Enquanto o antigo eixo Paris–Berlim vai perdendo solidez, outra parceria está, de forma discreta, a ganhar terreno nos corredores do poder europeu.
A Alemanha está a aproximar-se da Itália em matéria de indústria, defesa e dívida, ao passo que a França observa a distância, com crescente desconforto. A mudança é lenta, não espetacular, mas o seu efeito acumulado pode alterar quem define verdadeiramente a agenda dentro da União Europeia.
Do eixo Paris–Berlim para o eixo Berlim–Roma
Durante décadas, o chamado casal franco-alemão foi apresentado como o motor da integração europeia. Tratados foram redigidos, crises foram geridas e compromissos foram alcançados sob essa bandeira. No entanto, essa narrativa está cada vez mais fragilizada.
Berlim e Paris colidem agora abertamente em várias frentes: regras orçamentais, estratégia energética, despesa com defesa e política industrial. Dentro desse vazio político, os dirigentes alemães começaram a cultivar uma relação diferente, muito menos complexa: uma parceria pragmática, orientada pelos interesses, com Roma.
O eixo ítalo-alemão que está a emergir tem menos de romance e de história, e mais de fábricas, rotas comerciais e material militar.
As declarações públicas continuam cordiais. O chanceler alemão Friedrich Merz insiste em que “não há hierarquia” entre parceiros europeus. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni repete que “não estou a tentar roubar o lugar de ninguém”. Ainda assim, a agenda prática conta uma história bem mais nítida.
A indústria em primeiro plano: uma agenda escrita em aço e maquinaria
O sinal mais claro desta nova proximidade está na política industrial. Itália e Alemanha são os dois grandes pesos-pesados da indústria na UE, profundamente interligados na automóvel, na engenharia mecânica e na química. Quando ambos falam a uma só voz, Bruxelas escuta.
No final de janeiro, Merz e Meloni reuniram-se em Roma para alinhar posições sobre a forma de tornar a Europa mais competitiva. As propostas que hoje circulam entre os líderes da UE têm a sua marca: menos dogmáticas no que toca às ajudas de Estado, mais tolerantes em relação a subsídios direcionados e cautelosas perante tarifas excessivamente protetoras que possam prejudicar os campeões das exportações.
Berlim e Roma defendem uma UE que proteja a sua indústria, mas sem a trancar atrás de muros altos que sufocariam as exportações.
Esta abordagem contrasta com uma linha francesa que, em Berlim, é muitas vezes vista como mais intervencionista, sobretudo em setores estratégicos e na defesa comercial. Enquanto Paris pede uma “soberania económica” agressiva, Alemanha e Itália tendem a equilibrar resiliência com mercados abertos, cientes de que a sua prosperidade ainda depende de vender ao mundo.
Porque o eixo Itália–Alemanha serve as necessidades industriais da Alemanha
A Itália não é apenas uma aliada política; é uma peça crucial na cadeia de abastecimento alemã. O cinturão industrial do norte de Itália está ligado às fábricas alemãs através de componentes, subcontratação e logística.
- Os fabricantes de automóveis alemães dependem de fornecedores italianos para peças de elevado valor.
- As empresas italianas de máquinas-ferramenta exportam em grande escala para os polos industriais alemães.
- Os interesses comuns estendem-se das tecnologias verdes ao equipamento de defesa e à infraestrutura ferroviária.
Esta teia económica densa confere à parceria uma resistência que muitas alianças políticas não têm. Quando os dois governos alinham políticas, os grupos de pressão empresariais de ambos os lados aplaudem, reforçando a dinâmica política.
A estabilidade de Meloni contra a turbulência de Macron
Factores pessoais e internos também empurram Berlim para Roma. Giorgia Meloni está no poder há mais de três anos, um período longo pelos padrões italianos recentes, e mantém índices de aprovação relativamente fortes. Os mercados, que antes estavam nervosos com as suas origens na extrema-direita, passaram a vê-la como uma parceira previsível e prudente em matéria orçamental.
O crescimento italiano melhorou ligeiramente e a trajetória fiscal, embora frágil, parece mais disciplinada do que muitos analistas esperavam. Isso tranquiliza uma classe política alemã obcecada com a sustentabilidade da dívida.
Do ponto de vista de Berlim, Meloni oferece continuidade e uma linha clara, enquanto Macron parece preso numa crise interna permanente.
Emmanuel Macron, por contraste, surge enfraquecido. O seu bloco enfrenta bloqueio parlamentar, descontentamento popular e derrapagem orçamental, o que inquieta as capitais do Norte. Para uma Alemanha ansiosa por enfrentar um Donald Trump combativo em Washington e uma Rússia hostil a leste, a França já não parece um copiloto totalmente fiável.
Os responsáveis alemães querem parceiros europeus capazes de avançar depressa na despesa com defesa, na descarbonização industrial e na diversificação energética. Apostar em excesso num Palácio do Eliseu politicamente constrangido parece agora arriscado.
O choque estratégico alemão e a procura de novos pilares
Por detrás deste realinhamento existe um trauma alemão mais profundo. Os três pilares que sustentavam o seu modelo pós-Guerra Fria abalaram-se todos ao mesmo tempo:
| Pilar antigo | O que mudou |
|---|---|
| Guarda-chuva de segurança dos EUA | Proteção menos previsível, sobretudo sob a política da era Trump |
| Gás russo barato | Cortado pela guerra na Ucrânia e pelas sanções |
| Mercado chinês dinâmico | Tensão crescente, restrições comerciais e pressões para reduzir o risco |
Este triplo choque obriga Berlim a reescrever a sua estratégia económica e diplomática. Diversificar fontes de energia, reduzir a dependência da China e reforçar capacidades de defesa exigem parceiros próximos dentro da UE. Nesse contexto, a Itália cumpre muitos requisitos: alinhada com a OTAN, virada para o Mediterrâneo, com capacidade industrial e politicamente mais próxima da liderança de centro-direita alemã do que os reflexos mais intervencionistas franceses.
O “casal” franco-alemão: sobretudo uma história francesa
A mudança também expõe um mito. Em Paris, o “casal franco-alemão” é quase sagrado, evocando De Gaulle e Adenauer, Mitterrand e Kohl, Merkel e Sarkozy. Em Berlim, a expressão tem muito menos carga emocional.
Os decisores alemães tendem a pensar em redes e coligações, e não em “casais” românticos unidos pela história.
Para eles, a França é um parceiro-chave, mas não o único e, muitas vezes, não o mais conveniente. A ascensão do duo ítalo-alemão não assinala apenas uma crise de meia-idade do velho eixo. Reflete um sistema de funcionamento diferente: a Alemanha escolhe parceiros com base em interesses concretos num dado momento, e não apenas num legado simbólico.
Quando a competitividade industrial domina a agenda, Roma torna-se apelativa. Quando entram em discussão a governação da zona euro ou a política nuclear, Paris continua a ter peso. Na prática, Berlim pode alternar entre formatos e construir coligações de geometria variável em toda a UE.
Defesa, dívida e a agenda Meloni–Merz
A defesa e as finanças públicas serão os próximos campos de prova desta parceria. Com a guerra na Ucrânia a prolongar-se e a política norte-americana volátil, a Alemanha está a pressionar para que a despesa europeia com defesa aumente e para que a aquisição de armamento seja mais bem coordenada. A Itália, com uma indústria de defesa relevante e compromisso com a OTAN, está bem posicionada para colaborar em projetos conjuntos, desde defesa antiaérea às forças navais.
Em matéria de dívida e regras orçamentais, o par também converge de forma ampla. Ambos querem preservar a disciplina ao abrigo do Pacto de Estabilidade da UE, permitindo algum espaço para investimento nas transições verde e digital. O alinhamento dos dois pode limitar as ambições francesas de regras mais brandas e flexíveis, adaptadas às necessidades orçamentais de Paris.
Se Berlim e Roma se unirem em torno da dívida e da defesa, podem moldar o livro de regras da UE de forma a deixar Paris com menos margem de manobra.
O que isto significa para a política da UE
Este triângulo em evolução entre Alemanha, Itália e França tem consequências práticas para as próximas batalhas europeias:
- Política industrial: tendência para favorecer setores transformadores e a competitividade das exportações.
- Decisões comerciais: mais prudência antes de escalar guerras tarifárias que prejudiquem exportadores alemães e italianos.
- Regras orçamentais: pressão para manter limites mais exigentes, com exceções pontuais e não com uma revisão total.
- Integração da defesa: prioridade para projetos compatíveis com a OTAN e favoráveis à indústria.
Termos-chave e cenários a acompanhar
Dois conceitos surgirão com destaque nos debates moldados por este eixo:
Autonomia estratégica: frequentemente usada pela França para defender uma capacidade europeia mais independente em matéria de defesa e indústria, parcialmente desligada dos EUA. Alemanha e Itália tendem a reinterpretá-la como “resiliência dentro da OTAN”, concentrando-se em reforçar a contribuição europeia sem quebrar a ligação transatlântica.
Redução do risco: a nova palavra de ordem da UE para diminuir a dependência de países como a China sem cortar totalmente os laços. As indústrias alemã e italiana, profundamente ligadas à procura chinesa, defendem ajustamentos graduais em vez de um desacoplamento abrupto.
Olhando para o futuro, vários cenários são plausíveis. Se Macron recuperar o controlo interno e construir uma relação mais estreita com o próximo governo alemão, o eixo tradicional pode reimpor-se, com a Itália a desempenhar um papel complementar. Se a política francesa continuar fragmentada, Berlim poderá aprofundar a sua dependência de Roma, sobretudo nas questões industrial e migratória.
Uma possibilidade mais fluida é um jogo permanente a três. A Alemanha poderia alternar formatos, trabalhando ora com França e Itália em conjunto, ora com uma contra a outra, consoante o dossiê. Isso tornaria a política da UE menos previsível, mas potencialmente mais adaptável aos choques globais em mudança.
Para empresas, investidores e outros governos, acompanhar o duo Meloni–Merz torna-se uma necessidade prática. A sua posição conjunta sobre tarifas, subsídios ou contratos de defesa pode alterar as perspetivas de setores que vão dos fabricantes de automóveis aos estaleiros navais. Numa Europa em que as antigas certezas estão a desaparecer, o novo casal ítalo-alemão pode, discretamente, marcar o ritmo, enquanto a França luta para não se tornar mera espectadora.
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