Saltar para o conteúdo

Ideia medieval da Holanda: Cada vez mais reformados mudam-se para pequenas aldeias.

Idosos interagem num pátio com casas típicas, plantas em canteiro e cesta com legumes.

Entre o receio da residência tradicional para idosos e a solidão numa moradia unifamiliar, cada vez mais reformados procuram uma terceira solução. Nos Países Baixos e na Flandres, essa via já está bem experimentada: pequenos conjuntos habitacionais, organizados em lógica de vizinhança, acessíveis e sem ambiente de clínica. Agora, esta ideia está a atravessar para França - e pode também transformar-se numa tendência no espaço germanófono.

O que está por detrás das “beguinagens para seniores”

O modelo tem um nome pouco elegante: beguinagem para seniores. Trata-se de um pequeno bairro residencial com dez a trinta apartamentos, onde pessoas idosas vivem de forma autónoma, mas se ajudam mutuamente no quotidiano.

Cada um tem o seu próprio apartamento - mas ninguém fica sozinho atrás de cortinas fechadas.

Uma beguinagem moderna é considerada uma forma de habitação inclusiva. Os residentes continuam, em regra, bastante independentes, muitas vezes apenas com limitações ligeiras. Não existe assistência permanente, nem corredores de enfermaria, nem carrinhos de refeições nos corredores.

Em vez disso, um coordenador promove actividades em conjunto, passeios ou simplesmente o encontro para café na sala comum. Quem quer participa. Quem precisa de tranquilidade fecha a porta do apartamento - sem qualquer sentimento de culpa.

O modelo histórico da Idade Média

As beguinagens têm origem no século XIII. Nessa altura, ali viviam mulheres, muitas vezes viúvas ou solteiras, em pequenas casas à volta de um pátio ou jardim. Levavam uma vida independente, apoiavam-se umas às outras e, ao mesmo tempo, mantinham-se ligadas à vida da cidade.

Na Bélgica, continuam a existir ainda hoje várias destas estruturas históricas. Treze beguinagens medievais fazem parte do Património Mundial da UNESCO desde o final da década de 1990. Aí percebe-se bem o essencial: uma combinação de privacidade, aconchego e comunidade, concentrada espacialmente em poucos edifícios.

É precisamente essa combinação que os projectos actuais recuperam - apenas pensada de forma totalmente moderna, tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista da construção.

Como é uma beguinagem hoje

As instalações actuais em França parecem mais uma pequena aldeia ou um bairro moderno de moradias em banda:

  • apartamentos ou pequenos estúdios, na maioria ao nível do solo
  • equipamento com poucas barreiras arquitectónicas e duches ao nível do chão
  • janelas e estores fáceis de manusear
  • jardim comum ou pátio interior
  • uma sala polivalente para encontros, ginástica ou festas

Também é importante a localização. Muitas beguinagens não nascem em terrenos isolados, mas sim no meio de um bairro animado. Supermercado, padaria, médico de família e paragem de autocarro devem, sempre que possível, ficar a uma distância acessível a pé. Isso reduz a dependência de familiares e de táxis.

Por detrás destes projectos estão, na maioria das vezes, entidades de habitação social, câmaras municipais ou redes especializadas. Em França, várias iniciativas concentraram-se neste modelo, tratando da construção, do arrendamento e do acompanhamento social dos residentes.

Porque é que este modelo atrai tantos idosos

Quem fala com moradores ouve, repetidamente, os mesmos motivos. Três pontos surgem com especial frequência:

  • Não é uma instituição total: vive-se em regime de arrendamento, os espaços são decorados ao gosto de cada um e decide-se quem entra em visita.
  • Nunca completamente sozinho: uma conversa breve no pátio, almoços em conjunto, noites de jogos - os contactos sociais surgem quase de forma automática.
  • Sensação de segurança: em caso de necessidade, a vizinhança repara se alguém não abre os estores durante vários dias. Muitos sentem-se assim muito mais tranquilos.

Muitos moradores dizem: “Ainda vivo em casa - mas já não estou entregue a mim próprio.”

Para filhos e netos, isso pode ser um alívio. Sabem que a mãe ou o avô não está isolado nos arredores da cidade, sem ninguém a quem recorrer e sem participação social.

Custos: muito mais baratos do que a residência tradicional

Outra razão para o sucesso está no preço. Enquanto um lugar numa residência para idosos pode rapidamente custar vários milhares de euros por mês, as rendas nas beguinagens em França situam-se, na maioria dos casos, ao nível de uma habitação normal.

Valores típicos de projectos actuais:

Área útil Renda mensal (incl. despesas)
cerca de 45–55 m² cerca de 320–500 euros
cerca de 55–65 m² cerca de 450–750 euros

A isto soma-se, normalmente, uma taxa moderada para o coordenador, que trata da organização. No total, os custos ficam bastante abaixo do que muitos lugares em lares cobram.

Em França, os idosos podem recorrer a várias ajudas estatais, como subsídio de habitação e apoios para cuidados ou vida em comunidade. Isso torna os apartamentos especialmente interessantes para pessoas com pensões mais baixas.

Quem pode mudar-se - e quem não pode

Os projectos destinam-se, antes de mais, a reformados que ainda conseguem viver de forma relativamente autónoma, por vezes com limitações ligeiras. Pessoas com necessidades intensivas de cuidados esbarram aqui rapidamente nos limites do modelo, uma vez que não existe assistência permanente no local.

O acesso a uma beguinagem faz-se, na maior parte dos casos, através de:

  • autarquias e serviços sociais
  • cooperativas de habitação de cariz social ou religioso
  • associações e entidades especializadas

Os interessados preenchem um pedido de arrendamento normal, entregam comprovativos de rendimentos e, em alguns casos, uma avaliação do seu grau de autonomia. Em certas regiões, as listas de espera já são longas, o que mostra o quanto a procura está a crescer.

Também poderá isto tornar-se um modelo para o espaço germanófono?

Muitos debates por cá giram em torno da falta de profissionais de cuidados, dos lugares em lares e do aumento dos custos. O modelo das beguinagens aborda um problema diferente: a solidão crescente na velhice, sobretudo em zonas rurais e nos subúrbios com bairros de moradias unifamiliares envelhecidos.

Para os municípios, abrem-se várias oportunidades:

  • os cidadãos mais velhos permanecem na localidade, em vez de irem para um lar longe de casa
  • grandes moradias unifamiliares ficam disponíveis e podem ser arrendadas ou vendidas a famílias
  • os centros das localidades mantêm-se vivos, porque os idosos continuam a recorrer ao comércio local

O modelo pode dar aos seniores um novo lar - e insuflar nova vida nas aldeias.

Do ponto de vista do direito da construção, uma beguinagem assemelha-se a um bairro habitacional normal. O carácter especial nasce sobretudo da dimensão, da localização e do acompanhamento social. É precisamente aqui que cidades, freguesias e associações de solidariedade poderiam intervir em conjunto.

Oportunidades, limites e questões práticas

Naturalmente, uma beguinagem não resolve todos os problemas do envelhecimento. Quem, mais tarde, ficar com forte dependência de cuidados vai precisar, em algum momento, de apoio mais alargado. Por isso, faz sentido uma ligação estreita a serviços de cuidados ao domicílio, médicos e terapeutas na zona. Assim, parte dos cuidados pode ser levada até casa, sem necessidade de mudar de residência.

Há ainda outro ponto: a comunidade também pode ser exigente. Quem evita conflitos ou tem dificuldade em fazer cedências pode sentir desconforto com tanta proximidade. Por isso, muitos gestores recorrem a encontros de apresentação e a regulamentos internos claros para alinhar expectativas.

Para os familiares, vale a pena observar com atenção: a localização é adequada? A mãe sentir-se-ia bem ali? Existem espaços suficientes para se retirar? Uma visita no local diz, muitas vezes, mais do que qualquer brochura de aspeto luxuoso.

O que seniores e famílias já podem fazer hoje

Quem achar o conceito apelativo pode dar os primeiros passos:

  • perguntar na câmara municipal ou na freguesia por projectos existentes ou previstos
  • falar com vizinhos ou conhecidos da mesma idade sobre a ideia de viver em conjunto
  • chamar a atenção de cooperativas de habitação para este tema
  • avaliar a própria situação habitacional: a casa continua realmente adequada para a idade?

Em França, o número de beguinagens cresce ano após ano. No espaço germanófono, o modelo ainda parece exótico. Mas o ponto de partida é semelhante: uma sociedade envelhecida, falta de pessoal de cuidados, muitos seniores sozinhos. A ideia medieval vinda dos Países Baixos toca, assim, numa necessidade muito actual - e pode deixar de ser apenas uma nota curiosa de rodapé.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário