ponto a ideia de velhice se deslocou - e como depende muito do momento de vida de cada um. Quem tem hoje 20 ou 30 anos imagina “ser velho” de forma bem diferente de alguém com cabelos brancos e netos.

Resultado do estudo: só nos sentimos velhos a partir dos 69

O inquérito do instituto Ipsos, feito junto de 1.000 pessoas entre 18 e 75 anos, partiu de uma pergunta directa: a partir de que idade começa, para si, “ser velho”?

Em média, os participantes apontaram os 69 anos como o limiar a partir do qual alguém pode sentir-se velho.

Este limite sentido fica, assim, bem acima da actual idade legal de reforma. Apenas cerca de um quinto dos inquiridos coloca a passagem para a geração mais velha já entre 66–70 anos. Quase metade empurra essa fasquia para 71 anos ou mais tarde.

O contraste torna-se ainda mais interessante quando se olha para um segundo número: segundo outra sondagem, muitas pessoas notam os primeiros sinais de envelhecimento por volta do 49.º aniversário. Ou seja, entre os “primeiros incómodos” e um verdadeiro sentimento de velhice há, em média, cerca de 20 anos.

Primeiros sinais de idade no final dos 40

O estudo complementar do instituto BVA Xsight, com 2.000 participantes, revela que:

  • Por volta dos 49 anos, muitos passam a reconhecer de forma consciente mudanças físicas.
  • Entre elas surgem, por exemplo, menor condição física, tempos de recuperação mais longos ou pequenas falhas de memória.
  • Ainda assim, a maioria não associa esta idade a “velho”, mas antes a “mais maduro” ou “já não tão jovem”.

Em suma, a marca do “velho” vai sendo adiada, mesmo quando o corpo dá sinais mais cedo.

Como a nossa idade muda a forma como definimos “velho”

Os dados do Ipsos são claros: quanto mais velhas são as pessoas, mais tarde colocam o início do “ser velho”.

Quem é mais novo tende a considerar os outros velhos mais depressa - à medida que a própria idade avança, a definição recua bastante.

A percepção varia de forma marcada entre grupos etários:

Idade dos inquiridos A partir de que idade começa, para eles, o “ser velho”?
18–34 anos Uma parte significativa acha: a partir dos 50 anos
55–75 anos Cerca de 70 % só vê “ser velho” a partir dos 71 anos

Em particular, muitos adultos mais jovens classificam pessoas com 50 anos como velhas. Já quem tem 60 ou 70 tende, naturalmente, a não concordar - e a deslocar o marco para a frente. É como se o cérebro ajustasse o conceito de “velho” para que nós próprios fiquemos fora dele o máximo de tempo possível.

A idade é mais sensação do que número

Várias respostas apontam para uma ideia recorrente: a velhice não é apenas a idade no documento, mas sobretudo uma experiência subjectiva:

  • Quem continua a trabalhar sente-se muitas vezes “a meio da vida”.
  • Quem se mantém activo, faz desporto ou tem uma rotina preenchida tende a sentir-se mais novo do que a sua idade biológica.
  • Quem vive com limitações de saúde mais pesadas diz mais facilmente que se sente velho - independentemente dos anos.

Assim, a fasquia simbólica dos 69 anos funciona mais como referência mental do que como fronteira rígida.

Porque é que tanta gente tem medo de envelhecer

Mesmo com esta imagem de velhice empurrada para mais tarde, o receio de envelhecer continua muito presente. No inquérito da Ipsos, a maioria afirma que as pessoas mais velhas recebem pouca valorização na sociedade.

Cerca de 59 por cento dos inquiridos consideram que as pessoas mais velhas são pouco ou nada valorizadas.

Nos media, predominam corpos jovens, magros e performativos. Rugas, andarilhos, aparelhos auditivos - tudo isto aparece mais associado a “problemas” do que como parte natural do percurso de vida. E essa representação molda as expectativas em relação ao próprio envelhecimento.

A saúde como maior fonte de ansiedade

O estudo identifica de forma objectiva o que mais preocupa quando se fala de envelhecer:

  • Perda de autonomia - o momento em que já não se consegue viver sem ajuda.
  • Mobilidade reduzida - quando tarefas simples, como subir escadas, se transformam num sofrimento.
  • Memória a falhar - o medo de demência e de declínio cognitivo.

Apenas cerca de uma em cada cinco pessoas inquiridas acredita que, em idade muito avançada, ainda estará de boa saúde. Esta baixa confiança leva muitos a associarem a velhice a deterioração, necessidade de cuidados e dependência.

Porque envelhecer também pode ser motivo de alegria

Apesar das preocupações, o inquérito também evidencia um lado optimista: muita gente liga o avançar da idade a mais liberdade. Em particular, a perspectiva de terminar a vida profissional é sentida como um alívio.

42 por cento dos inquiridos dizem que encaram com entusiasmo o envelhecer - sobretudo por deixarem de ter de trabalhar.

Com o trabalho fora do centro do dia-a-dia, abre-se espaço para o que ficou para trás durante anos: viajar, dedicar-se a passatempos, estar com filhos e netos, fazer voluntariado. Muitos associam esta fase a uma espécie de “segundo fôlego”, pelo menos enquanto a saúde acompanhar.

Envelhecer de forma activa: o que está ao nosso alcance

Mesmo sabendo que a genética e o acaso pesam muito, há áreas em que se pode actuar para empurrar para a frente a idade “sentida”:

  • Movimento no dia-a-dia: caminhar com regularidade, fazer treino ligeiro de força, nadar ou andar de bicicleta ajuda a manter articulações e sistema cardiovascular.
  • Contactos sociais: amizades, associações e família reduzem a solidão e funcionam como factor protector contra dificuldades emocionais.
  • Estimulação mental: ler, aprender, jogar ou iniciar novos passatempos activa o cérebro e pode abrandar o declínio cognitivo.
  • Planeamento realista: preparar com antecedência cuidados, habitação e finanças diminui o medo do futuro.

Quem cuida activamente destes pontos tende a viver o envelhecimento como menos ameaçador e a ver-se, durante mais tempo, como “ainda não velho”.

O que “velho” significa hoje

Os números agora divulgados em França apontam para um movimento que também se observa noutros países europeus: para muitas pessoas, “ser velho” começa claramente mais tarde do que no passado. A geração 60+ viaja, por vezes continua a trabalhar, experimenta coisas novas - e está longe do estereótipo do reformado frágil.

Ao mesmo tempo, mantém-se o receio de, um dia, perder o controlo sobre a própria vida. Colidem, assim, duas realidades: uma imagem mais confiante e activa da velhice e preocupações muito concretas com doença e dependência.

Se encararmos estas tensões de forma consciente, é possível alterar a nossa relação com o envelhecer. As sondagens ajudam a enquadrar o tema: hoje, a maioria só espera sentir-se realmente velha no final dos 60. Ainda assim, a velocidade com que cada pessoa se aproxima dessa fasquia depende bastante do modo como vive - e de como se vê a si própria.


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