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O anel de polegar zihgir de Hasankeyf revela o poder dos Artúquidas

Pessoa a examinar artefacto arqueológico num sítio histórico com ferramentas e mapa sobre pedra.

Desenterrado num palácio em ruínas em Hasankeyf, no sudeste da Turquia, um anel de polegar de arqueiro ricamente ornamentado está a ajudar a perceber como as elites islâmicas medievais recorriam a armas, luxo e espectáculo para afirmar a sua autoridade por toda a Mesopotâmia.

Hasankeyf: uma fortaleza esquecida no cruzamento de impérios

Hoje parcialmente submersa por uma barragem moderna, Hasankeyf controlou em tempos uma via decisiva de passagem na Alta Mesopotâmia. A povoação agarra-se às escarpas sobre o rio Tigre, na actual província de Batman, numa zona que fazia a ligação entre a Anatólia, a Síria e o Iraque.

Os vestígios arqueológicos apontam para quase 12 000 anos de ocupação quase contínua. Romanos, Bizantinos, a dinastia Artúquida, os Aiúbidas e os Otomanos dominaram o local em diferentes períodos. Cada poder deixou camadas sucessivas de monumentos: habitações escavadas na rocha, pontes, mesquitas e, de forma determinante, palácios voltados para o curso do rio.

É precisamente num desses complexos palatinos que surge a nova descoberta: o chamado Grande Palácio, um vasto conjunto medieval associado aos Artúquidas, dinastia túrquica que governou partes do que é hoje a Turquia e a Síria entre os séculos XI e XIII. As suas cortes combinavam tradições das estepes com a cultura urbana islâmica, e investiram de forma intensa em arquitectura, artesanato e prestígio militar.

Um anel de arqueiro encontrado num recanto real do Grande Palácio Artúquida

Na campanha de escavações de 2025, uma equipa liderada pelo professor associado Zekai Erdal, da Universidade Artuklu de Mardin, abriu sondagens no canto sudeste do Grande Palácio Artúquida. No ponto de encontro das principais paredes portantes, apareceu um objecto pequeno, mas marcante: um anel de arqueiro - conhecido em contextos turcos e persas como zihgir - talhado em marfim.

"Encontrado no coração estrutural do palácio Artúquida, o anel de marfim parece estar intimamente ligado aos círculos governantes, e não a soldados comuns."

A posição do achado é significativa. Não se tratava de um pátio qualquer nem de uma zona de serviço. O anel estava numa área do palácio fortemente associada à casa governante e a altos funcionários. Por isso, os arqueólogos admitem que poderá ter pertencido a alguém de estatuto elevado - talvez um príncipe, um comandante sénior ou um membro do círculo íntimo do sultão.

Nas sociedades túrquicas e islâmicas medievais, a prática do arco era muito mais do que uma competência de campo de batalha. Os arqueiros montados formavam o núcleo da cultura militar túrquica, e o arco assumiu-se como emblema de justiça, soberania e autodisciplina. Usar um anel de polegar indicava, ao mesmo tempo, domínio técnico e ligação a uma tradição marcial de elite.

Porque é que um anel de polegar tinha tanta importância

O anel de arqueiro serve para proteger o polegar ao puxar um arco composto potente, recorrendo à largada “mongol” ou “turca”. Em muitos casos, estes anéis eram fabricados em chifre, osso ou metal simples - usados no desgaste diário e facilmente descartados por soldados comuns. O exemplar de Hasankeyf insere-se numa categoria completamente diferente.

Entre as cortes da Anatólia e do subcontinente indiano, os zihgir de feitura requintada funcionavam como marcadores de estatuto. Eram usados em cerimónias, procissões de corte e caçadas, muitas vezes muito depois de os seus proprietários terem enfrentado combate real. Ilustrações em manuscritos e relevos em pedra mostram governantes a exibir com orgulho os anéis de polegar a par de espadas e anéis-sinete.

  • Uso prático: proteger o polegar durante puxadas exigentes do arco.
  • Valor simbólico: indicar treino nobre e virtude marcial.
  • Sentido social: assinalar pertença a uma classe guerreira de elite.
  • Função cerimonial: surgir em retratos, juramentos e rituais de poder.

Uma pequena obra-prima do luxo na arte islâmica

O que distingue o anel de Hasankeyf é tanto a matéria-prima como a decoração. Na Idade Média, o marfim era caro e sujeito a controlo apertado. Chegava à Anatólia por rotas comerciais de longa distância ligadas a África e à Índia e, em regra, era reservado a objectos de corte: cofres, peças de xadrez, capas de livros e elementos cerimoniais.

O anel foi esculpido numa única peça de marfim. No exterior, apresenta filas de minúsculas contas de pérola cuidadosamente alinhadas. Ao centro, uma pedra turquesa, montada num engaste em forma de losango, cria um ponto de cor intenso. Em torno, incrustações de prata desenham padrões geométricos nítidos, coerentes com tradições ornamentais islâmicas que privilegiavam o abstraccionismo em detrimento de cenas figurativas.

"Nenhum outro anel de arqueiro medieval conhecido combina marfim, pérolas, turquesa e prata num desenho tão intrincado e cuidadosamente composto."

Especialistas em arte islâmica lembram que existem anéis de polegar luxuosos preservados em importantes colecções, incluindo o tesouro otomano do Palácio de Topkapı, em Istambul. Ainda assim, nenhum desses exemplos apresenta a mesma conjugação de materiais e o mesmo esquema decorativo observado em Hasankeyf.

O objecto cruza várias correntes estéticas: o simbolismo marcial túrquico, a arte geométrica islâmica e um gosto mediterrânico por pérolas e pedras coloridas. Tudo isto sugere que a corte Artúquida não era um posto periférico, mas antes um participante activo nas tendências culturais de alto estatuto dos séculos XII e XIII.

O que o desenho sugere sobre o proprietário

A combinação de marfim e pérolas aponta para riqueza e para acesso a redes comerciais globais. As pérolas terão provavelmente origem no Golfo ou em águas do oceano Índico, enquanto a turquesa poderá ter viajado desde minas no Irão ou na Ásia Central.

As incrustações de prata exigiam artesãos altamente qualificados, capazes de trabalhar em escalas diminutas e habituados a gostos de elite. A presença desse nível de execução no interior do palácio aponta para oficinas residentes no local ou, pelo menos, estreitamente ligadas à família governante.

Característica Implicação para o estatuto
Corpo em marfim Acesso a matérias-primas raras e importadas
Decoração em pérolas Ligações ao comércio marítimo e luxo de corte
Incrustação de turquesa Vínculos a rotas de abastecimento do Irão ou da Ásia Central
Motivos geométricos em prata Recurso a artesãos especializados em incrustações metálicas

Um novo ponto de referência para as elites islâmicas medievais

O anel de Hasankeyf está já a ser encarado como um objecto de referência para quem estuda a cultura material islâmica medieval. A peça reforça debates sobre a forma como dinastias regionais, como os Artúquidas, representavam o poder enquanto viviam sob a sombra de vizinhos mais famosos, como os Seljúcidas e, mais tarde, os Otomanos.

Em vez de depender apenas de crónicas escritas em capitais distantes, a arqueologia passa a dispor de um item físico que cristaliza a encenação quotidiana da autoridade. Um príncipe que surgisse numa varanda do palácio com um anel destes no polegar projectaria, de uma só vez, competência no uso de armas, acesso à riqueza e familiaridade com gostos refinados.

"O anel transforma a prática do arco, de competência militar, numa linguagem de estatuto, identidade e legitimidade para as elites islâmicas medievais."

O achado também consolida a reputação de Hasankeyf como um lugar patrimonial-chave, mesmo num contexto em que partes do antigo povoado foram deslocadas ou submersas devido ao projecto da barragem de Ilısu. As escavações em curso, realizadas no âmbito do programa turco "Património para o Futuro", procuram registar e preservar o máximo de materiais possível antes que se percam.

Como os arqueólogos extraem significado de um único objecto

Para quem não é especialista, pode ser difícil perceber como um anel tão pequeno sustenta interpretações tão amplas. A leitura arqueológica combina várias linhas de evidência:

  • Contexto: o local exacto onde foi encontrado, as camadas e o edifício associado.
  • Comparação: paralelos em museus, colecções privadas e escavações anteriores.
  • Tecnologia: análise microscópica de marcas de ferramentas, métodos de incrustação e sinais de uso.
  • Textos: crónicas, poesia e documentos legais que descrevem a vida cortesã.

Neste caso, o enquadramento palatino aponta para um proprietário de estatuto elevado. Os materiais e a execução confirmam uma encomenda de elite. As fontes escritas sobre as cortes túrquicas sublinham a importância da prática do arco e da cultura de torneios. Em conjunto, estes elementos sustentam a ideia de que o anel funcionava como um distintivo visível de privilégio.

Termos-chave e enquadramento

O que é um zihgir?

A palavra zihgir é frequentemente usada, em turco e persa, para designar um anel de polegar concebido para a prática do arco. Ao contrário de anéis comuns, um zihgir costuma ter uma aba saliente ou uma aresta plana onde a corda do arco se apoia.

Quando o arqueiro puxa o arco com o polegar, o anel protege a pele da pressão e da fricção. As técnicas de largada eram fortemente codificadas. Manuais dos períodos otomano e safávida descrevem postura correcta, respiração e foco espiritual como parte do treino, fazendo de equipamento como o anel de polegar instrumentos de formação de carácter tanto quanto de guerra.

O que significavam “marfim” e “prata” num contexto medieval

Actualmente, o marfim está associado a controlos legais rigorosos e a preocupações de conservação. Na Idade Média, era sobretudo um sinal de domínio de comércio a longa distância. Possuir objectos em marfim projectava a ideia de um governante com alcance muito para além do seu território imediato. Ainda assim, o estudo e a exposição destes artefactos inserem-se hoje em debates sobre espécies ameaçadas e caça histórica, tema que os museus abordam cada vez mais de forma aberta.

A prata, por sua vez, tinha peso monetário e simbólico. Circulava como moeda, mas também aparecia em têxteis, guarnições de armas e joalharia. Na arte islâmica, a incrustação de prata sobre metais mais escuros - ou sobre materiais orgânicos como o marfim - criava contrastes fortes, particularmente eficazes em interiores pouco iluminados por lamparinas a óleo.

Porque é que isto importa para o público contemporâneo

Para leitores de hoje, a história de um único anel de polegar mostra como os objectos ajudam a construir identidade. Basta pensar em insígnias militares modernas, troféus desportivos ou relógios de luxo usados por líderes empresariais: cada um comunica treino, sucesso e acesso a determinados círculos.

O anel de Hasankeyf desempenhava uma função semelhante. Condensava a biografia do seu dono - guerreiro, cortesão, patrono de artesãos - numa peça mínima de equipamento pessoal. Imaginar o anel novamente no polegar, com um palácio movimentado sobre o Tigre como pano de fundo, aproxima o observador actual de uma sociedade há muito desaparecida, mas ainda audível através dos seus artefactos sobreviventes.

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