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Achado em Wijk bij Duurstede: uma peça de navio medieval surge sob o asfalto

Trabalhador de construção com colete e capacete a reparar trincheira numa rua urbana com pedestres ao fundo.

O que começou como uma intervenção de rotina para instalar novas condutas de esgoto acabou por conduzir, em Wijk bij Duurstede, diretamente ao tempo dos Francos, dos mercadores e talvez também dos primeiros homens do Norte. Por baixo do asfalto de uma rua discreta, apareceu uma grande peça de madeira trabalhada, que depressa se revelou parte de uma antiga estrutura naval. Para os arqueólogos, trata-se de um achado que pode alterar de forma significativa a forma como olhamos para o comércio no norte da Europa entre a Alta Idade Média e a Plena Idade Média.

Achado em Wijk bij Duurstede sob o asfalto: como tudo começou num simples estaleiro de obras

O local é “De Promenade”, em Wijk bij Duurstede, a cerca de 20 quilómetros a sudeste de Utrecht. A câmara municipal está a renovar a rede de saneamento e a criar uma chamada wadi - uma depressão destinada a reter água da chuva. Nada que, à partida, sugerisse uma descoberta extraordinária. Até surgir no solo uma grande tábua de madeira com forma definida.

Danny van Basten, arqueólogo amador e membro da equipa local “ArcheoTeam”, percebe de imediato que aquele pedaço de madeira não pode ser apenas um velho suporte. Informa a autarquia e, pouco depois, chegam ao local especialistas do Museum Dorestad e da Fundação para Navios Históricos.

Ao ser exposta, a peça revela-se com cerca de 3,20 metros de comprimento e aproximadamente 30 centímetros de espessura. Na superfície vêem-se entalhes, recortes e uma curvatura acentuada. Para os especialistas em construção naval, tudo isto aponta para uma chamada caverna ou tábua de armação - uma espécie de costela que dá forma ao casco de uma embarcação.

De uma alegada estaca de árvore passa-se a uma possível costela de navio - e, com isso, a uma peça-chave de uma embarcação medieval.

Um construtor naval experiente, ouvido pela televisão neerlandesa, considera que o trabalho na madeira pertence claramente a uma estrutura de casco. De um “qualquer pau” passou, assim, a um possível fragmento da história da navegação.

Arqueólogos em modo de emergência: salvar antes que a madeira se desfaça

A arqueóloga municipal Anne de Hoop assume a coordenação. Sabe que madeira conservada durante séculos em solo encharcado pode rachar e deformar-se em poucas horas se secar demasiado depressa.

Por isso, entra em ação um plano de emergência bem definido:

  • remoção cuidadosa da madeira por todos os lados
  • apoio estável e levantamento da peça inteira
  • embalo imediato em cobertura húmida
  • transporte para um depósito com temperatura e humidade controladas
  • processo de limpeza gradual e cauteloso

Só depois desta limpeza é possível analisar em detalhe as marcas de ferramenta, o tipo de madeira, a técnica de trabalho e possíveis vestígios de outros elementos construtivos. Em paralelo, laboratórios especializados preparam uma análise dendrocronológica, ou seja, uma datação através dos anéis de crescimento da madeira.

Dorestad: no centro da história comercial da Alta Idade Média

O local do achado torna a situação ainda mais relevante. Wijk bij Duurstede situa-se na área da cidade mercantil de Dorestad, do início da Idade Média. Entre os séculos VII e IX, este lugar foi um dos principais centros de distribuição do norte da Europa.

Dorestad ficava no Reno e tinha acesso direto ao Mar do Norte. Ali cruzavam-se:

  • vias fluviais para o reino dos Francos e para o sul da Alemanha
  • rotas marítimas em direção à Bretanha e à Escandinávia
  • itinerários comerciais para os mercados frísios e francos

Troçavam-se cerâmicas, tecidos, objetos de metal, vidro, vinho, peles e joalharia. Quem controlava o porto, controlava os impostos, as cadeias de abastecimento e as alianças políticas. A região era, por isso, altamente sensível não só do ponto de vista económico, mas também em termos de poder.

Uma única caverna de navio transforma-se, em Dorestad, numa prova num grande processo sobre poder, dinheiro e mobilidade na Alta Idade Média.

Fontes históricas indicam que guerreiros escandinavos atacaram repetidamente as costas do atual território dos Países Baixos a partir do início do século IX. Para o ano de 834, está registado um ataque a Dorestad. Se o navio encontrado tem ligação com esse período de conflito continua por esclarecer - mas a localização na antiga zona portuária torna essa hipótese particularmente interessante.

Entre a época dos Francos e a Liga Hanseática: duas interpretações concorrentes

Os investigadores trabalham atualmente com dois cenários principais, separados entre si por cerca de 500 anos.

Hipótese 1: navio da época carolíngia

Muitos indícios apontam, numa primeira leitura, para uma datação na época carolíngia, isto é, aproximadamente entre 700 e 900. Esta fase inclui:

  • o auge de Dorestad como entreposto
  • os primeiros contactos e conflitos com populações da Escandinávia
  • achados arqueológicos associados, como cerâmica desta época

Neste cenário, poderia tratar-se de um navio mercante que transportava mercadorias ao longo do Reno e através do Mar do Norte. Ou de uma embarcação ligada a medidas de defesa, movimentações militares ou ataques. Se o casco foi construído segundo tradição escandinava ou franca, isso terá de ser demonstrado por pormenores da construção: espessura das tábuas, ligações, espaçamento das cavernas, formato da quilha.

Hipótese 2: parte de uma coca medieval

Anne de Hoop insiste que é preciso prudência. A forma da madeira também pode corresponder a uma coca - um navio mercante típico do século XIII, frequentemente associado à Liga Hanseática. As cocas tinham bordos altos, transportavam muita carga e marcaram o comércio do Mar do Norte e do Báltico na Plena e na Baixa Idade Média.

Se a caverna fizer parte de uma construção deste tipo, o foco altera-se: já não se trataria tanto do início dos contactos com os escandinavos, mas de uma fase posterior, em que Dorestad, ou os seus povoados sucessores, estavam integrados numa rede muito alargada de cidades e mercadores.

Variante Período Possível significado
Navio carolíngio cerca de 700–900 Comércio de longa distância na Alta Idade Média, zona de contacto com escandinavos
Coca cerca de 1200–1300 Comércio urbano e de grandes volumes na Plena Idade Média, antecâmara da Liga Hanseática

Dendrocronologia: o que os anéis de crescimento deverão revelar

Para que os dois cenários não fiquem a girar em círculo, a investigação precisa de dados sólidos. Idealmente, esses dados virão da dendrocronologia. Neste método, os especialistas comparam a sequência dos anéis de crescimento da madeira com curvas de referência de árvores conhecidas de várias regiões e épocas.

Dessa comparação pode inferir-se:

  • em que década a árvore foi abatida
  • se a madeira provém da região imediata ou de outra área
  • quais as condições climáticas durante o período de crescimento

Se os anéis estiverem bem preservados e existirem dados de referência suficientemente densos, a data do abate pode ser delimitada com uma precisão notável - por vezes, a poucos anos. Combinando isso com o estilo de construção, a camada arqueológica e os materiais associados, obtém-se uma leitura histórica muito mais precisa.

Mais do que saques: o que o achado diz sobre o quotidiano no mar

Já hoje, esta costela de madeira mostra até que ponto a vida quotidiana e a economia medieval dependiam da água. Os navios eram os camiões e os cargueiros da época. Quem pretendia transportar mercadorias de forma rápida e relativamente segura recorria aos rios e às linhas costeiras.

Uma caverna preservada pode revelar, por exemplo:

  • para que profundidades de água a embarcação foi pensada (fundo mais chato para rios, casco mais fundo para navegação marítima)
  • que cargas estavam previstas (cavernas fortes e próximas entre si para carga pesada)
  • que tipos de madeira e ferramentas foram utilizados

Nas marcas de um machado e na curvatura de uma tábua cabe muitas vezes mais história do quotidiano do que numa crónica régia inteira.

No imaginário público, os homens do Norte são frequentemente vistos apenas como saqueadores. Os historiadores, porém, sublinham há muito que o comércio, o artesanato e a mobilidade eram igualmente importantes. Se se confirmar uma ligação à fase inicial destes grupos, o achado reforçará precisamente esse aspeto: portos como Dorestad eram centros de circulação de mercadorias, técnicas e ideias - não apenas alvos de ataque.

Do fosso da obra para o museu: como o público poderá acompanhar

O Museum Dorestad já indicou que a peça de madeira deverá ser exposta depois de concluídas as análises. Uma apresentação deste tipo torna a história mais concreta. Em vez de ver apenas mapas com setas sobre rotas comerciais, o visitante ficará perante uma peça maciça, castanha-escura, de uma costela de navio que, até há pouco, estava enterrada no meio de uma rua atual.

Sobretudo para escolas e famílias, aqui abrem-se várias possibilidades: as crianças poderão estimar as dimensões de uma embarcação medieval, reconhecer a estrutura da madeira e, com modelos, perceber como se constrói um casco. As visitas guiadas poderão acompanhar o percurso do achado - da pá mecânica ao laboratório e daí para a vitrina.

O que este achado muda na nossa visão da Idade Média

Achados fortuitos como este lembram uma verdade importante: as grandes redes comerciais não são invenção da modernidade. Já na Alta Idade Média, rios como o Reno ligavam regiões separadas por centenas de quilómetros. Dorestad foi uma espécie de centro logístico muito antes de existir a expressão.

Quem quiser aprofundar o tema encontra rapidamente alguns conceitos centrais:

  • Caverna: costela curvada no interior do casco do navio, que suporta as tábuas
  • Dendrocronologia: datação e identificação da proveniência através dos anéis de crescimento
  • Coca: navio mercante largo e de um só mastro, típico da Plena Idade Média

Os riscos destes achados estão menos na pá mecânica do que no que acontece depois: um armazenamento inadequado pode destruir estruturas com séculos de idade em pouco tempo. O caso de Wijk bij Duurstede mostra como é importante haver olhos treinados nas obras e cadeias de resposta rápidas, para que de uma tábua de madeira possa nascer uma descoberta-chave para a investigação.

Se no fim se confirmar um navio mercante carolíngio, uma coca posterior ou algo entre os dois, a caverna vinda da pequena cidade neerlandesa obriga investigadores e investigadoras a voltar a analisar mapas, rotas comerciais e datações. E recorda que, por baixo das nossas ruas, continuam a existir muitos capítulos da história, à espera da próxima escavação.

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