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O gadget de aquecimento de inverno «aprovado» por Martin Lewis na Lidl: poupança real ou mais uma jogada de marketing?

Mulher num supermercado a examinar um aquecedor portátil enquanto segura um cabaz de compras.

Numa terça-feira cinzenta de outubro, daquelas em que o bafo embacia o vidro do autocarro, apareceu na Lidl da zona um cartaz manuscrito: “EM BREVE - GADGET DE AQUECIMENTO DE BAIXO CONSUMO - APROVADO POR MARTIN LEWIS.”

Houve mesmo quem parasse o carrinho para olhar. Uma mulher, com o casaco de quem faz a corrida à escola, tirou o telemóvel, fotografou o cartaz e enviou-o de imediato para o grupo familiar do WhatsApp com a legenda: “Vale a pena?”

À volta dela, sentia-se uma mistura estranha de alívio e desconfiança. Alívio, porque, se Martin Lewis recomenda, talvez o inverno não pareça tão duro. Desconfiança, porque a mesma confiança numa figura pública que nos ajudou a escapar a contas inflacionadas estava agora estampada num painel promocional de supermercado, mesmo ao lado das bolachas com desconto.

Foi aí que o ambiente mudou.

Isto era ajuda, ou apenas mais uma venda?

Quando a poupança se transforma em marketing

A iniciativa da Lidl toca numa corda muito sensível. Nos últimos dois invernos, milhões de pessoas passaram as noites em salas frias, embrulhadas em mantas, a ver vídeos de Martin Lewis em busca de conselhos para aguentar. Ele tornou-se a voz calma, mas urgente, que explicava as taxas fixas e os ajustes da caldeira quando tudo o resto parecia assustador.

Por isso, quando alguém entra numa Lidl e vê o nome dele discretamente associado a um aparelho de inverno, o impacto é maior do que o de um anúncio normal. Parece quase pessoal.

As pessoas não veem apenas um aquecedor ou um estendal aquecido. Veem uma tábua de salvação com uma cara conhecida impressa na caixa.

Numa loja do sul de Londres, uma funcionária contou-me que, no espaço de uma hora, três clientes fizeram a mesma pergunta: “É mesmo aquele aparelho de que o Martin Lewis falou?” Não perguntaram “Qual é a potência?” nem “Quanto custa a funcionar?”, mas sim “É o dele?”

Esse é o poder da confiança em 2024. Durante anos, Lewis repetiu quase com insistência que não recebe comissões pelos produtos que recomenda e que detesta ser transformado em publicidade. Depois aparece uma promoção grande e vistosa no corredor central da Lidl, a aproveitar a expressão “aprovado por Martin Lewis” como se fosse um selo oficial.

Quase se ouve a reação das pessoas: Então, em que altura é que ele passou a ser um slogan de marketing?

A indignação que está a crescer online não tem propriamente a ver com um único radiador, fritadeira sem óleo ou estendal aquecido. O que está em causa é a fronteira cada vez mais esbatida entre conselho e venda. As pessoas lembram-se do PPI, dos empréstimos de curto prazo e de todas as “soluções” financeiras que acabaram por ser armadilhas, e receiam voltar a cair num ciclo semelhante com aparelhos de poupança de energia.

A lógica é simples. Quando o conselho está claramente separado, é possível avaliá-lo com cabeça fria. Quando surge debaixo de luzes fluorescentes, na prateleira três, embrulhado em cartão promocional, algo muda. A sensação de segurança de “ele está do nosso lado” começa a parecer, desconfortavelmente, um ativo de marca.

Sejamos honestos: ninguém lê com atenção a letra pequena de um cartaz de cartão.

Como decifrar um gadget de aquecimento de inverno «aprovado» por Martin Lewis na Lidl

Há uma forma simples, e pouco entusiasmante, de cortar o ruído - e começa antes mesmo de pegares na caixa. Faz-te uma pergunta: “De onde veio realmente a recomendação?”

Se Martin Lewis falou de um tipo de aparelho no programa ou no sítio dele, isso não é o mesmo que aprovar o modelo exato empilhado na Lidl. Abre o telemóvel, escreve o tipo de produto e “MoneySavingExpert” ou “Martin Lewis” e procura o contexto original. Estava ele a falar de um estendal aquecido genérico, com cerca de 200 a 300 watts, ou deste modelo específico, com o seu próprio preço e dimensões?

Um pormenor pequeno, mas com um efeito enorme na tua fatura.

Depois, volta ao básico: olha para a etiqueta. Confere a potência e faz as contas ao custo de utilização. Uma regra prática que muitos especialistas em energia usam é esta: custo por kWh × quilowatts × horas. Se o aparelho gastar 300 W (0,3 kW) e a tua tarifa for, por exemplo, 28 cêntimos por kWh, usá-lo durante três horas dá cerca de 0,3 × 0,28 × 3 ≈ 0,25 €.

Depois compara com o que já fazes atualmente. Estás a aquecer a casa toda só para uma divisão? Estás a meter toalhas na máquina de secar a cada dois dias? O novo aparelho só “poupa dinheiro” se substituir um hábito mais dispendioso, não se apenas se juntar à fila de coisas ligadas ao mesmo tempo.

Todos nós já passámos por isso: o momento em que uma compra supostamente “económica” acaba por ser apenas mais um objeto a ganhar pó no corredor.

Há ainda outro ponto que vale a pena ter em conta: o tipo de casa. Em habitações com humidade, ou em divisões que arrefecem depressa, um aparelho de apoio pode fazer diferença, mas não resolve o problema de fundo. Vedações nas janelas, isolamento melhorado e um termóstato bem regulado continuam a ser parte da equação, e muitas vezes fazem mais pela poupança do que um gadget comprado por impulso.

Também convém verificar a segurança antes de pensar no preço. Funções como desligamento automático, proteção contra sobreaquecimento, marcação CE e uma boa garantia podem ser tão importantes como os watts. Um aparelho barato que falha cedo deixa rapidamente de ser poupança e passa a ser despesa.

A armadilha emocional destas promoções é subtil. Quando tens frio e estás preocupado com as contas, o cérebro não está a analisar números com serenidade; está à procura de tranquilidade. É por isso que a palavra “aprovado” soa tão poderosa - e tão perigosa. Apaga os contornos da პასუხისმგabilidade.

Uma campanha de defesa do consumidor com quem falei resumiu-o assim:

“As marcas adoram beneficiar do brilho da integridade de outra pessoa. O problema é que os compradores assumem que esse brilho se estende a todos os produtos da prateleira, quando muitas vezes não é assim.”

Para manteres os pés assentes na terra, podes separar mentalmente cada etapa:

  • Separa a pessoa (Martin Lewis) do produto (o aparelho específico da Lidl).
  • Confirma a potência, o preço e o custo de utilização antes de pensares em “aprovação”.
  • Pergunta a ti mesmo: “O que é que isto vai substituir?” Se a resposta for “nada”, então não é uma poupança.
  • Procura avaliações independentes, não apenas vídeos nas redes sociais e cartazes da loja.
  • Afasta-te, faz as contas em casa e volta só se ainda fizer sentido.

Confiança, contas e a irritação silenciosa no corredor central

Por trás dos fios de discussão no X e dos desabafos no Facebook, há um sentimento mais discreto que nem sempre é dito em voz alta. É a sensação de ser esmagado por todos os lados e, depois, ser gentilmente empurrado para comprar uma saída para esse aperto. Mais um aparelho. Mais uma solução. Mais um truque.

Quando a Lidl apoia-se, mesmo que indiretamente, na reputação de Martin Lewis, essa frustração transborda. As pessoas não estão apenas zangadas com o supermercado. Têm medo de que as poucas figuras públicas que ainda parecem “estar do nosso lado” acabem absorvidas pela mesma lógica empresarial que nos trouxe “promoções” de Sexta-feira Negra para produtos de que nunca precisámos.

O receio não é que Lewis tenha cedido; é que o sistema distorça o conselho dele e o transforme numa linha de vendas, quer ele queira quer não.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Separar conselho de publicidade Verifica de onde vem realmente a referência a “Martin Lewis” e lê a fonte original Evita compras feitas apenas com base na confiança
Fazer as contas à potência Confere o consumo, a tua tarifa e o número de horas em que vais usar o aparelho Mostra se o produto corta mesmo a fatura ou se só acrescenta custos
Focar-te nos hábitos, não no entusiasmo Usa o aparelho para substituir rotinas caras, não para as somar Transforma “compras inteligentes” em poupança real e não em tralha

Perguntas frequentes

  • Pergunta 1: Martin Lewis está oficialmente a trabalhar com a Lidl neste gadget de inverno?
  • Pergunta 2: “Aprovado por Martin Lewis” significa que o produto exato foi endossado?
  • Pergunta 3: Estes gadgets de inverno da Lidl são mesmo mais baratos de usar do que o aquecimento central?
  • Pergunta 4: Como posso confirmar rapidamente se um aparelho de aquecimento me vai poupar dinheiro?
  • Pergunta 5: O que devo fazer se já comprei um e agora sinto que fui induzido em erro?

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