Maria Seixas e a decisão de ficar em Trás-os-Montes
Maria Seixas nunca se imaginou a sair de Trás-os-Montes. Mesmo quando terminou a licenciatura em Agronomia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real, e começou a perceber que muitos colegas seguiam para as grandes cidades do Litoral à procura de emprego, o objetivo manteve-se: viver e trabalhar no Interior. Chegou a recear que um dia tivesse de partir, mas a vontade foi sempre a de permanecer na região.
Nascida e criada em Trevões, no concelho de São João da Pesqueira, preferiu continuar a estudar e a construir o seu percurso profissional por perto: "Eu gosto do Interior, da vida calma, sem tanto stress como nas cidades grandes. Eu cresci numa aldeia, fui estudar para Vila Real e depois vim para Bragança. Não gosto de confusões e Bragança enquadra-se no que gosto".
Ter encontrado "um bom posto de trabalho" na área em que se formou foi decisivo para ficar em Trás-os-Montes, a par do quotidiano tranquilo de uma cidade pequena. Maria admite que teve propostas noutros sítios, mas a identificação nunca aconteceu: "Tive oportunidades de trabalho em cidades maiores, mas não me identifico com elas. Além disso, precisamos de ficar por cá e de defender a nossa região, que está a ficar desertificada. Vejo pela minha terra. Quando eu era criança, na rua onde vivia moravam 20 pessoas, agora só lá estão os meus pais e mais uma família. Não há lá jovens, as escolas fecharam por falta de alunos".
"Tive oportunidades de trabalho em cidades maiores, mas não me identifico com elas".
Mesmo que surgisse uma proposta "muito boa" no Porto ou em Lisboa, suficientemente apelativa para a fazer aceitar, Maria reconhece que "não seria fácil a adaptação à velocidade de uma grande cidade", onde também sente que existe mais competição.
MoreColab em Bragança: investigação e carreira
Acabou por permanecer no Nordeste Transmontano e seguir pela via da investigação, como técnica no MoreColab - Laboratório Colaborativo Montanhas de Investigação, em Bragança. Está no projeto há um ano e meio, depois de ter entrado primeiro no polo de Mêda, no distrito da Guarda.
"Tive uma oportunidade de vir para Bragança e vim porque é a sede e tenho maiores oportunidades e melhores desafios, pois os projetos que desenvolvemos são muito focados na zona de Bragança", explicou a jovem de 31 anos. Quis aproveitar "o potencial de crescimento na carreira" que, à partida, considera ser maior em Bragança do que em Mêda, uma vila - lembrando que, mesmo no Interior, há diferenças entre vilas e cidades.
Mais tempo e liberdade
"Não me dou com confusões, muito trânsito, filas para tudo. Cresci numa aldeia e habituei-me àquela paz"
"Não me dou com confusões, muito trânsito, filas para tudo. Cresci numa aldeia e habituei-me àquela paz", reforça, destacando que a curta distância entre casa e trabalho - "a dois minutos" - lhe dá margem para outras coisas: "Tenho mais tempo disponível do que se passasse uma hora no transporte para ir trabalhar".
Maria Seixas podia ter continuado a trabalhar em Mêda. No entanto, por gostar de investigação, isso seria mais difícil. "Surgiu a oportunidade no ColabMore, em Mêda, e agarrei-a logo, mas antes disso trabalhei numa empresa de vinhos na minha terra", conta. Hoje está integrada numa equipa jovem, com pessoas de várias zonas do país e de muitas nacionalidades. "Os salários são apelativos e a progressão na carreira também, além disso estão relativamente perto dos meus pais", acrescenta.
A investigadora sabe que, em parte, foi uma combinação de esforço e sorte. "Da minha turma na escola primária, só eu e outra pessoa é que fomos para o Ensino Superior. Os outros fizeram o 12.° ano, foram trabalhar e foram embora da região", recorda.
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