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Onda de frio na Florida transforma iguanas verdes em “ramos” e reacende o debate sobre a espécie invasora

Iguanas capturadas num bairro com um homem a transportar caixa de transporte e viatura policial ao fundo.

As temperaturas desceram a níveis capazes de paralisar animais de sangue frio, deixando iguanas verdes, de um verde vivo, imóveis em passeios, pátios e debaixo de palmeiras em várias zonas da Florida.

Onda de frio transforma iguanas em “ramos” que caem

Uma frente de ar frio intensa atravessou o sul dos Estados Unidos, afectando a Carolina do Norte e estados vizinhos, e arrastando para a Florida valores de temperatura invulgarmente baixos. Em Orlando, os termómetros desceram até perto de –4°C, um patamar raramente observado no chamado Sunshine State.

Para quem é de sangue quente, a resposta foi simples: aumentar o aquecimento e tirar o gelo dos pára-brisas. Já para as iguanas verdes da Florida, o frio activou uma espécie de “modo de segurança” biológico. À medida que o ar arrefecia e se aproximava do ponto de congelação, o organismo destes répteis abrandou de forma acentuada.

Quando as temperaturas se aproximam de 0°C, as iguanas verdes podem ficar totalmente imóveis, tombando dos ramos como fruta sacudida de uma árvore.

Nas redes sociais, multiplicaram-se vídeos que, à primeira vista, parecem registar estragos de um temporal: “ramos” a cair das copas durante a noite. Só ao reparar melhor é que se percebe que esses supostos ramos têm garras e caudas.

As autoridades da vida selvagem sublinham que estes lagartos não estão, necessariamente, mortos. Assim que o sol volta e o ar aquece, a maioria recupera gradualmente a mobilidade e acaba por fugir.

Autoridades vêem uma oportunidade para controlar uma espécie invasora

Por se tratar de uma espécie considerada invasora, as autoridades da Florida estão a encarar esta vaga de frio como uma janela para reduzir a população. A Florida Fish and Wildlife Conservation Commission (FWC) emitiu uma ordem executiva temporária que dá aos residentes autorização explícita para recolher iguanas atordoadas pelo frio sem necessidade de uma licença especial.

Quem encontrar os animais no chão pode apanhá-los e entregá-los num de vários escritórios da FWC definidos como pontos de entrega. A partir daí, os répteis podem ter dois destinos.

Segundo a FWC, as iguanas verdes entregues ao estado serão submetidas a eutanásia “humana” ou, em casos limitados, transferidas para comerciantes licenciados que vendem animais vivos.

A lei da Florida já permite, durante todo o ano, que os residentes matem iguanas verdes na sua própria propriedade, desde que recorram a métodos considerados humanitários. A ordem de emergência limita-se a simplificar o procedimento durante a vaga de frio, ao permitir a captura numa área mais ampla e ao formalizar os locais de entrega.

Porque é que a Florida quer menos iguanas verdes

As iguanas verdes não são nativas dos Estados Unidos. São originárias da América Central e da América do Sul e terão criado populações estabelecidas na Florida devido a uma combinação de fugas de animais de estimação e libertações intencionais.

Com o passar dos anos, multiplicaram-se ao longo de canais, campos de golfe e zonas suburbanas. De acordo com responsáveis estaduais, a sua presença está associada a vários problemas:

  • Competem com a fauna nativa por alimento e locais de exposição ao sol.
  • As tocas podem fragilizar muros de contenção costeiros, passeios e taludes de canais.
  • Danificam jardins e espaços ajardinados, hortas e plantas ornamentais.
  • Por vezes transportam salmonela, que pode passar para humanos através do contacto com fezes.

Para proprietários, isto pode significar pátios rachados, bordos de piscinas abatidos e reparações dispendiosas em imóveis junto à água. Para conservacionistas, a preocupação central é a pressão adicional sobre espécies nativas que evoluíram sem a presença destes grandes lagartos herbívoros.

Recomendações para residentes que lidam com iguanas entorpecidas pelo frio

Apesar de uma iguana rígida parecer inofensiva, agentes da vida selvagem alertam que um animal atordoado pode recuperar subitamente assim que for aquecido. A FWC divulgou orientações práticas para quem pondera ajudar na recolha.

Os residentes são aconselhados a usar luvas, calças e mangas compridas e a colocar quaisquer iguanas que apanhem num saco de pano seguro e à prova de fuga.

Segundo a agência, estas precauções reduzem o risco de arranhões e mordidelas. Um animal que aparenta estar inconsciente pode ficar alerta e defensivo em poucos minutos, sobretudo se for colocado num local quente, como um carro ou uma garagem.

As autoridades lembram ainda que os animais não devem ser libertados noutros sítios. O transporte deve ser feito directamente para um escritório designado ou para um operador de controlo de fauna com licença. A deslocação sem regras apenas espalha o problema.

Estatuto legal: praga protegida, ou apenas praga?

Na Florida, as iguanas verdes não têm protecção legal equivalente à de uma espécie nativa. Em terrenos privados, não existe época fechada nem limite de capturas. Com autorização do proprietário, os residentes podem proceder à eutanásia ao longo de todo o ano.

Noutros estados norte-americanos, o enquadramento é diferente. Na maior parte do país, as iguanas não conseguem sobreviver ao inverno e são vistas sobretudo em cativeiro. O clima subtropical da Florida dá-lhes uma oportunidade rara no território continental dos Estados Unidos, o que ajuda a explicar a postura rigorosa do estado.

Aspecto Iguanas na Florida
Origem Introduzidas a partir da América Central/América do Sul
Estatuto legal Invasoras, não protegidas
Métodos de controlo Eutanásia humanitária permitida em propriedade privada; captura com licenças
Principais preocupações Danos em infra-estruturas e jardins, e risco para espécies nativas

Questões éticas sobre eutanásia em massa

A estratégia do estado divide opiniões. Alguns residentes, sobretudo os que vivem junto a canais ou muros costeiros, apoiam um controlo mais agressivo. Depois de danos repetidos, a possibilidade de retirar dezenas de iguanas numa única semana fria pode ser encarada como um alívio.

Já defensores do bem-estar animal descrevem outra realidade: criaturas sencientes atordoadas por uma geada rara, recolhidas e depois abatidas de propósito. Mesmo quando as autoridades usam a expressão “eutanásia humana”, há quem questione se todos os métodos aplicados, na prática, cumprem esse padrão.

Em geral, veterinários recomendam técnicas rápidas, que provoquem perda imediata de consciência e evitem sofrimento. Isso implica formação, equipamento e supervisão. No entanto, num cenário com centenas de localidades e jardins particulares, a fiscalização e a consistência das práticas tendem a ser irregulares.

A tensão reflecte um debate mais amplo nos Estados Unidos: até onde deve ir o controlo de espécies invasoras quando esses animais, sem responsabilidade própria, foram introduzidos por acção humana.

O que significa, na prática, “entorpecidas pelo frio”

Para quem não está familiarizado com a biologia dos répteis, a ideia de “entorpecimento pelo frio” pode soar a eufemismo. Na realidade, trata-se de uma resposta fisiológica concreta. Por serem ectotérmicas, as iguanas dependem do calor exterior para regular a temperatura corporal. Quando o ar arrefece rapidamente, o metabolismo abranda e os músculos perdem capacidade de funcionamento.

A partir de certos limiares, deixam de conseguir agarrar-se aos ramos e de mover as patas com normalidade. Ficam rígidas, quase como estátuas vivas. Este estado pode durar horas. Se a temperatura descer demasiado e durante demasiado tempo, os órgãos entram em falência e o animal morre. Se, pelo contrário, as condições melhorarem a tempo, a iguana muitas vezes sobrevive.

Um fenómeno semelhante ocorre com tartarugas marinhas ao largo da costa leste dos Estados Unidos, que por vezes dão à costa imóveis após vagas de frio. Nesses casos, equipas de resgate tendem a reaquecer e a devolver os animais ao mar, por serem nativos e protegidos.

Como os invernos futuros podem moldar o problema dos répteis na Florida

O clima da Florida está, no conjunto, a aquecer, mas o estado continua a ser atingido ocasionalmente por frentes de ar frio abruptas. Cada uma funciona como um teste de resistência para espécies tropicais que se instalaram. Se os invernos se mantiverem suaves durante décadas, répteis invasores como iguanas verdes, lagartos tegu e algumas pítons poderão continuar a expandir-se para norte.

Por outro lado, uma sequência de geadas fortes pode reduzir drasticamente as populações, pelo menos por algum tempo. Alguns biólogos olham para estes episódios como travões naturais que abrandam a disseminação de animais não nativos sem exigir intervenção humana contínua.

Para os gestores estaduais, coloca-se uma escolha estratégica: depender parcialmente da meteorologia e aceitar números flutuantes, ou aproveitar cada vaga de frio como oportunidade para um abate intensivo, tal como sucede nesta ordem mais recente.

Situações práticas para residentes

Para quem vive nas zonas afectadas, há cenários que se tornam comuns durante vagas de frio:

  • Um proprietário encontra três iguanas rígidas no relvado ao amanhecer. Pode deixá-las até meio do dia - altura em que muitas recuperam e sobem para as árvores - ou capturá-las em sacos e entregá-las num escritório da FWC para eutanásia.
  • Um jardineiro detecta tocas a fragilizar um muro de contenção. Com o consentimento do dono do terreno, pode contratar um capturador licenciado que aproveita o frio para apanhar mais animais em menos dias.
  • Um residente quer ajudar, mas é contra matar. Pode optar por não participar na recolha, embora continue a ter de lidar com possíveis danos e dejectos nas imediações da casa.

Cada decisão implica compromissos: de um lado, menos estragos; do outro, desconforto ético. E assim, em raras mas marcantes descidas de temperatura, as iguanas continuam a cair das árvores da Florida.

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