Do Mercedes-AMG One já se escreveu (quase) tudo, mas quanto mais detalhes surgem sobre este hipercarro, mais evidente fica a escala do desafio que foi torná-lo realidade.
Com tecnologia diretamente transferida do monolugar campeão de Fórmula 1 em 2016, o Mercedes-AMG One é o resultado de anos de desenvolvimento, de soluções fora do comum e de uma boa dose de coragem.
Houve um momento em que a sua concretização parecia, pura e simplesmente, inalcançável. Ainda assim, a equipa da AMG manteve-se firme. O desfecho? Um dos projetos automóveis mais relevantes do séc. XXI, que tivemos oportunidade de ver de perto no Porto, nas instalações da Sociedade Comercial C. Santos.
Este não é só mais um modelo de edição especial: é o Mercedes mais caro de sempre em Portugal e um programa de engenharia que obrigou a Mercedes-AMG a ir muito para lá do terreno conhecido.
Um projeto que quase não aconteceu
A prova disso está no processo de nascimento, tudo menos pacífico, que acabou por se transformar num verdadeiro pesadelo técnico e… financeiro. Antes de lá chegar, importa voltar a 2017, ao Salão de Frankfurt, na Alemanha, onde a Mercedes-AMG revelou o Project One.
Foi este o nome escolhido pela marca de Affalterbach para um protótipo com uma meta muito concreta: colocar num automóvel homologado para a estrada o mesmo motor usado pelos monolugares da AMG na Fórmula 1.
Como seria de esperar, a estreia causou impacto e ajudou a redefinir o patamar seguinte no universo dos hipercarros. Ainda assim, e contra todas as expectativas, nos anos seguintes quase não se voltou a ouvir falar do Project One.
Apenas cinco anos mais tarde, em 2022, surgiu finalmente a versão de produção - e hoje sabemos que, com facilidade, poderia nunca ter chegado a existir. Entre exigências de emissões, calibrações do motor, afinações do programa informático… praticamente tudo complicou o caminho.
Também não surpreende: estamos a falar de uma unidade motriz que, em contexto de competição, costuma exigir uma equipa de 20 engenheiros para operar. Aqui, além do desempenho, tinha de entregar a fiabilidade esperada num automóvel de produção. Só por si, isso já é uma vitória inequívoca da equipa de desenvolvimento.
Números de sonho do Mercedes-AMG One
E já que falamos de mecânica, ela é mesmo o centro de toda a equação: o V6 turbo de 1,6 litros é, na essência, o mesmo bloco que a Mercedes-AMG utilizou na temporada de 2016 da Fórmula 1, mas neste caso trabalha em conjunto com quatro motores elétricos - dois no eixo dianteiro, um ligado diretamente à cambota e outro integrado no turbocompressor.
Para se perceber o nível de complexidade, basta um dado: cada motor tem de ser desmontado e inspecionado nas oficinas da AMG em Brixworth, no Reino Unido, ao fim de 50 mil quilómetros.
Em contrapartida, o que entrega em estrada é difícil de igualar: 0 aos 100 km/h em 2,9s, 0 aos 200 km/h em 7s e 0 aos 300 km/h em 15,6s. A velocidade máxima? Limitada aos 352 km/h.
Para alcançar estes valores, o sistema de propulsão do AMG One debita uma potência máxima de 1063 cv, sendo que o V6 a gasolina contribui com 574 cv - um número notável para um motor com apenas 1,6 litros.
Já a autonomia em modo 100% elétrico (sim, é um híbrido de carregamento externo) fica-se pelos 18 quilómetros. Mas, sejamos honestos: quem compra um AMG One para o conduzir sem acordar o V6? Não. Claro que não.
Aerodinâmica é chave
Tão determinante quanto o motor é a aerodinâmica trabalhada ao detalhe pela Mercedes-AMG. Com aerodinâmica ativa, a carroçaria do AMG One adapta-se de imediato: quando se procura mais força descendente para atacar curvas, as alhetas nas cavas das rodas abrem e trabalham em conjunto com a enorme asa traseira; em reta, esses elementos recolhem para reduzir ao máximo a resistência ao avanço.
Além disso, consoante o modo de condução selecionado, a altura ao solo pode baixar 37 mm à frente e 30 mm atrás. Na configuração aerodinâmica mais extrema, o AMG One consegue gerar mais de 1000 kg de força descendente.
Do motor à aerodinâmica, passando por um habitáculo simples, mas revestido a Alcantara e fibra de carbono, sem esquecer os travões carbocerâmicos, o elaborado sistema de vetorização de binário e até a embraiagem de competição, tudo neste AMG One foi desenhado com um único objetivo: rendimento.
Basta lembrar que o AMG One é, neste momento, o automóvel de produção mais rápido no Nürburgring, com o registo de 6min29,09s.
Apenas 275 unidades
E, como seria inevitável, o Mercedes-AMG One tem um preço à altura do que entrega: 2,5 milhões de euros, antes de impostos. A produção está limitada a 275 unidades - e todas ficaram reservadas ainda antes de o carro ser oficialmente anunciado.
Isto diz muito sobre o que este hipercarro simboliza. Quem o compra não está apenas a adquirir um automóvel; está a garantir um pedaço de história. E, tendo em conta a conjuntura atual, é difícil imaginar que volte a surgir algo semelhante no futuro.
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