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Deixar o bebé chorar ou acalmá-lo? Novo estudo reacende debate sobre sono.

Bebé a chorar no berço e homem preocupado a olhar para o telemóvel numa divisão com luz natural.

Desde há décadas que decorre uma discussão carregada de emoção: devem os pais deixar o filho chorar durante a noite, de vez em quando, para que aprenda a adormecer sozinho? Ou têm de correr para a cama ao mínimo som, para não pôr em risco a ligação afetiva? Uma análise recente de investigadores britânicos vem agora deitar mais lenha para a fogueira e volta a colocar a questão de quão prejudicial é, afinal, “deixar chorar”.

O que a nova investigação sobre deixar chorar os bebés sustenta

Os psicólogos Ayten Bilgin e Dieter Wolke, da Universidade de Warwick, acompanharam 178 bebés desde o nascimento até aos 18 meses de idade. O objetivo era perceber se o método de “deixar chorar” - isto é, ignorar de propósito o choro para que a criança adormeça sozinha - interfere com o desenvolvimento emocional.

Os dois investigadores analisaram, entre outros aspetos:

  • o grau de segurança da ligação das crianças à pessoa que cuida delas,
  • a existência de sinais de comportamento problemático,
  • a presença de dificuldades emocionais, como ansiedade intensa.

O resultado, publicado em 2020 no Journal of Child Psychology and Psychiatry, soa quase como um golpe nas recomendações mais tradicionais: não encontraram qualquer indício de que os bebés que foram por vezes deixados a chorar viessem mais tarde a mostrar uma ligação menos segura ou mais problemas de comportamento.

“Os autores concluem que, segundo os seus dados, deixar chorar durante pouco tempo não provoca um dano mensurável na ligação afetiva.”

O estudo insere-se num conjunto de trabalhos mais recentes com conclusões semelhantes: nenhum desses dados conseguiu demonstrar uma relação clara entre este método e problemas de ligação mais tarde. Para muitos pais exaustos, isso parece, à primeira vista, um alívio.

Críticas fortes: esta base de dados chega mesmo?

É precisamente esse alívio que outras investigadoras veem com grande cepticismo. As psicólogas do desenvolvimento Elisabeth Davis e Karen Kramer atacaram duramente o estudo num comentário. A sua objeção principal é que a base de dados é demasiado fraca para sustentar afirmações tão abrangentes.

Poucas crianças, demasiadas incertezas

Davis e Kramer apontam vários pontos frágeis:

  • Amostra demasiado pequena: 178 bebés são poucos para detetar com segurança até efeitos negativos de intensidade moderada. Para conclusões robustas, seriam necessárias amostras muito maiores.
  • Definição pouco clara: o que contava exatamente como “deixar chorar” ficou demasiado vago. Os pais apenas indicaram por si próprios se utilizavam esse método.
  • Grandes diferenças na prática: algumas mães e alguns pais talvez deixassem o filho chorar durante três minutos, outros durante 30 minutos. Na estatística, todos acabaram no mesmo saco.

O argumento, portanto, é que estão a ser misturados procedimentos muito diferentes. Sejam pausas curtas para dar tempo à criança de se acalmar sozinha, seja choro prolongado e insistente - tudo aparece na análise como se fosse uma única e mesma “método”.

As críticas alertam: quando se usam definições tão amplas, é fácil não ver ou até minimizar possíveis danos.

Contradição com a investigação clássica sobre a ligação afetiva

A isto junta-se um choque com estudos anteriores, muito citados. Já nos anos 70, trabalhos de Silvia Bell e Mary Ainsworth mostraram que as mães que respondiam ao choro de forma rápida e consistente tinham, em média, filhos que choravam menos aos 12 meses e revelavam uma ligação mais estável.

Para quem defende a teoria da vinculação, este é um resultado central: responder de forma previsível aos sinais da criança fortalece a confiança e reduz o stress a longo prazo. O facto de Bilgin e Wolke chegarem a conclusões tão diferentes gera desconforto nesta área. Os autores britânicos defendem o seu método, embora admitam eles próprios que são precisos estudos muito maiores e mais padronizados antes de se tirarem juízos definitivos.

Entre culpa e privação de sono: os pais num dilema

Enquanto os especialistas se debruçam sobre detalhes metodológicos, os pais enfrentam, durante a noite, problemas bem diferentes: amamentação sem fim, embalar sem descanso, crises de choro de hora a hora. Muitos chegam aos seus limites físicos e psicológicos.

Sobre eles chovem mensagens contraditórias:

  • Guias orientados para a vinculação insistem: cada choro merece uma resposta rápida e de proximidade física.
  • Abordagens comportamentais inspiradas no método de Ferber recomendam: as crianças aprendem a voltar a adormecer sozinhas se não forem consoladas a cada despertar.

Forma-se, assim, uma mistura tóxica: se se deixa o bebé chorar, sente-se crueldade; se se o vai buscar a cada hora, logo aparece o rótulo de “pai ou mãe helicóptero”, incapaz de confiar na autorregulação da criança.

Muitos pais vivem numa armadilha dupla: façam o que fizerem, há sempre alguém a dizer que está errado - e a internet ainda comenta por cima.

Em fóruns e redes sociais, as ideologias chocam frontalmente. De um lado, grupos que classificam qualquer deixar chorar como abuso emocional. Do outro, vozes que acusam de “estragar” a criança os pais que respondem repetidamente durante a noite. Para mães e pais inseguros, que só querem umas horas de sono, este confronto torna-se difícil de suportar.

O que a investigação pode realmente dizer - e o que não pode

O curioso é que a própria Ayten Bilgin, coautora do estudo muito debatido, trava publicamente nas conclusões. Num texto para uma revista popular de psicologia, sublinha que, no conjunto, a evidência ainda é demasiado fraca para impor regras claras.

Muitas perguntas continuam em aberto

Por exemplo, continua sem resposta:

  • existe diferença entre pequenas “pausas” acompanhadas e um choro prolongado sem resposta?
  • ignorar o choro durante a noite tem o mesmo efeito do que fazê-lo durante o dia, quando o bebé está desperto e ativo?
  • o temperamento da criança faz diferença - isto é, se ela é naturalmente mais sensível ou, pelo contrário, mais resistente?
  • de que modo influenciam as diferenças culturais, por exemplo em famílias onde as crianças dormem naturalmente na cama dos pais?

Bilgin defende que os conceitos devem ser definidos com muito mais precisão e que estudos futuros devem estabelecer de forma inequívoca quanto tempo e com que frequência os bebés choram, como os pais reagem e em que idade o método é aplicado. Só assim será possível retirar conclusões sólidas sobre eventuais riscos ou benefícios.

O que os pais podem retirar da polémica sobre o sono do bebé

Mesmo sem consenso científico, há alguns pontos práticos que podem servir de orientação às famílias:

  • A ligação constrói-se no quotidiano, não numa só noite: a forma como os pais tratam a criança ao longo de semanas e meses, a proximidade e o consolo que oferecem durante o dia e a sua fiabilidade contam mais do que noites isoladas com mais ou menos choro.
  • Os pais precisam de dormir para continuarem a cuidar bem: quem está completamente exausto torna-se irritável, impaciente e, por vezes, perigosamente distraído. Um certo treino do sono pode, indiretamente, beneficiar também a criança.
  • Desespero forte e persistente é sinal de alerta: se um bebé chora intensamente durante muito tempo, quase não se consegue acalmar ou parece muito perturbado durante o dia, os pais devem procurar ajuda pediátrica ou psicológica - independentemente do método.
  • Existem soluções intermédias: muitas famílias encontram compromissos, como esperar um pouco antes de entrar no quarto ou optar por versões suaves em que um dos pais permanece no espaço.

Pode ser útil observar atentamente a própria criança: se, ao fim de algumas noites, ela acorda menos e parece equilibrada durante o dia, uma forma suave de treino do sono poderá resultar. Se, pelo contrário, surgir mais dependência, medos evidentes ou stress intenso, talvez seja altura de mudar de estratégia.

Porque é que a discussão sobre o sono do bebé é tão emocional

No fim, a questão não é apenas a técnica para adormecer, mas algo muito básico e humano: posso impor ao meu filho um breve estado de consolo impossível? Ou isso vai ferir a confiança que ele deposita em mim?

Muitos adultos carregam experiências da sua própria infância - e reagem por isso com especial sensibilidade. Quem se sentiu muitas vezes abandonado em criança provavelmente correrá para a cama do bebé ao mínimo fungar. Quem teve pais excessivamente protetores talvez deseje mais distância e autonomia para os próprios filhos.

É precisamente por isso que vale a pena olhar com honestidade para os próprios motivos: estou a agir por medo de críticas, por culpa, pela pressão dos guias de educação - ou a partir de uma sensação calma, que faz sentido para mim e para o meu filho? Os estudos podem dar orientação. Mas a decisão concreta durante a noite continua, no entanto, nas mãos das pessoas que estão no quarto da criança - e não no laboratório.

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