A investigação mais recente deixa uma ideia clara: muitos tubarões são mais tímidos do que predadores implacáveis.
O medo de tubarões está bem enraizado - alimentado por filmes de terror, manchetes dramáticas e vídeos virais em praias. No entanto, estudos atuais estão a abalar o estereótipo do “assassino dos mares”. Os cientistas sublinham que os tubarões têm personalidades individuais que influenciam fortemente a forma como se comportam no oceano - há exemplares mais ousados e outros claramente mais receosos.
Como nasceu a imagem de “tubarão assassino”
No imaginário coletivo, os tubarões estão frequentemente no topo da lista dos animais mais perigosos do mundo. O cinema ajudou a cimentar essa perceção: êxitos como “Tubarão” e outros thrillers mais recentes, com surfistas na mira de grandes peixes, reforçaram a noção de que estes animais percorrem o mar numa procura constante por carne humana.
Existe até um termo específico para o pânico relacionado com tubarões: selacofobia. Quem sofre desta fobia tende a evitar não só o mar aberto, mas por vezes também piscinas, praias ou até imagens de tubarões, por desencadearem reações físicas intensas - taquicardia, suores e falta de ar.
Os números, vistos com frieza, contam outra história: para as pessoas, os acidentes rodoviários, os mosquitos ou até as vacas representam um risco bem maior do que os tubarões.
Entre cerca de 500 espécies de tubarões conhecidas, a maioria não ataca seres humanos de forma intencional. Muitos encontros resultam de enganos, aproximações por curiosidade ou exploração do ambiente - não de caça deliberada.
Investigadores põem à prova a personalidade de tubarões jovens
O tema torna-se particularmente interessante quando os biólogos deixam de olhar apenas para dentes e força de mordida e passam a medir traços comportamentais. Em 2016, uma equipa de investigação australiana estudou tubarões-de-Port-Jackson jovens para perceber se era possível identificar algo semelhante a uma “personalidade”.
Para isso, os investigadores procuraram responder a duas perguntas:
- Até que ponto um tubarão específico tende a ser arrojado ou cauteloso?
- Esse padrão mantém-se em situações de stress, ou muda de forma marcada?
No âmbito do estudo, 17 tubarões juvenis foram colocados num tanque com um esconderijo protegido. Após um curto período de adaptação, a porta do abrigo foi aberta e os cientistas cronometraram o tempo que cada animal demorava a sair completamente. Os que emergiam rapidamente foram classificados como mais corajosos; os que permaneciam mais tempo na zona segura foram considerados mais prudentes.
Teste de stress na água: quem mantém a calma e quem se agita?
Na segunda fase, a equipa quis perceber se aqueles perfis se mantinham quando a pressão aumentava. Cada tubarão foi retirado da água por instantes e segurado durante cerca de um minuto - uma situação claramente stressante para um animal marinho.
De seguida, o tubarão regressava ao tanque e os biólogos mediam a distância percorrida na água. Depois, comparavam esses valores com a atividade do mesmo indivíduo no primeiro teste, realizado sem stress.
A questão central: cada tubarão reage de forma totalmente imprevisível - ou existe um caráter reconhecível que se repete em diferentes situações?
Os resultados indicaram diferenças consistentes. Alguns indivíduos mantiveram-se relativamente tranquilos mesmo depois do episódio stressante; outros tornaram-se muito mais agitados e nadaram distâncias significativamente maiores. As variações entre animais eram nítidas.
Gigantes arrojados, pequenos mais cautelosos
Surgiu um padrão visível: os tubarões maiores tendiam a comportar-se com mais audácia e pareciam sentir menos stress. Já os mais pequenos mostravam-se, em média, mais retraídos e reagiam com maior nervosismo quando o contexto mudava.
Isto não significa que tubarões maiores sejam automaticamente mais perigosos para as pessoas. Ser “corajoso” pode simplesmente traduzir-se numa maior facilidade em aproximar-se de objetos novos ou de sons desconhecidos - não numa maior predisposição para atacar. Pelo contrário, um tubarão pequeno e receoso tende muitas vezes a afastar-se, em vez de confrontar.
| Tipo de tubarão | Comportamento típico | Possível consequência em encontros |
|---|---|---|
| Maior, confiante | Mais curioso, menos assustadiço | Aproxima-se com maior probabilidade de pessoas ou embarcações |
| Mais pequeno, cauteloso | Hesitante, evita áreas abertas | Mantém-se mais afastado e recua mais depressa |
Por isso, os investigadores usam deliberadamente o termo “personalidade”: dentro da mesma espécie, indivíduos distintos apresentam respostas estáveis e diferentes - de forma semelhante ao que observamos em cães, gatos ou, naturalmente, em seres humanos.
Porque a personalidade dos tubarões importa para quem vai à praia
Estas conclusões não são apenas curiosidade académica. Ajudam a melhorar a avaliação de risco em zonas balneares. Se os especialistas souberem que espécies circulam numa determinada região e como costumam reagir, torna-se mais fácil delimitar áreas de maior atenção.
Em prática, para zonas costeiras, isso pode significar:
- Espécies mais assertivas tendem a evitar menos as águas pouco profundas.
- Espécies mais reservadas mantêm-se com maior frequência em zonas mais fundas.
- Estímulos pouco habituais - como muitas embarcações ou pranchas de surf - podem alterar o comportamento de forma diferente consoante o “tipo” de animal.
Quanto melhor os investigadores compreenderem as diferenças subtis de comportamento, mais precisamente se conseguem desenhar medidas de proteção para pessoas e tubarões.
Assim, a utilização de drones ou câmaras subaquáticas junto às praias pode ir além de detetar a simples presença de tubarões, permitindo, com o tempo, identificar padrões de movimento e reações típicas de certas espécies.
O que significa “personalidade” quando falamos de animais
À primeira vista, a palavra soa demasiado humana, mas na biologia é cada vez mais comum. Aqui, “personalidade” refere-se a padrões de comportamento consistentes que um indivíduo revela repetidamente, como por exemplo:
- A rapidez com que explora áreas novas
- A intensidade com que responde ao stress
- A proximidade que tolera de outros animais ou objetos
- O nível de atividade comparado com outros da mesma espécie
Estas características podem ser medidas e quantificadas com testes e observações. Em aves, peixes, polvos ou roedores, este tipo de trabalho já está bem descrito. No caso dos tubarões, a investigação tem avançado mais lentamente, mas está a ganhar terreno.
O que os banhistas devem ter em conta na prática
Se alguém pensa: “Se os tubarões têm personalidade, então pode acontecer de tudo” - isso não é totalmente verdade. A maioria dos incidentes encaixa em algumas situações recorrentes. Regras simples ajudam a reduzir bastante o risco:
- Evitar nadar ao amanhecer ou ao entardecer, quando muitos predadores estão a caçar.
- Não usar joias brilhantes, que podem parecer peixe-presa.
- Não nadar sozinho e muito afastado da costa, sobretudo em locais conhecidos por presença de tubarões.
- Levar a sério avisos locais e sinalização.
Mesmo com personalidade própria, um tubarão continua a ser um animal selvagem com uma dentição poderosa. Respeito e prudência são sempre essenciais.
Porque a nova visão sobre os tubarões beneficia toda a gente
Uma perspetiva mais matizada do “tubarão com caráter” traz vários ganhos. Por um lado, reduz a histeria emocional: ao perceber que os tubarões não atacam por capricho e que variam muito entre espécies e indivíduos, diminui a tendência para exigir respostas extremas, como programas de abate.
Por outro, compreender tipos de personalidade pode facilitar a proteção de espécies ameaçadas. Muitos tubarões estão sob forte pressão devido à sobrepesca, capturas acidentais e perda de habitat. Dados comportamentais mais robustos ajudam a planear áreas marinhas protegidas de forma mais eficaz e a ajustar métodos de pesca, reduzindo o número de animais que acabam presos em redes.
Para crianças e adolescentes interessados em biologia marinha, este tipo de estudo também abre uma porta apelativa: os tubarões deixam de ser retratados apenas por tamanhos de mandíbulas e estatísticas de ataques, passando a ser vistos como seres complexos, com diferenças individuais. Isso desperta curiosidade em vez de pânico - e é muitas vezes dessa curiosidade que nascem futuros investigadores do mar, médicos veterinários ou defensores da natureza.
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