Após tempestades, é comum algumas praias ficarem salpicadas de pequenos discos azuis, mais ou menos do tamanho de uma moeda, com uma franja de minúsculos tentáculos. Muitas pessoas confundem-nos com medusas e seguem caminho. Durante muito tempo, também a comunidade científica lhes deu pouca atenção.
O chamado botão azul, Porpita porpita, manteve-se entre os organismos flutuantes menos compreendidos do oceano, em grande parte porque estudá-lo de forma controlada se revelou quase impossível.
Esse cenário começou a mudar com um trabalho recente no Japão. Uma equipa conseguiu manter colónias de botão azul vivas em aquários de laboratório por mais tempo do que alguma vez tinha sido alcançado.
A partir daí, os investigadores chegaram a uma conclusão surpreendente: estas colónias minúsculas, que flutuam à superfície, podem manter-se vivas durante anos.
Com esta evidência, o botão azul deixa de ser uma curiosidade de vida curta e passa a figurar entre os habitantes mais longevos conhecidos do ecossistema da superfície marinha.
Colónias flutuantes de botões azuis
À primeira vista, o botão azul parece um único animal - mas não é.
Cada “disco” é, na realidade, uma colónia composta por muitos indivíduos especializados, os zooides. Em conjunto, estes zooides funcionam quase como se fossem órgãos de um único corpo.
Há zooides dedicados à captura de alimento, outros à reprodução e outros ainda à defesa, recorrendo a células urticantes.
Todos assentam sobre um disco circular flutuante feito de quitina, o mesmo material resistente presente no exoesqueleto dos insectos.
Este disco actua como uma jangada, mantendo a colónia suspensa no limite entre o oceano e a atmosfera.
Ao contrário do seu parente próximo Velella velella, que utiliza uma “vela” para se deslocar com o vento, Porpita porpita deriva sem esse tipo de estrutura.
Sobrevivência à superfície do oceano
Visto de longe, o mar pode parecer tranquilo, mas a superfície oceânica é um dos ambientes mais exigentes do planeta.
Os organismos que vivem nessa camada - conhecidos, em conjunto, como neuston - estão expostos a radiação ultravioleta constante, ondulação e impacto das ondas, variações de temperatura e correntes em permanente mudança.
Apesar disso, continua a haver uma falta notável de dados sobre a longevidade de muitos destes “derivantes”. Os patinadores-do-mar sobrevivem apenas alguns meses. As cracas à deriva podem durar cerca de 120 dias.
Até mesmo as estimativas de vida para a caravela-portuguesa continuam pouco claras.
Manter botões azuis vivos em laboratório
A equipa japonesa recolheu dez colónias de botão azul na costa de Kanagawa, em Setembro de 2025. Cada colónia foi colocada em água do mar filtrada, dentro de recipientes mantidos sob condições rigorosamente controladas.
Os animais tiveram arejamento suave, luz solar natural e alimentação diária com artémias recém-eclodidas.
“Conseguimos manter 10 colónias de botão azul vivas até 21 dias”, assinalou o professor Kohei Oguchi, da Universidade de Tóquio.
Ao longo desse período, os investigadores fotografaram repetidamente os discos flutuantes e quantificaram o crescimento com uma precisão invulgar.
As colónias mais pequenas crescem muito mais depressa
Durante a experiência, as colónias de menor tamanho evidenciaram um crescimento claro. Em alguns casos, aumentaram até 60 micrómetros por dia, o que corresponde a cerca de 0,051 milímetros diários.
Já as colónias maiores comportaram-se de forma quase oposta: os maiores exemplares praticamente não apresentaram crescimento mensurável.
O padrão observado encaixa numa regra biológica bem conhecida: os organismos jovens tendem a crescer rapidamente, enquanto os mais velhos abrandam à medida que se aproximam de um tamanho máximo.
Para interpretar os resultados, os investigadores aplicaram um enquadramento matemático denominado modelo de crescimento de von Bertalanffy.
Botões azuis vivem durante anos
Depois de determinarem as taxas de crescimento, a equipa recuou no tempo para estimar a idade das colónias.
As conclusões contrariaram ideias anteriores.
Colónias pequenas, com cerca de quatro milímetros de diâmetro, pareciam ter aproximadamente três meses.
Colónias médias, com 12 milímetros, provavelmente aproximavam-se de um ano de idade. As que atingiam 17 milímetros poderão ter andado à deriva durante dois anos.
Os exemplares maiores foram os mais inesperados: alguns mediam cerca de 23 milímetros e podem sobreviver por aproximadamente cinco anos.
“Com base nas nossas observações destas colónias, podemos agora estimar que os botões azuis podem, de facto, viver durante vários anos a derivar à superfície do oceano. Isto é muito mais do que se pensava anteriormente, que era menos de um ano”, afirmou Oguchi.
A longevidade face a outros organismos à deriva
Quando comparado com outros animais da superfície, o botão azul destaca-se como uma excepção.
Os patinadores-do-mar raramente passam de alguns meses. As cracas à deriva duram apenas parte de um ano. Mesmo as medusas, na fase de medusa, muitas vezes vivem menos de doze meses.
Os botões azuis, pelo que indicam estes dados, conseguem aguentar muito mais tempo. Uma possível explicação está na própria estrutura do flutuador.
O disco de quitina confere estabilidade e resistência num ambiente em que muitos organismos têm dificuldade em manter-se.
Os flutuadores crescem como anéis de árvore
Os investigadores verificaram que o flutuador aumenta de tamanho de uma forma inesperada.
Em vez de crescer de modo uniforme por toda a superfície, o disco expande-se a partir da borda. Cortes histológicos revelaram camadas novas a formarem-se sucessivamente ao longo da margem externa.
“O flutuador quitinoso que suporta a colónia parece exactamente uma secção transversal de uma árvore, com anéis concêntricos. Descobrimos que novas camadas crescem a partir da periferia do anel exterior”, explicou Oguchi.
“Isto significa que não cresce pela expansão de camadas pré-existentes, algo de que antes não tínhamos certeza.”
A semelhança com anéis de árvore mantém-se, com uma diferença: cada anel inclui câmaras de ar que ajudam a sustentar a flutuabilidade.
Colónias desenvolvem-se camada a camada
O flutuador não serve apenas para manter a colónia à tona; também condiciona a forma como a colónia se constrói.
Tipos diferentes de zooides surgem em regiões específicas do disco. À medida que se formam novos anéis exteriores, aparecem novas áreas onde podem desenvolver-se zooides adicionais.
Assim, ao longo do tempo, a colónia literalmente expande-se para fora, em camadas.
“A minha investigação centra-se em como se desenvolvem os diferentes indivíduos especializados que compõem uma colónia de botão azul, e como são integrados para que a colónia se comporte quase como um único organismo”, disse Oguchi.
A deriva pelo Oceano Pacífico
Nas águas japonesas, acredita-se que os botões azuis cheguem a partir de regiões mais quentes a sul, transportados pela Corrente de Kuroshio.
As novas estimativas de longevidade sugerem que algumas colónias que dão à costa poderão ter passado anos a derivar pelo Oceano Pacífico antes de chegarem a terra.
Esta hipótese altera a forma como os cientistas encaram os ecossistemas de superfície: estes organismos não são apenas “passageiros” descartáveis levados por correntes durante pouco tempo. Alguns podem persistir durante anos e percorrer distâncias enormes.
Porque a vida à superfície do oceano importa
A superfície do oceano cobre a maior parte do planeta e, ainda assim, o conhecimento científico sobre os seres que aí vivem continua limitado.
Os animais neustónicos ocupam um papel relevante nas teias alimentares marinhas: alimentam-se de organismos mais pequenos, servem de presa a predadores maiores e contribuem para transportar nutrientes ao longo de vastas áreas oceânicas.
No caso do botão azul, os resultados revelam um organismo muito mais resistente e complexo do que se imaginava anteriormente.
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