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Porque alguns adultos, apesar de terem muitos contactos, não têm verdadeiros amigos.

Jovem sentado sozinho numa mesa de café a olhar para o telemóvel, ao fundo grupo de amigos a conversar.

Muitas pessoas com uma agenda cheia, emprego estável e vida social ativa carregam em silêncio um segredo: quase não têm amigos realmente próximos, ou mesmo nenhuns. Visto de fora, tudo parece organizado, até exemplar. Por dentro, porém, a realidade costuma ser bem diferente - e a origem do problema muitas vezes não está no presente, mas profundamente na infância.

O que está por trás do estilo de vinculação evitante

Na psicologia, a chamada teoria da vinculação ocupa um lugar central. Ela remonta ao psiquiatra britânico John Bowlby e à psicóloga do desenvolvimento Mary Ainsworth. Em termos simples, descreve como as crianças aprendem a construir relações com outras pessoas - e o que interiorizam, nesse processo, sobre proximidade, confiança e necessidades.

Para além de um estilo de vinculação seguro, existem também padrões que parecem protetores no momento, mas que mais tarde podem criar dificuldades. Um deles é o chamado estilo de vinculação evitante.

As pessoas com estilo de vinculação evitante aprendem muitas vezes isto: “Mostrar sentimentos torna-nos vulneráveis - mais vale resolver tudo sozinhos.”

O percurso típico na infância é este: uma criança procura proximidade, conforto ou ajuda e encontra repetidamente rejeição, frieza, sobrecarga ou impaciência. Vai percebendo que, com as suas emoções, não consegue ir muito longe ali. Então adapta-se.

  • Passa a mostrar as suas necessidades cada vez menos.
  • Parece madura cedo e “sem complicações”.
  • Aprende a resolver os problemas sozinha.
  • Evita situações em que teria de depender dos outros.

Do lado de fora, forma-se a imagem de uma criança muito autónoma e pouco exigente. Por dentro, porém, fica uma lição clara: não se pode contar com os outros - por isso, é melhor não depender de ninguém.

Da criança “fácil de lidar” ao adulto extremamente independente

Na idade adulta, as pessoas com um estilo de vinculação evitante costumam revelar uma capacidade de desempenho impressionante. Estudos, entre eles os dos psicólogos Jeffry Simpson e W. Steven Rholes, mostram que se saem particularmente bem em ambientes bem estruturados - por exemplo, no trabalho, em projetos ou em funções de gestão.

Características típicas no quotidiano:

  • São vistas como muito fiáveis e responsáveis.
  • Preferem assumir o controlo em vez de delegar tarefas.
  • Quase nunca pedem ajuda - “não querem ser um peso para ninguém”.
  • Em situações de crise, reagem de forma prática e organizada, sem muitas emoções visíveis.
  • Têm muitos conhecidos, mas poucas pessoas a quem confiem verdadeiramente tudo.

Muitos destes adultos não são de todo antipáticos nem avessos ao convívio. Podem ser charmosos, divertidos e sociáveis. Vão a festas, mantêm redes profissionais, conversam em grupos. Mas, quando a proximidade se torna realmente pessoal, muitas vezes travam interiormente.

Quanto mais emocional fica um contacto, mais forte tende a disparar o alarme interior - muitas vezes de forma completamente automática.

Quem tem este padrão costuma dizer frases como “Não preciso de ninguém”, “Eu desenrasco-me bem sozinho” ou “Não gosto de dramas”. Por trás desta atitude, na maior parte das vezes, não está um coração frio, mas sim uma estratégia de autoproteção treinada durante anos.

Quando a proximidade no cérebro se sente como stress

Estudos neuropsicológicos mostram que, em pessoas com estilo de vinculação evitante, o cérebro reage de forma diferente à proximidade emocional. Numa revisão publicada em “Neuroscience & Biobehavioral Reviews”, os investigadores encontraram indícios de um padrão claro:

Reação cerebral Efeito típico
Maior atividade em áreas ligadas à supressão emocional Os sentimentos são rapidamente “arrumados”, racionalizados ou reprimidos.
Menor atividade em centros de recompensa social e empatia O calor humano e a proximidade sentem-se menos agradáveis e, por vezes, até desconfortáveis.

Para quem vive isto, a proximidade deixa de parecer um porto seguro e passa a soar como uma situação em que algo pode correr mal. O corpo e o sistema nervoso entram, sem o perceber, em estado de alerta: batimento cardíaco, tensão muscular, agitação interior - mesmo quando, de fora, não há nada de ameaçador.

Isto ajuda a perceber porque é que algumas pessoas se sentem desconfortáveis em conversas profundas, declarações de afeto ou apoio emocional. Recuam, mudam de assunto, tornam-se irónicas ou agarram-se de repente a algo “importante”, como o trabalho ou a casa.

Porque é que os conselhos padrão para amizades tantas vezes falham

Os guias de autoajuda costumam soar ao lema: “Sai mais, sê mais aberto, inscreve-te em associações.” Esse tipo de conselho pode ajudar quando alguém simplesmente tem poucas oportunidades de contacto - por exemplo, depois de uma mudança ou de uma separação.

Num estilo de vinculação evitante, porém, o problema está noutro lugar. Não se trata de saber se a pessoa encontra outros seres humanos. Trata-se de perceber se ela consegue, ou não, suportar a proximidade.

Não é a falta de encontros que está em causa, mas sim a luta interior quando uma relação se torna profunda e vinculativa.

Os conflitos internos típicos em relações próximas podem ser estes:

  • O desejo de proximidade - e, ao mesmo tempo, a necessidade de manter distância.
  • O medo de ser controlado ou engolido pela relação.
  • A preocupação de voltar a ser desiludido no fim.
  • A sensação de que as próprias necessidades são “demasiadas” ou “incomodativas”.

A consequência é que os contactos permanecem muitas vezes num nível seguro e prático. Fala-se de trabalho, passatempos, notícias, mas não de vergonha, medo, saudade ou feridas. Assim, a vida social parece cheia, mas a verdadeira ligação continua rara.

Como os afetados podem reconhecer o seu estilo de vinculação

Nem toda a pessoa independente tem automaticamente um estilo de vinculação evitante. Ainda assim, há sinais que se repetem com frequência. Muitas pessoas afetadas contam, por exemplo:

  • “Se alguém se aproxima demasiado de mim, preciso logo de mais espaço.”
  • “Sinto-me rapidamente encurralado, mesmo quando a outra pessoa só quer ser simpática.”
  • “Tenho a sensação de que, a longo prazo, não posso confiar em ninguém.”
  • “Estou lá para os outros, mas quando sou eu a ficar fraco, afasto-me.”
  • “Muitas vezes nem sei o que é que realmente preciso ou sinto.”

Alguns só se apercebem disto nas relações amorosas, outros no círculo de amizades ou no contacto com os próprios filhos. Muitas vezes, salta à vista o contraste: no trabalho, estas pessoas funcionam na perfeição; na vida privada, a distância volta a surgir.

É possível aprender a voltar a permitir a proximidade?

Um estilo de vinculação evitante não é um destino que tenha de ser aceitado tal como está. É um padrão aprendido - e aquilo que foi aprendido também pode, com tempo e apoio, ser parcialmente reaprendido.

Passos úteis podem ser:

  • Aprender a nomear emoções: muitas pessoas começam quase do zero e treinam de forma concreta o reconhecimento e a expressão das emoções.
  • Escolher conscientemente pessoas de confiança: em vez de se abrir completamente em todo o lado, escolher de forma seletiva uma ou duas pessoas com quem seja possível um pouco mais de honestidade.
  • Pequenas doses de proximidade: em vez de contar logo tudo, avançar devagar - por exemplo, partilhar primeiro uma insegurança, depois um medo.
  • Apoio terapêutico: abordagens orientadas para a vinculação ou a terapia do esquema são particularmente eficazes para tornar visíveis os padrões antigos.

O caminho costuma parecer estranho. Muitas pessoas sentem, no início, ainda mais stress ao falar de emoções ou ao aceitar ajuda. Com o tempo, o sistema nervoso vai registando novas experiências: “Abri-me - e não fui rejeitado nem ridicularizado.” São precisamente estas vivências que criam a base para amizades mais profundas.

Porque é que as pessoas “fortes” são muitas vezes as mais solitárias

No dia a dia, a autonomia é frequentemente celebrada. Quem tem tudo sob controlo, não precisa de ninguém e nunca pede apoio recebe depressa reconhecimento. O problema é que esta admiração social muitas vezes encobre o quão sozinhas estas pessoas se sentem.

São elas que ficam acordadas durante a noite sem telefonar a ninguém. Que funcionam em crise, em vez de desmoronar - e depois ficam exaustas, sem que ninguém repare. Muitas nunca aprenderam que a verdadeira força também significa poder mostrar-se quando se está frágil.

Termos como estilo de vinculação ou estratégias de proteção emocional podem soar secos, mas referem-se a cenas muito concretas do quotidiano: quem é que passa a noite de Natal sozinho na sala, apesar de ter uma lista de contactos bem preenchida? Quem é que escreve a mensagem “Liga se precisares de alguma coisa”, sem nunca pedir nada para si? É precisamente aqui que se vê o que foi aprendido cedo na vida adulta - e onde a mudança pode começar lentamente.

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