Há automóveis que abrem capítulos totalmente novos e há outros que soam a ponto final de uma tradição. O novo Ferrari HC25 encaixa sem dúvidas neste segundo grupo.
A sua apresentação aconteceu no final da semana passada, durante o Ferrari Racing Days, no Circuit of the Americas (COTA), em Austin, Texas (EUA). Assinado pela divisão Special Projects da Ferrari, o HC25 é um exemplar único desenvolvido para um cliente particularmente especial da marca.
Mais do que aquilo que estreia, interessa aquilo que simboliza: tudo indica que pode representar o fim dos Ferrari com V8 central traseiro sem qualquer eletrificação.

© Ferrari - A Ferrari anuncia 340 km/h de velocidade máxima para este roadster; 2,9s nos 0-100 km/h e apenas 8,2s para atingir os 200 km/h.
A própria Ferrari deixa essa leitura no ar, no comunicado oficial, ao afirmar que o HC25 “conclui a história da plataforma V8 central traseira”. Uma frase curta, mas com peso.
Detalhe mais importante está debaixo da carroçaria
Mesmo com uma carroçaria totalmente inédita, o HC25 nasce sobre a base do Ferrari F8 Spider. Esse modelo já saiu de cena e foi o último V8 central “puro” produzido em série, antes da chegada do híbrido plug-in Ferrari 296 GTB.

Tem o nome de código F154, foi lançado em 2013 com o California e ainda está hoje ao serviço no 849 Testarossa. No F8 Tributo e Spider, o V8 biturbo tinha 3,9 litros, 720 cv e 770 Nm, especificações mantidas para o HC25.
Na prática, isto quer dizer que, sob as superfícies e recortes de inspiração futurista, continua a estar o conhecido V8 biturbo de 3,9 litros, sem qualquer assistência elétrica. Tal como no F8 Spider, os números permanecem exatamente os mesmos: 720 cv às 8000 rpm e 770 Nm às 3250 rpm. A força segue para as rodas traseiras através de uma caixa automática de dupla embraiagem com sete velocidades.
Numa altura em que quase toda a indústria acelera rumo à eletrificação - a Ferrari incluída - o HC25 surge como uma espécie de cápsula do tempo. É, no fundo, o último fôlego de uma fórmula que marcou décadas de supercarros de Maranello.
Parece um Ferrari do futuro, mas olha para o passado
Do ponto de vista estético, a ligação ao F8 Spider é mínima. O desenho é de Flavio Manzoni, diretor de design da marca italiana, e denuncia referências ao SF90 XX, ao F80 e até ao 12Cilindri, sobretudo na traseira.
A nota dominante é uma enorme faixa central tridimensional que percorre toda a carroçaria e incorpora as entradas de ar laterais. De acordo com a Ferrari, esta solução separa o automóvel em “dois volumes distintos”, como se a frente e a traseira fossem dois corpos quase independentes.

© Ferrari - O HC25 mantém a mesma distância entre eixos (2650 mm) do F8 Spider, mas é mais comprido (4758 mm) e largo (2006 mm). Só perdeu em altura, menos 23 mm (1183 mm).

© Ferrari - Os faróis são únicos ao HC25, criados para serem o mais fino possíveis, com o entalhe central que reflete o desenho bipartido das óticas traseiras.

© Ferrari - Os pneus dianteiros apresentam as medidas 245/35 ZR 20, enquanto os traseiros têm a medida de 305/35 ZR 20.

© Ferrari - Parar o HC25 fica a cargo de enormes discos dianteiros com 398 mm x 38 mm e traseiros com 360 mm x 32 mm.
O fim de uma linhagem importante
Ao longo dos últimos 20 anos, o programa Special Projects da Ferrari foi responsável por alguns dos modelos mais raros a sair de Maranello. Ainda assim, o HC25 pode vir a ganhar um lugar muito próprio nessa linha temporal, sobretudo pelo significado que transporta.
Se a interpretação daquilo que a Ferrari comunicou estiver certa, este poderá mesmo ser o derradeiro Ferrari com motor V8 central traseiro sem qualquer eletrificação.
É uma despedida silenciosa de uma arquitetura que deu origem a alguns dos capítulos mais marcantes da marca: do F8 que serviu de base ao HC25 até ao primeiro de todos, o 308 GTB de 1975 - isto, claro, se deixarmos de lado o 308 GT4 de 1973, lançado sob a marca Dino.
Talvez seja o desfecho mais adequado: um modelo único criado para celebrar precisamente aquilo que está prestes a desaparecer.
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