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Cerrado: as veredas escondidas que armazenam carbono e ameaçam a Amazónia

Mulher analisa amostragem de solo num campo agrícola com cultivo e canais de irrigação ao pôr do sol.

Quem pensa em protecção do clima na América do Sul chega quase automaticamente à floresta tropical. Só que, além da célebre região amazónica, existe um segundo gigante silencioso: o Cerrado, uma imensa paisagem de savana com turfeiras e zonas húmidas menos visíveis. Investigação recente mostra agora que são precisamente estes solos encharcados que retêm uma quantidade surpreendente de carbono - e que, se continuarem a ser drenados, podem tornar-se uma bomba-relógio para o clima global.

Um hotspot ignorado de carbono armazenado

O Cerrado ocupa cerca de um quarto do território do Brasil, mais de dois milhões de quilómetros quadrados. Durante muito tempo, foi visto sobretudo como uma frente agrícola: soja, gado, cana-de-açúcar. Em termos científicos, ficou na sombra das florestas tropicais. Um estudo de março de 2026 vem corrigir esta perceção.

Uma equipa de investigação do Brasil e dos EUA recolheu amostras profundas de solo em sete locais, em alguns casos até quatro metros de profundidade. Em vez de se limitar, como muitos trabalhos anteriores, às camadas superficiais, o grupo procurou as zonas onde, ao longo de milénios, se acumularam materiais orgânicos.

Em algumas zonas húmidas do Cerrado há até 1.200 toneladas de carbono por hectare - cerca de seis vezes a biomassa acima do solo de muitas florestas da Amazónia.

Extrapolando os resultados, estas zonas húmidas dispersas poderão alcançar cerca de um quinto de toda a reserva de carbono da região amazónica. Isto não é apenas um número académico: os modelos climáticos internacionais usam dados deste tipo para determinar quanto CO₂ a humanidade ainda pode emitir. Se as reservas de carbono no solo estiverem subestimadas, essas contas ficam fragilizadas.

Porque é que esta savana armazena tanto

Para muita gente, “savana” sugere relva seca, incêndios e solos pobres. No Cerrado, porém, a realidade muda quando se olha abaixo da superfície. Entre as áreas mais secas, estendem-se depressões húmidas, nascentes e cursos de água lentos - as veredas.

Nesses locais desenvolvem-se plantas especializadas, muitas com raízes profundas e mantos densos de raízes. Ano após ano, deixam resíduos vegetais que permanecem na água, em vez de se decompor por completo. Assim, ao longo de períodos muito prolongados, formam-se solos orgânicos, semelhantes a turfa, com um teor de carbono extraordinariamente elevado.

  • solos profundos e saturados de água
  • pouco oxigénio, decomposição lenta
  • reposição contínua de resíduos vegetais
  • acumulação por camadas ao longo de milénios

À superfície, o cenário parece discreto: uma zona baixa encharcada, palmeiras, gramíneas. Mas, debaixo dos pés, existe um arquivo de carbono retido que, em parte, se mantém desde tempos pré-históricos.

Como o nível de água e o oxigénio também decidem o clima

O coração deste “armazém” está no equilíbrio entre água e oxigénio. Enquanto o solo se mantém encharcado durante grande parte do ano, os microrganismos têm pouco oxigénio disponível para decompor rapidamente os restos de plantas. A decomposição abranda drasticamente e o carbono fica preso no solo.

Quando o nível da água desce, o sistema muda de regime. Se uma zona húmida seca ou for drenada de forma sistemática, o ar entra em camadas mais profundas. Os microrganismos “aceleram”, o processo de degradação intensifica-se e libertam-se CO₂ e, em parte, também metano para a atmosfera.

Aquilo que foi armazenado ao longo de milénios pode ser libertado em poucas décadas - e um processo que já arrancou é quase impossível de travar.

As medições das equipas de investigação indicam: cerca de 70 por cento das emissões de gases com efeito de estufa destes solos ocorre na estação seca. Se, com o aquecimento global, os períodos de seca se tornarem mais longos e intensos, aumenta o risco de um efeito dominó. O Cerrado pode passar de escudo a amplificador das alterações climáticas.

Veredas - veias de vida e tampão climático ao mesmo tempo

As veredas, zonas húmidas típicas do Cerrado, atravessam a paisagem como veias. Surgem ao longo de pequenos rios ou em depressões onde a água subterrânea aflora. São marcadas por povoamentos densos de palmeiras, gramíneas e arbustos, que fornecem matéria orgânica de forma permanente.

Além de funcionarem como sumidouros de carbono, desempenham várias funções em simultâneo:

  • áreas de nascente para grandes sistemas fluviais do Brasil
  • filtragem de nutrientes e poluentes na água
  • habitat para espécies especializadas, em alguns casos ameaçadas
  • amortecimento de secas e cheias em regiões vizinhas

Quando estas zonas húmidas se perdem, não é apenas o carbono armazenado que sofre. A disponibilidade de água em regiões distantes também se desestabiliza - incluindo partes da região amazónica, dependentes de água proveniente do Cerrado.

Mais do que savana: factor climático e a «torre de água» da América do Sul

Segundo estimativas, o Cerrado alimenta as áreas de nascente de dois terços dos grandes rios do Brasil. Assim, funciona como a «torre de água» de um continente inteiro. Grandes áreas metropolitanas, albufeiras para consumo humano e energia, e zonas industriais - tudo isto depende deste sistema.

Quem sacrifica o Cerrado não está apenas a serrar a própria torneira, mas também a estabilidade da região amazónica.

Ao mesmo tempo, trata-se de um dos tipos de savana mais ricos em biodiversidade no mundo. Estão documentadas mais de 12.000 espécies de plantas, muitas exclusivas da região. Várias espécies animais - de tamanduás a aves raras e répteis - estão adaptadas ao mosaico de zonas secas e húmidas.

Esta combinação de regulação hídrica, armazenamento de carbono e biodiversidade faz do Cerrado um ecossistema de importância global, que tem sido claramente subvalorizado no debate internacional.

A agricultura avança sobre as zonas húmidas - com impactos no clima

Apesar deste papel, o Cerrado tem sido tratado há décadas como um «amortecedor biológico»: aquilo que, na Amazónia, é demasiado sensível para desflorestação e grandes projetos desloca-se para a savana. Assim, enormes extensões foram convertidas em campos de soja, milho e pastagens. Para as zonas húmidas, isto tem consequências diretas.

Para gerir melhor campos e pastos, agricultores abrem valas, baixam o nível freático e desviam a água. E é precisamente esta drenagem que destrói o mecanismo que manteve os solos húmidos durante milénios - e, com isso, protegeu o carbono.

A região funciona como um amortecedor sacrificado para a agricultura - mas, ao fazê-lo, o Brasil põe em risco precisamente a fonte de água que também sustenta a floresta tropical.

A investigação evidencia o quão interligados estão os elementos: menos água no Cerrado significa menos humidade nas correntes de ar em direção à Amazónia. Se, em paralelo, o carbono armazenado escapar, o clima aquece ainda mais, as secas agravam-se - um ciclo de retroalimentação difícil de interromper.

Chega o estatuto de proteção no papel?

Existem áreas protegidas e regras legais para determinados biótopos húmidos. Na prática, porém, a proteção é irregular e muitas vezes concentra-se apenas nas manchas imediatamente encharcadas.

O ponto decisivo seria proteger toda a bacia de drenagem - isto é, a paisagem de onde uma zona húmida recebe água. Se, no entorno, se desmata, se compacta o solo ou se alteram cursos de água, a turfeira aparentemente protegida vai secando lentamente.

Problema Consequência para as zonas húmidas
Valas de drenagem Escoamento mais rápido, descida do nível freático
Monoculturas e compactação do solo Menor infiltração, mais escoamento superficial
Sobrepastoreio Destruição da cobertura vegetal, erosão
Aquecimento do clima, estações secas mais longas Mais tempo com oxigénio no solo, maior libertação de CO₂

O que poderia ser feito - e o que está em jogo

O estudo não traz apenas valores, mas também argumentos para medidas concretas. Três pontos destacam-se:

  • Proteção do sistema hídrico: as áreas protegidas têm de incluir nascentes, afluentes e aquíferos; caso contrário, as veredas secam de forma quase impercetível.
  • Ajuste da política agrícola: programas de apoio que apostam na intensificação da soja sem considerar reservas de água e carbono criam custos climáticos escondidos.
  • Integração em modelos climáticos: as contas nacionais e internacionais de CO₂ devem incluir estes solos, para que o orçamento global de carbono não fique artificialmente “otimista”.

Para a Europa, isto não é um tema distante. Grandes quantidades de soja do Cerrado acabam, no fim, em rações para animais de explorações alemãs e europeias. Ou seja, escolhas de consumo e acordos comerciais influenciam diretamente o futuro destas savanas húmidas.

Conceitos e riscos explicados de forma breve

Quando se fala em «reserva de carbono no solo», trata-se sobretudo de matéria orgânica: raízes mortas, folhas, restos de madeira. Em água estagnada e com pouco oxigénio, essa matéria decompõe-se de forma extremamente lenta, formando uma camada escura, húmica ou semelhante a turfa. Cada centímetro dessa camada contém quantidades mensuráveis de carbono.

A situação torna-se crítica quando o uso do território e o clima mudam:

  • Drenagem permanente transforma o solo numa fonte de CO₂.
  • Incêndios que, em turfas secas, ardem de forma subterrânea libertam quantidades adicionais enormes.
  • Efeitos combinados - seca, agricultura, fogo - aceleram o processo e tornam uma recuperação do estado original praticamente impossível.

É precisamente esta combinação que torna o Cerrado tão sensível. As decisões de hoje sobre uso do solo, subsídios agrícolas ou acordos comerciais acabam por tocar, de forma indireta, neste arquivo subterrâneo de carbono - e influenciam quanto espaço de manobra climático ainda resta ao mundo.

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