Para muita gente, os corvos são sinónimo de mau agouro ou de necrófagos à beira da estrada. Só que, em laboratório e em estudos de campo, surge uma imagem bem diferente: estas aves antecipam horas à frente, recorrem a ferramentas, trocam objectos como numa feira - e, em alguns testes, chegam mesmo a superar grandes primatas. Aquilo que durante muito tempo foi tratado como uma capacidade tipicamente humana começa, assim, a perder nitidez.
Corvos pensam no amanhã - e agem em conformidade
As pessoas gostam de se definir pela aptidão de olhar para o futuro: planeamos férias, carreiras, reformas. Durante anos, muitos investigadores assumiram que um planeamento do futuro “a sério” estava limitado a nós e a alguns grandes símios.
As pesquisas com corvídeos, porém, apontam noutro sentido. Os corvos não se limitam a recordar onde está a comida. Tudo indica que conseguem antecipar internamente situações futuras concretas - e que, no presente, tomam decisões cujo benefício só aparece horas depois.
"Os corvos abdicam de uma recompensa imediata para, mais tarde, conseguirem mais - de forma muito semelhante ao que fazemos quando poupamos."
Isto coloca-os, em termos cognitivos, muito mais próximos de nós do que muitos aceitaram durante bastante tempo.
Estudo marcante: uma pedra, uma caixa e muita paciência
Um ponto de viragem foi um estudo da Universidade de Lund, na Suécia, publicado em 2017 na revista científica Science. A equipa quis perceber se os corvos conseguem incluir no seu planeamento acontecimentos futuros que, naquele momento, não conseguem ver, cheirar ou ouvir.
Como foi feito o ensaio
- Primeiro, os corvos aprenderam a usar uma ferramenta específica em pedra para abrir um mecanismo.
- Dentro desse mecanismo havia alimento que eles preferiam claramente.
- Em seguida, a equipa retirou a caixa por completo da sala.
- Entre 15 minutos e 17 horas depois, as aves receberam vários objectos à escolha - e apenas um era a “pedra-ferramenta” correcta.
- Só depois é que a caixa com comida voltou a aparecer.
O mais impressionante: a maioria dos corvos escolheu a ferramenta certa e guardou-a, apesar de, nessa altura, já não conseguir ver a caixa. Mais tarde, quando a caixa foi recolocada, usaram a pedra de forma dirigida e obtiveram a recompensa.
Para isso, os animais tiveram de manter na cabeça um problema futuro: “Quando a caixa regressar, vou precisar exactamente deste objecto.” Isto difere nitidamente de um simples armazenamento, como o dos esquilos que escondem nozes, mas não trabalham com vista a um cenário tão específico.
Cérebro de ave com bolsa de trocas: corvos como comerciantes habilidosos
Numa outra experiência, o foco deixou de ser as ferramentas e passou para algo surpreendentemente próximo do nosso mundo financeiro: comércio com símbolos.
Os animais recebiam recompensas sob a forma de comida ou de “tokens”, isto é, objectos neutros que mais tarde podiam trocar por alimento de maior qualidade. A questão decisiva era simples: escolheriam a guloseima disponível de imediato - ou prefeririam garantir tokens, que compensariam mais, mas com atraso?
"Em alguns testes de troca, os corvos tiveram melhor desempenho do que chimpanzés, bonobos e orangotangos."
Muitos corvos optaram de forma consistente pelos tokens, mesmo quando tinham à frente petiscos de menor qualidade, mas prontos a comer. Ou seja, apostaram numa vantagem futura clara e renunciaram ao prazer imediato.
O paralelismo com planos de poupança ou com a criação de reservas em humanos é evidente: abdica-se hoje de uma parte da satisfação para obter um benefício maior mais tarde.
Corvos têm mesmo um “filme interno do futuro”?
É aqui que começa a divergência entre investigadores. O que acontece, exactamente, na mente de um corvo quando guarda uma ferramenta para usar depois ou quando recolhe um objecto para trocar?
- Um dos lados defende que os corvos constroem cenários mentais. Imaginam-se a abrir a caixa mais tarde e ajustam o comportamento a essa previsão.
- O outro lado argumenta que basta um sistema de aprendizagem muito eficiente. A ave associa, com base em muitas experiências, certos objectos a benefícios posteriores - algo comparável a um “se A, então B” extremamente sofisticado.
Ambas as posições, ainda assim, convergem num ponto: seja qual for o mecanismo exacto, estes animais operam com muito mais do que simples reflexos. Revelam flexibilidade notável, adaptam-se a situações novas e demonstram desempenhos que, durante muito tempo, foram quase só atribuídos a humanos.
Inteligência sem neocórtex
Um aspecto particularmente cativante: os corvos não têm um neocórtex estratificado como os mamíferos. O cérebro deles é construído de forma muito diferente - e, mesmo assim, produz comportamentos de complexidade semelhante.
Isto sugere que capacidades cognitivas elevadas podem emergir de arquitecturas neuronais distintas. A evolução, ao que parece, encontra vários caminhos para chegar a resultados parecidos. Quando as pressões ambientais e sociais o exigem, surgem estratégias refinadas - quer num cérebro de mamífero, quer num cérebro de ave.
O que os corvos nos dizem sobre a nossa própria inteligência
Quando uma ave com um cérebro do tamanho de uma noz planeia o uso de ferramentas, faz trocas e adia recompensas, uma fronteira confortável começa a esbater-se: a que separa “inteligência humana” de “inteligência animal”.
Daqui resultam várias perguntas relevantes para a investigação:
- Como é que os corvos em liberdade aplicam a sua capacidade de planeamento do futuro no dia-a-dia? Por exemplo, ao esconder alimento ou na competição com indivíduos da mesma espécie.
- Que circuitos neuronais no cérebro do corvo entram em acção quando planeiam ou realizam trocas?
- Outros não-primatas - como gralhas, papagaios ou polvos - terão capacidades comparáveis?
À medida que novos estudos são publicados, torna-se mais claro: preparar mentalmente situações futuras é um elemento central da inteligência - e parece estar muito mais disseminado do que se pensava.
Planeamento no quotidiano de um corvo
Algumas observações na natureza encaixam bem no que se vê em laboratório. Os corvos escondem reservas de comida e parecem considerar quem os está a observar. Se um corvo é visto enquanto esconde alimento, mais tarde desloca a reserva para outro local. O comportamento soa a uma protecção deliberada contra o roubo.
Há ainda outro exemplo: em zonas com invernos rigorosos, os corvídeos acumulam provisões que vão sendo usadas ao longo de meses. Têm de memorizar locais, estimar de forma aproximada as necessidades e contar com concorrência. Tudo isto exige algum tipo de planeamento a longo prazo - ainda que não funcione da mesma maneira que nos humanos.
O que podemos aproveitar da investigação sobre corvos na prática
Estas conclusões não interessam apenas a quem gosta de animais; também tocam a tecnologia e o dia-a-dia:
- Inteligência artificial: a investigação em IA olha cada vez mais para cérebros de animais para compreender vias alternativas para comportamentos inteligentes. Os corvos mostram que o planeamento complexo não depende de “hardware” humano.
- Bem-estar animal e jardins zoológicos: quem mantém corvídeos precisa de os estimular mentalmente. Um animal capaz de planear o futuro aborrece-se depressa em viveiros despidos e pode desenvolver perturbações comportamentais.
- Educação e psicologia: a comparação com corvos lança nova luz sobre a auto-regulação em humanos - por exemplo, no “teste do marshmallow” com crianças.
Não se trata de transformar corvos em “pequenos humanos”. O mais interessante é perceber que o pensamento pode existir sob muitas formas. Seja na sala de aula, no laboratório ou na floresta, quem observa com atenção nota como alguns animais se aproximam de nós mentalmente - apesar das asas, do bico e de uma estrutura cerebral totalmente diferente.
De repente, o pássaro negro à beira da estrada deixa de parecer um observador silencioso. Passa a soar mais a um estratega discreto, que já tem o próximo passo na cabeça enquanto nós o descartamos como “apenas um corvo”.
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