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Carros que mudaram de nome à última hora: Alfa Romeo, FIAT, Volvo, Porsche e Ford

Carro desportivo vermelho brilhante estacionado em exposição numa sala moderna com janelas grandes.

Dar um nome a um automóvel pode parecer tarefa fácil, mas raramente o é. Por vezes, um simples deslize na escolha de uma palavra chega para transformar uma aposta de milhões de euros num problema internacional, com embaraços e complicações inesperadas.

Entre diferenças de idioma, sensibilidades culturais e disputas em tribunais, há modelos que entram no mercado já com o destino traçado: trocar de nome. Aquilo que soa perfeito num país pode ser ofensivo noutro - e o que, numa sala de reuniões, parecia uma ideia genial pode acabar como um caso de relações públicas à escala global.

O mais surpreendente é que isto continua a acontecer, mesmo numa indústria onde existem equipas inteiras dedicadas a evitar precisamente estes desastres. E quando a polémica «explode» já depois da apresentação, recuar sai caríssimo - não só na carteira, mas também na reputação.

Hoje, revisitamos alguns dos episódios mais peculiares do sector automóvel: carros que mudaram de nome em cima da hora e os motivos que obrigaram as marcas a dar o dito por não dito.

Milano é palavra amaldiçoada na Alfa Romeo

Este é um dos exemplos mais recentes - e também dos mais caricatos. Antes de se chamar Junior, o B-SUV da Alfa Romeo foi revelado em 2024 com o nome Milano, numa homenagem à cidade onde a marca nasceu, Milão. A escolha parecia óbvia e carregada de simbolismo, mas durou pouquíssimo tempo, após uma intervenção improvável do governo italiano.

Adolfo Urso, ministro italiano da indústria, afirmou que o nome era ilegal: “um carro chamado Milano não pode ser produzido na Polónia. Isto é proibido pela lei italiana”. Na altura, a declaração foi mais uma “acha para a fogueira” numa relação já tensa entre a Stellantis e o governo de Itália. Poucos dias depois, a Alfa Romeo confirmava a mudança para Junior - e Milano, mais uma vez, sumia dos registos oficiais da marca.

Mais uma vez? Exactamente. O lado mais irónico desta história é que esta não foi a primeira ocasião em que o construtor teve de desistir do nome Milano. No início da década passada, a Alfa Romeo já tinha tentado aplicar a mesma designação ao Giulietta (2010-2020).

Nessa altura, tudo estava encaminhado para lançar o novo familiar compacto com o nome Milano. Mas o contexto era de instabilidade - estávamos no auge da crise financeira global - e vários fabricantes foram forçados a tomar medidas duras. Para cortar custos, o então Grupo FIAT decidiu transferir a Alfa Romeo, de «armas e bagagens», para Turim, deixando para trás a sua cidade de origem, Milão, e encerrando a histórica fábrica de Arese.

Os trabalhadores insurgiram-se com a ideia de ver Milano - o nome da sua cidade - estampado num carro que simbolizava precisamente a saída. Perante a pressão, a marca recuou e recuperou, à última hora, o nome histórico Giulietta.

Renault não gostou do FIAT Gingo

No arranque deste século, em 2003, a FIAT preparava-se para substituir o Panda original e o Seicento por um citadino mais actual e funcional chamado Gingo. O modelo foi apresentado em Genebra, já existiam catálogos e outros materiais promocionais impressos e as primeiras unidades começavam a sair da linha de montagem - até ao momento em que a Renault «bateu à porta».

A proximidade sonora com Twingo era demasiado evidente para passar despercebida, e a marca francesa ameaçou a italiana com um processo judicial caso não desistisse do nome.

Mesmo estando a pouco mais de um mês do lançamento, a FIAT acabou por dar o braço a torcer. O nome Gingo foi posto de lado e, como solução imediata, a marca fez regressar a designação Panda - que continua em uso até hoje.

Volvo pisa calos da Audi e quase envolvia a Ferrari

Em 1995, a Volvo preparava-se para suceder aos 440/460 com dois novos modelos: a berlina S4 e a carrinha F4. O “S” remetia para berlina e o “F” para flexibilidade - uma lógica interna simples e, à primeira vista, bem amarrada.

O problema era que “S4” já identificava a variante desportiva do Audi A4, e a marca alemã não tinha intenção de partilhar a sigla. Para resolver a questão de forma rápida, a Volvo limitou-se a acrescentar um zero: assim nasceu o S40.

Já a carrinha, se seguisse a mesma regra, passaria a chamar-se F40 - e, como é fácil imaginar, isso criava outro conflito: é precisamente o nome de um dos Ferrari mais conhecidos e icónicos de sempre. Para evitar complicações com os italianos, os suecos trocaram o “F” pelo “V” de versatilidade. Deste ajuste nasceu a V40, um nome que durou décadas e acabou por dar origem a uma família de carrinhas com grande carisma.

Mãozinha da Peugeot dá à Porsche o seu maior ícone

Era uma vez um Porsche 911… Provavelmente, este é o rebatismo de última hora mais famoso de todos. O desportivo mais emblemático do mundo foi lançado inicialmente como Porsche 901. Chegaram mesmo a ser fabricadas 82 unidades com essa designação antes de a mudança avançar.

A origem da alteração veio de França. A Peugeot apresentou um protesto formal contra o nome 901, alegando ter direitos de exclusividade a nível mundial sobre designações de automóveis compostas por três algarismos com um zero ao centro (203, 504, 905, etc.).

A pequena Porsche não quis criar fricção com a maior Peugeot e optou por uma solução simples: trocou o “0” por um “1” e… o resto é história.

Ford impedida de usar nome que já foi seu

Quando a Ford decidiu trazer de volta o lendário GT40 para este século - o automóvel que derrotou a Ferrari em Le Mans nos anos 60 - e o apresentou no Salão de Detroit de 2005, o nome parecia inevitável: GT40.

Só que havia um entrave: a Ford já não detinha os direitos dessa designação. Tinham sido vendidos há décadas à empresa Safir GT40 Spares, especializada em componentes de substituição. Ao tentar recomprá-los, a Ford deparou-se com um pedido de vários milhões de dólares - um valor que a marca considerou simplesmente absurdo.

A saída foi simplificar. O “40” caiu e o modelo passou a chamar-se apenas Ford GT: uma designação mais curta e limpa, mas também menos exclusiva. GT já identificou - e continua a identificar - automóveis de várias marcas, como a Opel, Alfa Romeo ou a Mercedes-AMG. Felizmente, além do desenho inconfundível, o superdesportivo da Ford era uma máquina excepcional, o que ajudou a torná-lo inesquecível e altamente desejado.

Porsche ameaça Aston Martin para proteger 911 GT3

Aqui não há propriamente heróis ou vilões - apenas uma ironia curiosa. A mesma Porsche que, décadas antes, foi obrigada a abandonar o nome do seu 911 por pressão da Peugeot também ameaçou a Aston Martin com um processo judicial caso a britânica não alterasse o nome da sua nova estrela: o Vantage GT3 (2015).

O motivo é fácil de perceber: a marca alemã detinha os direitos comerciais da sigla “GT3” para automóveis de estrada, protegendo o nome e o legado do 911 GT3, que continua a ser uma das versões mais cobiçadas do desportivo alemão.

Convém lembrar que GT3 é também a designação de uma das categorias dos campeonatos de resistência, sendo o Vantage GT3 de estrada o equivalente ao Vantage GT3 de competição. A Aston Martin aceitou e mudou o nome para GT12, numa referência ao motor V12 que o equipava.


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