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“Psicólogo é só para malucos” – como os jovens adultos estão a quebrar este estigma

Jovem sentado no sofá a conversar com duas pessoas que tomam notas em cadernos.

Uma jovem cresce a ouvir que psicólogos só servem para “doidos”. Anos mais tarde, vê-se a lutar com solidão, pressão para ter bons resultados e ataques de pânico - e percebe que empurrar tudo para um canto já não chega. O seu percurso até ao apoio psicológico mostra como os velhos preconceitos continuam agarrados ao presente e como, ao mesmo tempo, uma geração inteira se está a reinventar quando o tema é a saúde mental.

Quando a força é confundida com silêncio

Nasrine, na casa dos vinte e poucos anos, representa muitas estudantes e muitos estudantes. Na família dela, contam a disciplina, a resistência e a ausência de queixas. Pressão? É o normal. Noites sem dormir? Fazem parte. Quem chora “está a fazer fita”. Com essa mentalidade, entra na universidade - e vai deslizando, devagar, para uma crise.

Sente-se exausta, vazia e irritável. Mesmo assim, não diz nada. Na cabeça dela continua a ecoar a frase antiga da mãe: psicólogas e psicólogos seriam apenas para “doidos”. Procurar ajuda parece uma traição à educação que recebeu. Por isso, continua a sorrir, a fazer exames, a trocar conversa de circunstância, enquanto por dentro tudo arde.

Por dentro no limite, por fora “está tudo bem” - é assim que vivem inúmeros jovens adultos.

Estudos confirmam este retrato. Um relatório recente sobre o estado de espírito e a saúde mental das pessoas que estudam mostra números preocupantes:

  • Mais de metade das estudantes e dos estudantes considera que o seu estado emocional não é bom.
  • Cerca de 60 por cento apresenta sinais de sofrimento psicológico, como cansaço extremo ou tensão constante.
  • Quase quatro em cada dez ponderam seriamente abandonar o curso por causa de problemas de saúde mental.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas, apesar de enfrentarem dificuldades graves, não recorrem a apoio profissional na universidade. Não é por falta de respostas - é porque a barreira mental continua demasiado alta.

A nova solidão na conversa digital permanente

No papel, os jovens de hoje estão mais ligados do que nunca. TikTok, Instagram, WhatsApp, Discord - em teoria, há sempre alguém disponível. Na prática, muitos sentem-se mais isolados do que nunca.

Nasrine descreve precisamente esse paradoxo: está rodeada de pessoas, na sala de aula, na cozinha do apartamento partilhado, nos grupos de conversa. E, ainda assim, sente-se profundamente sozinha.

“Mesmo rodeado de pessoas, alguém pode sentir-se invisível.”

Isso também se nota nas redes sociais. A hashtag #saudemental acumula milhares de milhões de visualizações no TikTok. Jovens falam sem rodeios sobre ataques de pânico, fases depressivas e esgotamento na universidade. Contam como ficam deitados na cama enquanto outros vão a festas, ou como tremem antes de uma apresentação até lhes dar náuseas.

Entre os formatos mais comuns estão:

  • vídeos em estilo de frente para a câmara, em que alguém relata diretamente o seu momento mais baixo
  • clipes humorísticos com humor negro sobre terapia, medicação ou diagnósticos
  • cenas “POV” (“perspetiva”), que encenam diálogos internos ou medos sociais

Para muita gente, isto funciona como uma válvula de escape - e como o primeiro momento em que pensa: não sou a única pessoa a sentir isto. Ainda assim, um vídeo no TikTok não substitui uma conversa com uma pessoa real, muito menos um tratamento profissional.

O ponto de viragem: “Talvez seja aceitável pedir ajuda”

No caso de Nasrine, a rutura acontece quando ouve, por acaso, falar de uma iniciativa de apoio entre estudantes. Uma linha telefónica disponível durante a noite, criada por estudantes para estudantes. Sem corredor de hospital, sem diagnóstico, sem pais a opinar. Apenas alguém do outro lado da chamada, a ouvir.

Durante semanas, hesita. Marca o número, desliga de imediato. Pergunta a si própria se estará a exagerar. É precisamente aqui que o problema central se revela: muitas pessoas jovens percebem perfeitamente que não estão bem - mas não confiam no que sentem. O crítico interior grita mais alto do que a dor.

Quem aprendeu a ser sempre “forte” muitas vezes só percebe demasiado tarde quão grave é a situação.

Acaba por telefonar. Sem grande dramatismo, sem cena de filme. Antes, uma cedência silenciosa à resistência interior. E, pela primeira vez, diz em voz alta a uma pessoa desconhecida: “Não me estou a sentir bem.”

A partir daí, acontece algo decisivo: rompe com o silêncio que durante anos lhe foi vendido como prova de força. Descobre que ninguém se ri dela, ninguém a condena. Que alguém simplesmente fica ali, mesmo quando ela mostra vulnerabilidade. Essa experiência lança a base para olhar de outra forma para a psicoterapia e para o aconselhamento.

De quem pede ajuda a quem apoia outras pessoas

As conversas aliviam-na tanto que, alguns anos depois, começa a colaborar como voluntária na própria linha de apoio. Atende chamadas nocturnas de pessoas que hesitam e lutam consigo próprias da mesma forma que ela própria fez no passado.

A motivação dela é simples: quer retribuir. E conhece os dois lados - o da pessoa que pega no telefone em desespero e o de quem escuta com compreensão do outro lado. É isso que torna este tipo de iniciativa tão poderoso: quem é ajudado passa a ajudar, e a vergonha transforma-se em competência.

Projetos de entreajuda como este mostram uma tendência clara: pessoas jovens adultas tendem a confiar mais em quem partilha a sua realidade. Têm medos semelhantes em relação a notas, rendas, futuro e presença constante nas redes sociais. Quando alguém assim diz “procura ajuda, isso é normal”, a mensagem costuma soar mais convincente do que qualquer campanha.

Choque de gerações: pais com frases antigas, filhos com perguntas novas

A frase da mãe - psicólogo é só para “doidos” - representa toda uma geração que cresceu em contextos muito diferentes. Muitas mães e muitos pais tiveram de “funcionar”, sem muito espaço para emoções, traumas ou dúvidas sobre si próprios.

Em muitos casos, nunca aprenderam a falar sobre sofrimento interior. Por isso, transmitem, sem querer, aquilo que também interiorizaram: cerrar os dentes, continuar, não se queixar. Normalmente não é má vontade, mas pode ter efeitos devastadores nos filhos.

Quem reduz o apoio psicológico a sinal de fraqueza fecha aos próprios filhos as saídas de emergência.

Ao mesmo tempo, cresce hoje uma geração que, no TikTok, em podcasts ou em projectos escolares, é constantemente confrontada com palavras como “gatilho”, “ataque de pânico”, “esgotamento”, “PHDA” ou “depressão”. Ouve influenciadores falarem abertamente de como a terapia lhes fez bem. Isso pode aliviar - e também sobrecarregar.

Como os pais de Nasrine podem iniciar um diálogo verdadeiro

Para mães e pais que querem apoiar os filhos, há caminhos concretos:

  • Falar cedo e com naturalidade sobre emoções: não apenas quando a crise já explodiu, mas também ao jantar ou no carro.
  • Menos conselhos, mais escuta: primeiro compreender, depois reagir. Fazer perguntas em vez de julgar.
  • Admitir os próprios limites: “Não percebo muito disto, mas quero apoiar-te” retira peso à situação.
  • Normalizar a ajuda: tal como se vai ao dentista por dores de dentes, vai-se à terapia por dor emocional - ponto final.
  • Não dramatizar os tropeços: más notas, dúvidas sobre o curso ou períodos sem rumo não são o fim do mundo.

Quem age assim envia uma mensagem clara: “Podes sentir o que estás a sentir. E podes procurar ajuda.” Muitas vezes, essa frase muda mais dentro de uma família do que qualquer manual.

Terapia, apoio psicológico e linha telefónica - afinal, o que é isto?

Muitos preconceitos nascem simplesmente da falta de informação. Muita gente mais velha ainda imagina a psicoterapia como o divã do psicanalista, onde se passa anos a falar de sonhos. A realidade é bem mais ampla.

Há, por exemplo:

  • terapias de curta duração: número limitado de sessões, centradas num problema concreto, como o medo de exames
  • terapia cognitivo-comportamental: observa como pensamentos, emoções e comportamentos se relacionam e procura, passo a passo, novas estratégias
  • gabinetes de apoio nas universidades: ofertas gratuitas e de fácil acesso, muitas vezes com tempos de espera curtos
  • apoio telefónico e online: anónimo, flexível e útil como primeiro passo, quando ainda não há coragem para ir a um consultório

Ninguém precisa de se comprometer logo com um acompanhamento longo. Muitas pessoas começam com uma conversa anónima - como aconteceu com a linha de apoio que Nasrine telefonou. Um único diálogo pode já aliviar, organizar ideias e dar coragem para avançar.

Quando as redes sociais transformam a linguagem da terapia em linguagem do dia a dia

Um efeito notável dos últimos anos é a entrada de termos da psicologia e da psicoterapia no discurso quotidiano. No TikTok e no Instagram, pessoas de 20 anos falam de “gaslighting”, relações tóxicas ou neurodivergência como se estivessem a comentar séries.

Isto tem dois lados. Por um lado, baixa a barreira para falar de sofrimento psicológico. Muitas pessoas só encontram, através deste tipo de conteúdos, as palavras certas para aquilo que já sentem. Por outro, existe o risco de auto-diagnósticos errados e de rotular tudo com base num vídeo de 30 segundos.

Precisamente por isso, continuam a ser essenciais profissionais acessíveis, capazes de distinguir: o que é uma reacção normal ao stress? Onde começa uma perturbação que precisa de tratamento? O que ajuda de facto - para lá dos conselhos que aparecem nos comentários?

Porque é que a revolução silenciosa dos jovens interessa a todas as gerações

A história de Nasrine mostra quanta força pode estar escondida num gesto aparentemente pequeno: a primeira chamada, o primeiro e-mail, a primeira frase “preciso de ajuda”. Cada pessoa que dá esse passo desloca a fronteira do que pode ser dito dentro das famílias.

Quando jovens adultos falam abertamente sobre terapia em casa, as mães e os pais têm de rever as frases antigas. Alguns defendem-nas, outros entram em reflexão, outros ainda percebem como também lhes faria bem procurar ajuda - depois de décadas a apenas funcionar.

A geração que cresceu com “não faças um drama” está agora a ensinar aos filhos que, por vezes, precisamente esse “drama” pode salvar vidas.

No fundo, não se trata de modas, nem de “hipersensibilidade” ou de “fraqueza”. Trata-se de factos muito simples: se mais de metade das pessoas que estudam se sente psicologicamente fragilizada, isso não é um problema isolado. É um sinal de alerta estrutural.

É por isso que histórias como a de Nasrine são tão valiosas. Mostram que a vergonha pode diminuir quando alguém dá o primeiro passo. Que a ajuda está muito mais perto do que muita gente imagina. E que uma frase antiga - “psicólogos são só para doidos” - deixa, mais cedo ou mais tarde, de corresponder à realidade de quem cresce.

Quem percebe isso não precisa de mudar tudo de uma vez. Às vezes, basta um primeiro gesto: uma pergunta sincera, um ouvido disponível, uma frase como “Se quiseres falar com alguém especializado, ajudo-te a encontrar alguém.” É a partir destes momentos que, devagar, nasce uma cultura diferente no modo de lidar com a saúde mental - discreta, mas eficaz.

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