Durante anos, dois exemplos de aves europeias serviram de pilar à explicação científica mais popular para as alterações no canto em meio urbano. Num dos casos, foi repetidamente registado que a ave cantava com tons mais agudos em Amesterdão do que em florestas próximas.
No outro, observou-se o mesmo fenómeno ao longo de subúrbios e parques urbanos.
Em conjunto, estes dois casos ajudaram a consolidar uma ideia simples e convincente: quando as cidades ficam ruidosas, as aves aprendem a cantar “por cima” desse ruído.
Um novo estudo decidiu testar essa hipótese à escala de todo um continente. Os investigadores reuniram gravações de 65 espécies e procuraram o padrão de subida de tom.
A maioria não o apresentou - mas o que surgiu no lugar desse padrão pode ser ainda mais relevante.
Canções por toda a Europa
Uma equipa do HUN-REN Centre for Ecological Research, na Hungria, avaliou a hipótese do “canto urbano” numa análise continental.
O trabalho foi liderado por Mónika Jablonszky, bióloga evolucionista, em colaboração com László Zsolt Garamszegi.
O plano era simultaneamente directo e ambicioso: compilar gravações de campo de 65 espécies europeias de passeriformes - em termos simples, aves canoras - e comparar se as populações em zonas construídas cantavam de forma diferente das que vivem em campos e florestas.
O canto é um instrumento central para estas aves: serve para defender território, atrair parceiros e avisar vizinhos. Quando o ruído urbano abafa esses sinais, as aves têm de encontrar alternativas ou suportar custos reais.
Trabalhos anteriores já tinham sugerido que algumas aves em ambiente citadino elevam a frequência do canto para contornar o som do tráfego.
A explorar um arquivo de som
As gravações foram obtidas a partir do xeno-canto, uma biblioteca aberta onde observadores e investigadores carregam áudio de campo de todo o mundo.
A equipa seleccionou excertos associados a pontos específicos no mapa e, para cada local, cruzou a informação com dados de satélite sobre a percentagem de cobertura urbana nas imediações.
Em cada clip, foi identificada a frequência dominante - o tom onde se concentra a maior parte da energia sonora de uma canção.
Os investigadores acompanharam a frequência média usada por cada espécie em cada local e também a amplitude de variação dessa frequência ao longo das notas.
A análise recorreu a um método estatístico concebido para considerar a ancestralidade partilhada - evitando que semelhanças de canto entre espécies próximas sejam tratadas como evidência independente.
Foram igualmente incluídos factores como o comportamento social, os padrões de migração e a complexidade vocal.
Um leque de notas mais amplo
O resultado mais nítido não foi o esperado. Considerando as 65 espécies, as aves em áreas mais urbanizadas exibiam uma gama mais ampla de frequências dominantes do que as mesmas espécies em habitats mais silenciosos.
A frequência central manteve-se semelhante; o que aumentou foi a dispersão.
As cidades não são apenas mais barulhentas - são-no também numa mistura mais desorganizada de frequências. Uma dispersão maior pode permitir que as aves encontrem “janelas” de frequência menos ocupadas pelo tráfego, embora as gravações, por si só, não permitam confirmar que este seja o mecanismo.
Os autores evitam apresentar isto como uma adaptação demonstrada.
A biblioteca de gravações não inclui medições directas do ruído em cada clip, e a maior variação pode reflectir, em parte, estratégias de canto que nada têm a ver com automóveis.
Ainda assim, a consistência do padrão entre espécies é difícil de ignorar.
Aves que alteraram o tom
Ao olhar espécie a espécie, o quadro tornou-se mais interessante. Apenas algumas mostraram claramente que elevavam ou baixavam a frequência central do canto à medida que aumentava a cobertura urbana. Três nomes bem conhecidos destacaram-se.
Foram o pisco-de-peito-ruivo, o serim (um pequeno fringilídeo amarelo-esverdeado) e a gralha-cinzenta, um corvídeo preto e cinzento comum em grande parte da Europa central e oriental.
Cada uma ajustou o canto na sua própria direcção. Não houve um padrão único e “arrumado” entre as três.
O que estes dados indicam é que, em algumas aves citadinas, existe de facto uma alteração real de frequência - sinal de que a explicação clássica de evitar o ruído não está errada, apenas não descreve o fenómeno completo.
Outros estudos sobre o pisco-de-peito-ruivo na Escócia chegaram a conclusões semelhantes.
Aves familiares que não mudaram
A maior surpresa veio do que não apareceu. Duas espécies que tinham moldado a narrativa do canto urbano - o chapim-real e o melro-preto - não evidenciaram alterações associadas à urbanização na frequência dominante.
Ambas tinham sido apresentadas em artigos muito citados como exemplos clássicos de subida de tom nas cidades.
A equipa de Jablonszky não está a contestar esses resultados anteriores. No entanto, quando se observa o conjunto da Europa, um padrão local detectado numa cidade pode não se verificar para a espécie como um todo.
Um chapim-real de um determinado bairro pode cantar mais agudo do que os seus vizinhos rurais. Mas, ao fazer a média a nível continental, essa diferença desaparece.
Assim, as mudanças no canto urbano parecem depender de cidades, habitats ou populações específicas - e não de uma característica intrínseca à espécie.
Não há uma regra única
O grupo testou ainda se algum traço evidente permitiria prever quais as espécies que ajustam o canto e quais as que não o fazem.
Foram avaliados a sociabilidade, os hábitos migratórios, a complexidade do canto e a frequência com que cada espécie ocorre em ambientes urbanos. Nenhum destes factores se revelou determinante.
Espécies muito sociais não mostraram maior flexibilidade do que espécies solitárias. Migradoras não se distinguiram de residentes. E aves com repertórios complexos não ajustaram mais do que as que têm cantos mais simples.
Há muito que se suspeitava que características como complexidade social ou flexibilidade vocal ajudariam as espécies a adaptar-se à vida citadina.
Os dados à escala continental não sustentam essa expectativa. O que conduz às mudanças de canto nas cidades parece ser algo mais subtil do que estes preditores “à superfície”.
Repensar as aves das cidades
Não existe uma receita única para a forma como o canto responde ao meio urbano. Entre espécies, as gamas de frequência alargam. Dentro de cada espécie, apenas algumas sobem ou descem a frequência central.
Para o planeamento urbano, esta nuance tem implicações práticas. Criar bolsões mais verdes na cidade não pode partir do pressuposto de que todas as aves canoras se vão ajustar.
Algumas ajustar-se-ão, outras não - e mesmo as que ajustam podem não resolver totalmente o problema do ruído.
Até este estudo, acreditava-se que os “ajustadores” mais famosos faziam esse trabalho em todo o lado.
Agora, essas aves ficam como uma questão em aberto. A investigação futura tenderá a perguntar menos se as aves se adaptam e mais que cidades - e que condições - as levam a fazê-lo.
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