À medida que Kiev se aproxima de conversações que podem definir o fim da guerra, o presidente Volodymyr Zelenskyy estabeleceu uma condição clara: não haverá acordo de paz sem uma garantia de segurança de longo prazo, juridicamente vinculativa, por parte dos Estados Unidos.
Na Conferência de Segurança de Munique, Zelenskyy afirmou que a Ucrânia só assinará um acordo de paz com a Rússia se Washington assumir um compromisso de segurança com uma duração mínima de duas décadas.
Kiev quer, no mínimo, um pacto de segurança dos EUA com 20 anos e blindagem jurídica suficiente para poder “assinar um acordo de paz com dignidade”.
Segundo Zelenskyy, os negociadores norte-americanos colocaram até agora em cima da mesa uma garantia de 15 anos. Para a Ucrânia, isso não chega. O governo em Kiev pretende um horizonte mais alargado e compromissos muito específicos redigidos no próprio texto.
O entendimento não se limitaria ao fornecimento de armamento. Também definiria de que forma os EUA apoiariam uma força europeia de dissuasão prevista para estacionar em território ucraniano, caso venha a ser alcançado um acordo de paz.
A garantia de segurança dos EUA para a Ucrânia e a recusa a ceder território
Zelenskyy revelou que responsáveis norte-americanos tinham lançado a hipótese de que, se a Ucrânia se retirasse da região do Donbas, a paz poderia chegar “o mais rapidamente possível”. Essa sugestão, disse, é inaceitável.
O presidente sublinhou que milhões de ucranianos vivem no Donbas e que abandonar esse território seria uma traição aos cidadãos e aos princípios pelos quais a Ucrânia está a combater.
Para Kiev, concessões territoriais no Donbas estão fora de questão, independentemente da pressão diplomática ou dos prazos definidos em Washington.
Tensões entre os EUA, a Europa e as expectativas de Kiev
Nos bastidores, as tensões estão a aumentar não apenas entre a Ucrânia e a Rússia, mas também entre Kiev e os seus apoiantes ocidentais. Os governos europeus mostram-se cada vez mais frustrados com o que consideram ser a ambiguidade dos EUA relativamente aos compromissos de segurança de longo prazo para a Ucrânia.
Muitos responsáveis europeus defendem que as garantias têm de ser claras e públicas antes de qualquer acordo de paz ser assinado. Receiam que uma promessa americana pouco definida possa desmoronar-se com a primeira mudança de administração em Washington.
Zelenskyy repetiu essa preocupação, dizendo que os diferentes lados nas negociações parecem muitas vezes estar a “falar de coisas completamente diferentes”. Na sua perspetiva, em Washington fala-se demasiadas vezes das concessões ucranianas e pouco da responsabilidade russa.
Proposta dos EUA à Europa chega com condições duras
Em Munique, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, tentou tranquilizar os aliados, afirmando que “a Europa e os EUA pertencem juntos” e propondo uma parceria mais estreita em matéria de segurança global.
Mas a sua proposta veio acompanhada de condições exigentes. Washington, disse, espera alinhamento europeu em temas como clima, migração e tarifas. Se essas exigências não forem cumpridas, os EUA estão preparados para avançar sozinhos.
De forma notória, Rubio dedicou pouca atenção, no discurso, à invasão russa da Ucrânia, para além de afirmar que Washington tinha pressionado a Índia a reduzir as importações de petróleo russo. Essa omissão não passou despercebida entre diplomatas focados no campo de batalha e na mesa das negociações ucranianas.
Adesão à UE, eleições e o relógio da democracia ucraniana
Zelenskyy aproveitou também a passagem por Munique para exigir clareza sobre a candidatura da Ucrânia à União Europeia. Alguns responsáveis da UE falaram em 2027 como possível data, mas Kiev quer um compromisso firme e não estimativas vagas.
Ao mesmo tempo, a Ucrânia enfrenta pressão dos EUA para realizar eleições nacionais até 15 de maio. Zelenskyy reagiu, afirmando que a votação só pode acontecer pelo menos dois meses depois de um cessar-fogo, para que as assembleias de voto e os eleitores não estejam sob ameaça de mísseis e drones.
Kiev sustenta que eleições livres sob bombardeamento ativo seriam uma fachada de democracia, e não uma democracia real.
A pressão de Trump por um acordo rápido
Donald Trump acrescentou a sua própria pressão, dizendo publicamente a Zelenskyy para “avançar” com um entendimento com a Rússia. Segundo responsáveis ucranianos, Trump quer um acordo em poucos meses, mas não esclareceu o que acontecerá se Kiev recusar aceitar o seu calendário ou as suas condições.
Essa incerteza paira de forma pesada sobre as conversações de Genebra previstas para a próxima semana, onde negociadores ucranianos, russos e norte-americanos deverão reunir-se num formato trilateral.
Conversações de Genebra: ataques à energia, táticas russas e o papel do Irão
Zelenskyy afirmou que as conversações em Genebra incluirão os ataques implacáveis da Rússia à infraestrutura energética ucraniana. Disse que nem uma única grande central energética na Ucrânia escapou a danos, sublinhando o impacto profundo da guerra na vida quotidiana, do aquecimento à indústria.
Notou também que Moscovo mudou o chefe da sua equipa de negociação, uma decisão que encara com suspeita. Em vez de sinalizar uma nova estratégia, Zelenskyy teme que a remodelação sirva para ganhar tempo enquanto a Rússia continua a atacar.
Os líderes europeus presentes na conferência de Munique mostraram-se pessimistas quanto a uma rutura próxima. Um deles previu pelo menos mais dois anos de guerra e afirmou que a Europa ainda dispõe de recursos para apoiar a Ucrânia durante esse período.
O próprio Zelenskyy fixou uma referência sombria para o campo de batalha, dizendo que o seu objetivo militar é elevar para 50 000 o número de baixas russas mortas ou gravemente feridas por mês, na convicção de que perdas sustentadas poderiam obrigar Moscovo a repensar a sua estratégia.
Drones iranianos e protestos nas ruas de Munique
O presidente ucraniano lançou também um forte ataque verbal ao Irão pelo fornecimento de drones Shahed à Rússia. Esses drones têm sido usados de forma extensa contra cidades e infraestruturas ucranianas.
“Regimes como o do Irão não devem ser deixados ganhar tempo. Quando têm tempo, limitam-se a matar mais”, argumentou Zelenskyy.
As suas palavras surgiram no momento em que até 200 000 manifestantes se juntaram em Munique a pedir a queda do regime iraniano. Zelenskyy disse que a Ucrânia não tinha qualquer conflito anterior com Teerão, mas que a venda de drones que “estão a matar o nosso povo” transformou o Irão num interveniente direto na guerra.
O que uma garantia de segurança de 20 anos poderia incluir
Por trás da linguagem diplomática, a exigência ucraniana de uma garantia americana de 20 anos levanta questões concretas sobre o que esse acordo incluiria na prática.
- Fornecimento de armas a longo prazo e programas conjuntos de treino
- Partilha de informações e apoio à defesa cibernética
- Apoio dos EUA a uma força de segurança europeia em solo ucraniano
- Apoio económico ligado à reconstrução e à resiliência energética
- Passos claros, ao longo do tempo, rumo à integração na UE e, eventualmente, na NATO
Zelenskyy mencionou ainda um plano de “prosperidade” segundo o qual os EUA teriam acesso aos recursos minerais ucranianos em troca de investimento e apoio a longo prazo. Disse que ainda não foram trocados termos detalhados, mas que a proposta mostra que os interesses económicos estão entrelaçados com as conversações de segurança.
Porque é que as garantias valem mais para a Ucrânia do que promessas no papel
Para Kiev, a insistência num acordo juridicamente vinculativo e com várias décadas resulta de uma experiência amarga. O Memorando de Budapeste, de 1994, deu à Ucrânia garantias de segurança por parte de grandes potências depois de o país ter abdicado das suas armas nucleares. Essas garantias não impediram a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 nem a invasão em grande escala em 2022.
Uma garantia de 20 anos, apoiada pela legislação dos EUA, procuraria evitar mais um documento fraco e facilmente ignorado. Os responsáveis ucranianos querem uma redação específica sobre a rapidez com que as armas chegariam, que tipo de cobertura de defesa aérea poderia ser fornecida e quão depressa tropas ocidentais ou conselheiros poderiam ser destacados numa crise.
| Questão | Preocupação da Ucrânia | Resultado pretendido |
|---|---|---|
| Duração da garantia de segurança | Medo de que promessas de curto prazo colapsem com a política norte-americana | Tratado mínimo de 20 anos com apoio bipartidário |
| Concessões territoriais | Pressão para abdicar do Donbas em troca de paz rápida | Sem perda formal de território ucraniano |
| Infraestrutura energética | Ataques russos contínuos a centrais elétricas | Sistemas de defesa e fundos para reconstrução rápida |
| Papel internacional | Europa “praticamente ausente” em conversações-chave | Presença reforçada da UE nas negociações e na segurança do pós-guerra |
Cenários se Washington disser sim - ou se afastar
Se os EUA aceitarem uma garantia de 20 anos, a Ucrânia poderá assinar um acordo de paz com apoio mais sólido e um caminho mais claro para a adesão à UE e a integração nas estruturas de defesa ocidentais. Isso poderá estabilizar a Europa de Leste a longo prazo, mas também comprometeria Washington com mais um grande papel em matéria de segurança, além das suas obrigações na Ásia e no Médio Oriente.
Se Washington recusar ou oferecer apenas um pacote mais fraco e de prazo mais curto, Kiev pode recusar assinar qualquer acordo, e a guerra poderá arrastar-se durante anos. Os Estados europeus ainda poderiam tentar montar a sua própria estrutura de garantias, mas sem o peso dos EUA, esse esquema pareceria muito mais frágil aos olhos de Moscovo.
Para os ucranianos comuns, o debate não é abstrato. A duração e a robustez de qualquer garantia influenciam se irão reconstruir casas, reabrir fábricas e enviar crianças de volta para escolas perto da linha da frente, ou se irão mudar-se permanentemente para oeste. Para os investidores que olham para a futura reconstrução da Ucrânia, um compromisso formal e duradouro dos EUA pode ser a diferença entre um interesse cauteloso e uma vaga de capital.
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