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Pneus desportivos fazem diferença? Usámos 1265 cv para descobrir

Carro desportivo cinzento metálico com design aerodinâmico em garagem moderna com vista para cidade.

Durante muitos anos, a conversa em torno dos automóveis de alta performance girou quase sempre à volta dos mesmos temas: potência, aceleração, tração, suspensão e aerodinâmica. Os pneus ficaram, muitas vezes, para segundo plano, encarados como um simples “consumível” - relevante, sim, mas raramente visto como decisivo.

No entanto, a realidade está longe de ser essa. Os pneus suportam uma parte enorme da responsabilidade pelos resultados de um automóvel, da segurança ao comportamento dinâmico. E quando chega a altura de pedir mais de um carro, é precisamente aí que as diferenças entre um pneu desportivo e um pneu convencional deixam de ser teóricas para se tornarem óbvias.

Para perceber melhor essa diferença, fomos até ao Mercedes-Benz World, uma pista de testes no Reino Unido, onde tínhamos à disposição os SportContact 7 da Continental, o pneu desportivo da marca que venceu todos os testes independentes em que participou em 2023 e 2024, e dois desportivos, com uma potência total combinada de 1265 cv:

  • O Mercedes-AMG C 63 S E Performance, um híbrido plug-in com 680 cv e uns impressionantes 1020 Nm de binário, disponíveis quase instantaneamente;

  • E o SL 63 4MATIC+, um desportivo de tração integral, com 585 cv enviados às quatro rodas.

O objetivo não era comparar marcas nem procurar tempos, mas sim perceber de que forma um pneu desportivo reage quando é sujeito a esforço real.

A ciência da aderência

A explicação começa na base da condução: a aderência. A única ligação entre um automóvel e o asfalto resume-se a quatro áreas com um tamanho aproximado ao da palma de um postal. É nessas zonas que se concentram todas as forças geradas pelo motor, pela travagem, pela direção e pelo próprio peso do carro.

Os pneus são concebidos para diferentes compromissos: conforto, desempenho desportivo, menor ruído, eficiência e/ou durabilidade. Na maioria dos pneus, os compostos de borracha têm como prioridade oferecer uma performance mais equilibrada para a utilização diária.

Num pneu desportivo, essas prioridades assumem outra escala. O composto específico torna o pneu mais aderente, pensado para funcionar melhor à medida que aquece. No caso do SportContact 7 da Continental, esse comportamento é conseguido através do composto BlackChili, desenvolvido para aumentar o coeficiente de atrito conforme a temperatura sobe.

Transformar binário em movimento

Em linguagem simples, quanto mais exigimos do carro, mais o pneu consegue corresponder, em vez de perder eficácia. É por isso que, num arranque forte como um launch control com o C 63, a potência se transforma em progresso real, com muito menos patinagem do que seria expectável se estivéssemos a usar um pneu sem características desportivas.

Mas a aderência não depende apenas da borracha. A estrutura interna do pneu também é determinante. Isto porque, a velocidades elevadas, entram em cena forças adicionais. Existe maior carga vertical, transferência de peso e até pequenas oscilações laterais provocadas pela aerodinâmica. Se o pneu tiver flancos demasiado flexíveis, essas forças fazem-no deformar-se, obrigando o condutor a corrigir constantemente a trajetória.

O SportContact 7 utiliza uma carcaça reforçada precisamente para reduzir essa deformação. O resultado é um comportamento mais neutro, uma direção mais precisa e um automóvel que se mantém na trajetória com menos esforço de quem está ao volante.

Segundo a Continental, o SportContact 7 melhorou a distância de travagem em até 8% em piso molhado e cerca de 6% em piso seco face ao modelo anterior. São ganhos que resultam da evolução contínua do produto. Em estrada ou em pista, estes números traduzem-se em metros e, a velocidades elevadas, são metros que podem fazer toda a diferença.

Sabe fazer drift?

Outro aspeto frequentemente ignorado é a forma como o pneu perde aderência. Em condução no limite, especialmente em exercícios como o drift, não basta apenas ter um bom nível de aderência.

É essencial que a perda de aderência aconteça de forma progressiva e previsível, sendo que os pneus sem vocação desportiva tendem a atingir o limite de forma mais brusca.

Num pneu desportivo, essa transição é mais gradual. O SportContact 7 foi desenvolvido para libertar aderência de forma controlada, permitindo ao condutor sentir o limite antes de o ultrapassar por completo.

No C 63, em modo drift e apenas com tração traseira, isso traduz-se num drift mais fácil de modular e numa recuperação de tração mais suave. Já no SL 63, o desafio aumenta, porque a tração integral obriga o pneu a lidar ao mesmo tempo com forças laterais e longitudinais - aquilo a que, em física, se chama forças combinadas.

Peso dos carros é um problema com solução

Há ainda outro ponto importante: a capacidade de lidar com automóveis cada vez mais pesados e mais potentes. Modelos como o C 63 S E Performance, com sistema híbrido plug-in, exercem cargas bastante superiores ao habitual sobre os pneus.

Por isso, os pneus desportivos recorrem a índices de carga e de velocidade mais elevados. No caso do SportContact 7, existem medidas com índice de velocidade “Y”, certificadas para velocidades superiores a 300 km/h, algo que vai muito além daquilo que um pneu convencional foi pensado para suportar de forma repetida e segura.

Maior performance e mais durabilidade

Mesmo com todo este foco na performance, a evolução tecnológica permitiu também melhorar a durabilidade. Face ao modelo anterior, o SportContact 7 oferece até 17% mais quilometragem, atenuando uma das limitações habituais dos pneus desportivos. Continua a não ser um pneu pensado para maximizar a longevidade, mas consegue preservar as suas características durante mais tempo, mesmo sob utilização exigente.

No final, a resposta à pergunta inicial torna-se evidente: os pneus desportivos fazem diferença. Não porque tornem um carro automaticamente mais rápido, mas porque lhe dão mais controlo, mais previsibilidade e maior capacidade de resposta quando é colocado sob esforço. A diferença está no composto, na estrutura, no comportamento térmico e na forma como o pneu lida com forças extremas.

Num automóvel de alta performance, o pneu deixa de ser um pormenor e passa a assumir um papel central na experiência de condução.

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