Três congressos, três passagens pelo plenário. Depois de, em 2022, se ter deslocado a Guimarães para apoiar Nuno Melo na sua primeira candidatura à liderança e de, em 2024, ter ido a Viseu para reivindicar a “verdadeira direita”, Manuel Monteiro voltou agora à reunião magna do CDS-PP para saudar a recuperação do partido nos últimos anos e afirmar a convicção de que este “saberá trilhar” um caminho em que, mesmo integrado numa coligação, “está sempre preparado para concorrer sozinho”.
Lealdade à AD, sem abdicar da autonomia do CDS-PP
Numa altura em que vozes internas alertam para o risco de o CDS se diluir no PSD - e em que três das moções exigem maior margem de autonomia - o antigo presidente defendeu “lealdade e compromisso” para com a AD. “Quero que este Governo tenha sucesso. Votei na coligação e acredito que tem todas as condições para fazer o bem para o país”, afirmou, ao discursar no 32.º Congresso do CDS.
Ainda assim, deixou uma ressalva: o partido, que já foi “do táxi” quando, em 1987, ficou reduzido a quatro deputados, “nunca deixa de ter as chaves do seu próprio carro no seu próprio bolso para, se necessário, se pôr à estrada e caminhar sozinho”. Para Manuel Monteiro, o CDS não existe “por si próprio”, mas porque sustenta “uma ideia de Portugal”, e é “em nome de Portugal que tem resistido e existido”.
Descontentamento eleitoral e o crescimento do Chega
A olhar para o que vem aí, o antigo líder - que chegou a abandonar o CDS e a fundar outro partido - insistiu na necessidade de o CDS “compreender o descontentamento político e eleitoral de percentagens muito significativas de portugueses” que “sentem - em muitos casos com razão - que o sistema político falhou”. Só assim, acrescentou, será possível “recuperar esses eleitores”, numa alusão evidente ao crescimento do Chega.
Identidade democrata-cristã e posições em temas de valores
Em paralelo, considerou decisivo que o partido não hesite em afirmar a sua identidade, com posições claras em matérias como família, casamento, “complementariedade entre homens e mulheres” e eutanásia. “É natural que nos assumamos conservadores, mas nunca reacionários”, declarou. “Se o CDS quer manter a lógica democrata-cristã, não tem, nunca teve, nem nunca devia ter tido qualquer hesitação neste domínio”, sustentou.
Se alguma vez houve hesitação, disse, tratou-se de uma “nuvem passageira”. Mas deixou um aviso: “em política, há nuvens passageiras que causam estragos e nos fazem perder eleitorado”.
Os “pesos pesados” ausentes e os “pesos leves” presentes
Num congresso marcado por várias referências a figuras ausentes e afastadas do partido, Manuel Monteiro (que se desfiliou em 2003 e apenas voltou a aproximar-se em 2022) sublinhou que têm igual valor os militantes desde a fundação e os que entram agora. “Li que os pesos pesados não vinham ao congresso e pensei: então têm de ir os pesos leves para mostrar que todas as pessoas são importantes e relevantes na vida do partido”, atirou, em tom irónico.
Assumindo-se como “peso leve”, deixou também um recado aos jovens da Juventude Popular: mais do que sonharem ser “assessores de vereadores”, devem ambicionar alargar a base do partido, trazendo mais pessoas. Reforçou que “a política serve para trabalhar pelo bem comum” e que o “poder” deve ser visto como “um meio e não um fim”.
Justiça, educação, saúde e ferrovia: prioridades apontadas
No capítulo da Justiça, defendeu ser urgente identificar a origem dos atrasos que, no seu entendimento, são “um empecilho ao desenvolvimento e que corrói a sustentabilidade do sistema democrático”.
Já na educação e na saúde, alertou para o que classificou como “erro socialista de dar tudo a todos por igual”. Defendeu igualmente a aposta na ferrovia como motor de desenvolvimento e entregou a Nuno Melo dois textos de pessoas ligadas à área política do CDS que, ainda em 1980, já sustentavam a necessidade de alterar a Constituição.
O 32.º Congresso realiza-se este fim de semana, em Alcobaça, com quatro moções em debate e dois candidatos à liderança. Além de Manuel Monteiro, Assunção Cristas foi a única ex-líder a intervir até ao momento. Num vídeo exibido na tarde deste sábado, deixou uma “palavra de grande força e ânimo” a um CDS que considera “bem vivo e com capacidade de ação”. O caminho adiante “obviamente não é fácil, mas vai-se construindo”, concluiu.
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