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Tubarões têm personalidade: estudo australiano com tubarões Port-Jackson

Mergulhador em fatos de neoprene interage com tubarão sob água clara junto a rochas e areia do fundo.

Há décadas que filmes como "Tubarão" moldam a forma como imaginamos os grandes predadores do oceano: criaturas sedentas de sangue, à espera do momento certo para atacar pessoas. No entanto, investigações recentes apontam para um retrato totalmente diferente - e até desconcertantemente próximo do humano: os tubarões apresentam traços individuais de personalidade, que podem ir da timidez à ousadia.

Tubarões: predadores temidos e com má reputação

Poucos animais do mar provocam tanta apreensão como o tubarão. Em muitas zonas costeiras, basta ser reportada uma avistagem para surgirem de imediato interdições a banhos e manchetes alarmistas. Ainda assim, os números mostram uma realidade bem menos dramática: face a outros perigos, a probabilidade de um ataque de tubarão é extremamente baixa.

  • Em todo o mundo, registam-se por ano apenas algumas dezenas de ataques não provocados.
  • Só uma pequena parte desses incidentes resulta em morte.
  • Todos os anos morrem muito mais tubarões devido à pesca do que pessoas devido a tubarões.

Apesar disso, o medo mantém-se teimosamente. Quando essa apreensão é muito intensa e irracional, especialistas classificam-na como uma fobia específica. Em casos extremos, há quem entre em pânico apenas ao ver fotografias ou vídeos de tubarões.

Estudo da Austrália: tubarões com características individuais

Um trabalho particularmente interessante, conduzido por investigadores australianos, observou juvenis de tubarão Port-Jackson em tanques com água do mar. O objectivo era perceber se estes animais exibem algo semelhante a uma personalidade estável - isto é, padrões de comportamento que variam de indivíduo para indivíduo e que se mantêm relativamente consistentes ao longo do tempo.

"Os investigadores constataram: alguns tubarões são claramente mais cautelosos, outros muito mais ousados - e isso independentemente da situação."

Teste 1: quanta coragem tem o tubarão para sair do esconderijo?

Na primeira etapa, os cientistas colocaram os jovens tubarões num abrigo protegido dentro de um tanque. Após um breve período de adaptação, abriu-se uma porta de correr. Do lado de fora havia um espaço maior - mas também a incerteza do desconhecido.

Os investigadores cronometraram com precisão o tempo até cada tubarão abandonar por completo o esconderijo. A variação foi evidente:

  • Alguns indivíduos saíram rapidamente do refúgio e pareciam explorar o ambiente com curiosidade.
  • Outros permaneceram bastante mais tempo na zona protegida e só avançaram com hesitação.

Estas diferenças não surgiram ao acaso: repetiram-se em várias rondas. Isso sugere que certos tubarões são, por natureza, mais propensos ao risco do que outros.

Teste 2: como reagem os tubarões ao stress?

No segundo teste, a equipa quis observar como os animais lidavam com um episódio súbito de stress. Cada tubarão foi retirado brevemente da água, mantido imobilizado durante um minuto e depois devolvido ao tanque. Para um animal marinho, esta intervenção representa uma perturbação clara e, muito provavelmente, um estímulo de stress intenso.

De seguida, os cientistas mediram a distância que os tubarões nadavam no tanque e compararam-na com a actividade no primeiro teste, sem stress. Também aqui surgiram contrastes nítidos:

  • Alguns tubarões percorreram uma distância significativamente maior após o episódio, mostraram-se inquietos e pareciam procurar segurança.
  • Outros mantiveram-se mais calmos e nadaram praticamente o mesmo - nem muito mais, nem muito menos - do que antes.

Com base nestes dados, os investigadores concluíram que os tubarões não reagem apenas de forma momentânea: cada indivíduo pode revelar um padrão próprio na forma como enfrenta o stress.

Tubarões maiores mais ousados, os pequenos mais receosos

Outro resultado do estudo aponta para a influência do tamanho corporal. Os juvenis de maior porte mostraram-se, com mais frequência, mais corajosos e menos afectados pelo stress. Já os tubarões mais pequenos, no conjunto, adoptaram atitudes mais reservadas.

"Ser ousado não significa automaticamente ser perigoso: um tubarão confiante não tem, necessariamente, maior probabilidade de atacar pessoas."

O que mais pesa é o contexto: a espécie, o habitat, a disponibilidade de presas, as condições de visibilidade e o comportamento humano na água alteram o risco de forma muito mais decisiva do que a mera "personalidade" do animal. Ainda assim, olhar para estas diferenças individuais ajuda a compreender melhor os padrões de comportamento.

Porque é que esta descoberta é tão relevante

Encarar os tubarões como indivíduos com traços de carácter também muda a forma como pensamos a protecção da espécie e a segurança no mar. As diferenças de personalidade podem, por exemplo, contribuir para estimar com maior precisão as áreas de risco.

A comunidade científica espera que estudos deste tipo ajudem, no futuro, a avaliar melhor:

  • Que espécies, e em que regiões, tendem a ser mais curiosas face à presença humana.
  • Se certas fases de vida - como juvenis ou animais sexualmente maduros - se aproximam mais vezes da costa.
  • De que maneira o stress causado por ruído, pesca ou turismo influencia o comportamento a longo prazo.

Ao perceber que alguns tubarões actuam com grande prudência enquanto outros são mais destemidos, torna-se possível ajustar medidas de gestão e protecção. Por exemplo, reforçando a vigilância em determinados troços costeiros em épocas específicas do ano, ou instalando painéis informativos que alertem para condições típicas em que os incidentes tendem a aumentar.

Como os tubarões pensam - e o que isso significa para as pessoas

A ideia de personalidade em animais não é nova. Em cães, aves ou até lulas, os investigadores conhecem há muito estas variações. Ainda assim, incluir também os tubarões surpreende muita gente, porque a sua imagem pública continua fortemente dominada por figuras do cinema.

Um ser vivo com personalidade estável não se comporta de forma totalmente aleatória. Há padrões: um indivíduo naturalmente cauteloso tende a manter-se reservado em múltiplas situações. Um indivíduo naturalmente curioso explora com mais frequência estímulos novos - e, por isso, pode acabar por aproximar-se mais de surfistas ou banhistas.

Para quem entra no mar, aplica-se um princípio simples: respeitar o animal reduz o risco. Entre as medidas práticas contam-se:

  • evitar nadar em zonas onde há muita pesca ou onde se concentram peixes-presa,
  • não usar acessórios muito brilhantes ou reflectores, que possam imitar peixes ou outras presas,
  • não ir ao banho sozinho ao amanhecer/entardecer ou durante a noite, períodos em que muitos tubarões caçam.

O que significa exactamente "personalidade" nos animais

À primeira vista, o termo pode soar a humanização, mas em biologia tem um significado concreto: diferenças comportamentais recorrentes entre indivíduos. Um animal que, em testes, sai repetidamente mais cedo do esconderijo é considerado mais ousado ou mais exploratório. Um animal que reage sempre com grande intensidade a situações de stress é classificado como mais sensível.

Estas características podem ser vantajosas ou desfavoráveis, dependendo do ambiente. Um tubarão mais audaz pode descobrir fontes de alimento novas com maior facilidade, mas também se expõe mais vezes ao perigo. Um tubarão mais receoso tem maiores hipóteses de sobreviver a cenários arriscados, mas pode perder oportunidades.

É precisamente este equilíbrio que interessa aos investigadores. O que procuram compreender é como estas estratégias se mantêm ao longo das gerações e como mudanças no oceano - desde o aquecimento até à pesca - as afectam.

O que os tubarões significam para o oceano

Em muitos ecossistemas marinhos, os tubarões estão entre os níveis mais altos da cadeia alimentar. O modo como se comportam influencia o comportamento e a distribuição de outras espécies. Se, por exemplo, atacarem mais frequentemente determinadas presas, a abundância dessas populações altera-se, e esse efeito pode propagar-se em cascata por todo o sistema.

As diferenças individuais também podem fazer com que certos tipos de tubarão se especializem em áreas de caça ou em presas específicas. Assim, a pressão predatória acaba por se repartir por diferentes zonas e espécies. Quando desaparecem demasiados destes predadores de topo, ecossistemas inteiros ficam desequilibrados - com impacto na pesca, no turismo e nas comunidades costeiras.

Quem vê os tubarões apenas como monstros sem rosto ignora este papel. A investigação sobre a personalidade destes animais contribui para corrigir essa visão. Mostra que não existe apenas "o tubarão", mas muitos indivíduos distintos - com respostas, pontos fortes e fragilidades próprios. E é precisamente essa diversidade que torna os mares mais estáveis do que parece à primeira vista.


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