Cada vez mais jovens lidam com ansiedade, exaustão e a sensação de já não conseguirem dar resposta ao que lhes é pedido. Mesmo assim, em muitas famílias continua a repetir-se a velha frase: “Reage e aguentas; há pessoas com problemas bem maiores.” Um relato recente de experiência pessoal e números preocupantes mostram quão perigosa se tornou esta postura - e o que os pais podem fazer hoje de forma diferente.
Quando a força é confundida com silêncio
A história de Nasrine, na casa dos 20 anos, representa bem uma geração presa entre dois mundos. De um lado, a mensagem dos pais: ser forte, aguentar, não se queixar. Do outro, uma vida diária marcada pela pressão para ter desempenho, pelas preocupações financeiras, pela crise climática e pelas comparações constantes nas redes sociais.
Na família dela, a regra era simples: os problemas suportam-se em silêncio. Falava-se da escola, das notas, mais tarde do trabalho e dos estudos - mas não da forma como ela se sentia por dentro. Emoções como medo ou desespero eram vistas mais como motivo de vergonha do que como uma parte normal da vida.
“A minha mãe estava convencida: quem vai ao psicólogo já não regula bem da cabeça.”
Para uma criança ou uma jovem adulta, uma frase destas transmite uma mensagem clara: procurar ajuda é perigoso. Quem o fizer arrisca rejeição e vergonha. Assim, Nasrine tenta continuar a “funcionar” - até quase já não conseguir.
Os números são claros: saúde mental dos jovens no limite
O que parece um caso isolado reflete, afinal, uma tendência ampla. Um grande inquérito a estudantes mostra:
- Mais de metade das pessoas estudantes não considera bom o próprio estado emocional.
- Cerca de 60 por cento apresentam sinais de sofrimento psicológico, como perturbações do sono, espirais de pensamentos repetitivos ou medos intensos.
- 38 por cento pensam seriamente em abandonar o curso por causa de dificuldades emocionais.
- Ainda assim, mais de metade não recorreria a qualquer apoio psicológico disponibilizado pela instituição de ensino.
Estes números não combinam com a imagem de uma “geração mimada” que algumas conversas de café gostam de pintar. Pelo contrário: muitos jovens aguentam demasiado tempo, com receio de serem rotulados como “fracos”.
Ligados e, mesmo assim, sós: o paradoxo da ligação permanente
O olhar para as redes sociais amplifica esta tensão. Aplicações como TikTok ou Instagram estão cheias de desabafos pessoais: há pessoas a falar abertamente de ataques de pânico, depressão e terapia. A hashtag #mentalhealth soma milhares de milhões de visualizações.
Ao mesmo tempo, muitos sentem-se mais isolados do que nunca. Estão sempre contactáveis, sempre em troca de mensagens - e, ainda assim, sozinhos. Para quem vive isto, surge uma contradição estranha: online, parece que toda a gente “fala de tudo”. Na vida real, a maioria continua em silêncio quando é ela própria a sofrer.
“Estava rodeada de pessoas e, mesmo assim, sentia-me completamente sozinha.”
Hoje, frases assim ouvem-se com frequência em universidades, serviços de apoio e linhas telefónicas anónimas de aconselhamento. A barreira para falar com pessoas reais sobre sentimentos reais continua elevada - sobretudo quando, em casa, nunca se falou de nada semelhante.
O ponto de viragem: quando pedir ajuda deixa de ser proibido
Para Nasrine, a mudança só começou quando soube de uma iniciativa estudantil que oferece apoio telefónico e por chat, de forma anónima. São estudantes a ouvir outros estudantes - durante a noite, quando os pensamentos ficam mais altos.
A decisão de ligar foi difícil. E se ela se ridicularizasse? E se parecesse “demasiado fraca”? Muitas vezes marcou o número e desligou, escreveu mensagens e apagou-as.
Só com o tempo ganhou força outra ideia: talvez seja aceitável não ter de ser sempre forte. Talvez até seja sensato procurar apoio antes de tudo desabar.
O momento em que se permitiu aceitar ajuda assinalou o início da sua recuperação.
A vergonha inicial foi sendo substituída, aos poucos, por alívio. De repente, havia alguém que não julgava, não revirava os olhos, não minimizava. Alguém que perguntava: “Como estás realmente?” - e suportava a resposta.
De quem pede ajuda a quem a oferece
Alguns anos depois, acontece a viragem completa: Nasrine inscreve-se como voluntária da mesma iniciativa. A mulher que não tinha coragem de dizer o quão mal estava torna-se alguém que escuta outras pessoas.
Ela conta que se sente especialmente próxima de quem descreve exatamente aquilo que ela própria conhece:
- a sensação de gritar por dentro e sorrir por fora
- o receio de “sobrecarregar” amigos e família
- a preocupação de ser vista como pouco fiável na universidade ou no emprego
- a vergonha de sequer pronunciar termos psicológicos como “depressão” ou “perturbação de ansiedade”
O seu voluntariado mostra um ponto importante: quem já viveu a experiência de ver que a ajuda funciona sente muito menos vergonha dela - e passa esse conhecimento adiante. Assim nasce, lentamente, uma mudança cultural, não em programas de televisão, mas em chamadas noturnas e conversas discretas por chat.
Famílias em transformação: velhas frases, nova realidade
A frase “psicólogo é só para malucos” ainda persiste em muitas salas de estar. Raramente nasce de má intenção; vem mais da ignorância ou de experiências de uma época em que as crises emocionais eram simplesmente caladas.
Para a geração jovem de hoje, esta atitude encaixa cada vez menos. Vive num contexto em que a pressão para ter rendimento, da escola à universidade e depois ao trabalho, quase não dá descanso. Ao mesmo tempo, a sensibilidade para a saúde mental cresceu. Expressões como “burnout”, “gatilho” ou “ataque de pânico” já fazem parte do vocabulário de muitos jovens.
Em plataformas como o TikTok desenvolveu-se até um estilo próprio: histórias curtas sobre fases emocionais muito baixas, por vezes com humor negro, por vezes de forma brutalmente honesta. Frases como “Não estou nada bem” quase se tornaram um formato.
A geração dos filhos e a geração dos pais falam muitas vezes do mesmo tema - mas em duas línguas completamente diferentes.
É precisamente aqui que os pais podem ter um papel decisivo, se estiverem dispostos a questionar os seus próprios preconceitos antigos.
O que os pais podem fazer na prática
Muitas mães e muitos pais percebem que o filho está a sofrer, mas não sabem como abordar o assunto. Com medo de “piorar tudo”, preferem não dizer nada. Com isso, o silêncio aumenta - e também a distância.
Podem ajudar, por exemplo, os seguintes passos:
- Falar cedo, e não só em situação de crise: conversas sobre stress, ansiedade ou sobrecarga devem ser tão normais como as conversas sobre notas ou emprego.
- Ouvir sem julgar: fazer perguntas, não avaliar. Frases como “Não exageres” ou “Na tua idade também tínhamos stress” bloqueiam logo a conversa.
- Admitir a própria insegurança: dizer “Percebo pouco sobre isto, mas quero entender o que estás a sentir” abre uma porta.
- Apresentar a ajuda como sinal de força: a comparação com o desporto ou a fisioterapia pode ajudar: “Se o teu joelho estivesse lesionado, também não ias simplesmente correr sozinho; ias a um profissional.”
- Procurar opções em conjunto: serviços de aconselhamento, linhas de apoio, consultas de psicoterapia - até a pesquisa conjunta já transmite: não estás sozinho.
Porque é que as palavras podem fazer tanta diferença
Uma única frase pode ecoar durante anos na cabeça de uma pessoa jovem. “Tu és forte, consegues sozinho” pode motivar - ou paralisar. “Se precisares de ajuda, estou contigo” pode fazer a diferença entre alguém encontrar coragem para uma primeira conversa ou não.
Sobretudo em famílias onde nunca se falou de sentimentos, muitas vezes basta um pequeno começo: um momento calmo à mesa da cozinha, uma viagem de carro em que o telemóvel fica em silêncio. Muitos adolescentes não se abrem quando lhes mandam, mas reparam muito bem se há alguém disposto a ouvi-los a sério.
Psicoterapia, aconselhamento e apoio espiritual: o que está em causa?
Parte do medo da ajuda psicológica nasce da falta de informação. Muitas pessoas continuam a imaginar a sala clássica com o divã e o olhar severo. A realidade é muito mais variada:
- Psicoterapia: conversas regulares e de longa duração com profissionais qualificados, que ajudam a perceber padrões e a encontrar novas estratégias.
- Aconselhamento nas universidades: apoio de curto prazo e fácil acesso em crises relacionadas com os estudos, muitas vezes gratuito.
- Serviços telefónicos e online: conversas anónimas com voluntários formados ou profissionais, sobretudo úteis durante a noite.
- Grupos de apoio: encontros com pessoas em situações semelhantes, onde o apoio mútuo está no centro.
Para jovens que cresceram com muitos preconceitos, o primeiro contacto anónimo pode ser especialmente valioso. Ninguém vê a cara, ninguém fica a saber o nome - mas, finalmente, há alguém a ouvir.
Quando uma geração aprende a lidar de outra forma com a dor
A história de Nasrine mostra como uma frase dita pelos pais pode ferir fundo - e como, apesar disso, essa marca ainda pode mudar na idade adulta. Primeiro, ela teve de se libertar da ideia de que ser forte significava suportar tudo sozinha. Só depois conseguiu aceitar que o apoio psicológico é uma parte normal dos cuidados de saúde.
Para muitos pais, a tarefa agora é vigiar o próprio impulso antes de falar. Em vez de “psicólogo é só para malucos”, uma frase nova poderia ser: “Eu não conheço isso de perto, mas se isso te fizer bem, podes contar comigo.”
Quanto mais vezes estas palavras forem ditas, mais depressa o velho estigma desaparece. E maior será a hipótese de os jovens pedirem ajuda antes de uma necessidade silenciosa se transformar numa crise séria.
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