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Como registar experiências de viagem para guardar memórias que vão além das fotografias

Homem jovem a escrever num caderno num café, com mapa e objetos sobre a mesa de madeira.

Pequenos quadrados arrumados de céus, pratos e sorrisos, percorridos em silêncio no comboio de regresso a casa, e ainda assim os dias parecem finos quando olho para eles. Numa viagem recente, percebi que tinha guardado a vista do terraço, mas não a gargalhada que partilhei com o homem que me emprestou o isqueiro, nem o chocalhar do elétrico velho, nem o pânico quando a chuva começou a cair de lado. As fotografias estavam bonitas, mas a melhor história estava na minha cabeça. Comecei a perguntar-me o que valeria a pena guardar para me devolver a sensação, e não apenas a imagem. O que poderia eu captar que continuasse a vibrar quando a mala já estivesse de novo debaixo da cama?

O dia em que as minhas fotografias me falharam

Em Lisboa tirei duzentas fotografias em três dias e esqueci-me do sabor daquele primeiro café expresso que me deu uma pequena trovoada no peito. Lembro-me das ruas de azulejo, claro, mas a fotografia não trazia o eco da guitarra de um músico de rua, nem o cheiro da pedra húmida depois de um aguaceiro repentino. Todos já passámos por esse momento em que o carrossel de imagens começa a desfocar-se e uma tarde inteira fica reduzida a um clique e a um deslizar de dedo. A câmara deixou os contornos nítidos e tudo o resto ficou esbatido.

Quando cheguei a casa, abri o álbum e não senti nada além de uma distância suave, bonita. A câmara guardou as formas; o meu corpo guardou o dia. Foi nesse espaço entre essas duas verdades que comecei a colecionar de outra maneira. Não decidi de um dia para o outro tornar-me uma pessoa dos álbuns de recortes ou andar com um diário de capa de couro como uma personagem de cinema. Só queria guardar a matéria viva, as partes que ainda puxam um bocadinho pelo peito quando voltamos a pensar nelas.

Guardar a maneira como os lugares soam

Comecei pelo som, porque o som é o que mais tarde nos apanha de surpresa. Um clip de vinte segundos no telemóvel, com vozes de café e chávenas a tilintar, leva-me de volta a uma cadeira de plástico em Atenas mais depressa do que qualquer fotografia de pôr do sol. As passadeiras têm o seu próprio ritmo; certos avisos em certas cidades vêm quase com uma melodia. Um lugar não é silencioso, tem banda sonora, e uma gravação minúscula consegue guardar essa pauta.

A regra dos 20 segundos

A minha regra passou a ser simples: uma vez por dia, nunca mais de vinte segundos. O ronco do motor de um ferry. O gás de uma cerveja a abrir. O coro de motorizadas a desfazer-se ao cair da noite. É curto o suficiente para nunca parecer uma obrigação e forte o bastante para, meses depois, quando se ouve, os ombros baixarem e o cérebro dizer: sim, ali. O som é o caminho mais rápido de volta a um lugar.

Guardo os clips numa pasta com o nome da viagem, cada um com uma nota: “manhã no mercado” ou “quarto com janela a meter água”. Não me preocupo com a qualidade. O vento pode ladrar para o microfone. Alguém pode tossir. Essa desarrumação faz parte. Quando ouvimos de novo, escutamos o que realmente ouvimos, não uma versão polida, e a memória gosta dessas arestas.

Notas pequenas que envelhecem bem

No avião para Nápoles arranquei uma folha de um caderno e escrevi três linhas todas as noites. Só três, nada mais. Um detalhe, um cheiro, uma frase dita por alguém. O hotel tinha laranjas num balde ao lado do elevador. A empregada chamou-me “amore” e enfiou-me um guardanapo na mão como se fosse uma conspiração. Um cão com uma orelha só acompanhou-me até à praça. Comecei a escrever três pequenas linhas à noite, e isso mudou tudo.

Sejamos honestos: ninguém faz isto mesmo todos os dias. Há noites em que estamos cheios de vinho ou de sol, ou dos dois, e a única coisa possível é lavar a cara e cair de lado na cama. Está tudo bem. Eu recupero de manhã, ou no comboio para a paragem seguinte. O truque é manter tudo pequeno e concreto. Não “cidade bonita, pessoas simpáticas”, mas “hortelã nos meus dedos por causa do lojista que insistiu que eu a cheirasse antes de a comprar”.

Esses pedaços ficam mais ricos quanto mais tempo passa desde a viagem. Achamos que nos vamos lembrar do nome exato daquela rua, e talvez durante algum tempo até nos lembremos. Mas o detalhe importante é a mesa que abanava, a estação de rádio que passou a mesma música duas vezes, a forma como a minha amiga viu o reflexo na janela do comboio, não gostou, e depois se riu. Os nomes podem procurar-se. O ambiente não se pesquisa no Google. É isso que as três linhas mantêm vivo.

Desenha por onde os teus pés passaram

Eu não sei desenhar - ou pelo menos é isso que digo a mim mesmo - e talvez por isso esta parte seja ainda melhor. Compro um mapa de papel barato, se encontrar, ou então esboço no caderno uma forma tremida do bairro e traço os meus percursos com uma caneta. Não todas as curvas, só a espinha do dia. Estação até padaria até rio até ponte até bar com toldo azul. Uma vez, como a loja de mapas estava fechada, desenhei uma costa vacilante de memória e marquei com uma estrela o sítio onde comi os melhores pêssegos da minha vida.

Sentimentos no mapa

Ao longo da linha acrescento notas mínimas: onde discutimos, onde o empregado nos chamou de volta porque deixámos um cachecol, onde quase chorei de cansaço e um desconhecido me ofereceu o lugar. Não são grandes histórias, apenas alfinetes. Mais tarde olho para o mapa e vejo o dia como um percurso, e não como uma galeria de imagens paradas. Há qualquer coisa na linha desenhada que transforma a viagem numa coisa vivida. Dá para ver o embalo, os desvios, a parte em que voltámos atrás porque a vista puxou por nós.

Provas que se podem tocar

As fotografias não arranham nem vincam. Vivem arrumadas. E isso é tanto a sua força como a sua maldição. Eu levo um envelope na mala para as provas suaves: bilhetes de elétrico, um cartão de visita, um folheto dobrado, um guardanapo de papel com um coração a lápis desenhado por um empregado aborrecido. Estas coisas trazem textura, trazem o ligeiro açúcar de um bolo num invólucro, trazem a mancha de protetor solar onde antes esteve o meu polegar. O toque acorda a memória de maneiras que um ecrã nunca consegue.

Eu não faço arte. Limito-me a despejar estas relíquias numa caixa rasa quando chego a casa e, às vezes, colo algumas numa página com uma data. O importante é a sensação de as remexer meses depois e, de repente, ouvir a senhora da paragem de autocarro a dizer-me que eu estava a andar no sentido errado. Se não guardasse mais nada, um único recibo com a letra do empregado faria mais por mim do que uma dúzia de horizontes perfeitos. Pequenos restos carregam salas inteiras.

O sabor viaja melhor do que os píxeis

A primeira semana depois de voltar de viagem é o momento ideal. É quando vou a uma mercearia e tento recriar um petisco que provei noutro lugar. Amendoins com malagueta e lima. Um queijo macio que nunca sabe exatamente ao mesmo. Um chá com cheiro a terra molhada e chuva limpa. Cozinho um prato simples da maneira como vi uma mulher de mãos cansadas mexê-lo numa banca de rua, e de repente a cozinha transforma-se, por uma noite, noutro país.

Na estrada, peço receitas com um pedido de desculpa e um sorriso. Quase toda a gente partilha qualquer coisa - uma proporção aproximada, um truque. Eu aponto e agrafo ao mapa. Em casa faço-o mal da primeira vez, melhor da segunda. O sabor é uma máquina do tempo que se pode comer. As memórias pousam na boca, o que me parece mais duradouro do que ficarem no ecrã. Quando sirvo o prato a amigos, acrescenta-se uma nova camada: o riso deles, as minhas pequenas alterações, a casa a encher-se de vapor e os vidros embaciados.

Pedir vozes emprestadas

Comecei a entrevistar, com suavidade, as pessoas que conhecia e também a mim mesmo. Nada de formal, sem luzes nem aparato, só um minuto de conversa com o vendedor da banca ou com a rececionista do hostel quando não estavam ocupados. Perguntava-lhes por uma coisa pequena de que gostassem no lugar e que não fosse óbvia para um visitante. “O vento na estrada de trás, depois do cemitério”, disse-me um taxista em Dublin. “A padaria que queima o fundo dos bolos, por isso é que são melhores”, disse uma estudante no Porto. Um lugar revela-se nestas lealdades minúsculas.

Depois faço uma pergunta ao meu eu do futuro numa nota de voz: de que vais sentir saudades? A resposta quase nunca é o que eu esperava. O zumbido baixo do mini-frigorífico do hotel às três da manhã. A maneira como o autocarro abria uma rampa para um carrinho de bebé como se fosse um truque. O facto de o interruptor da luz ter de ser empurrado com jeitinho em vez de ser simplesmente premido. Não são histórias para contar em festas, e talvez por isso sejam perfeitas. Guardam-se para nós, e da próxima vez que estamos cansados numa terça-feira cinzenta, carregamos no play e sentimos o peito a aliviar.

Fazer as memórias reaparecerem, outra vez

As viagens desvanecem-se porque as arquivamos e depois contamos sempre os mesmos dois destaques a toda a gente, enquanto o resto se nos escapa pelos dedos. Eu comecei um pequeno ritual em casa: uma vez por mês, escolho uma caixa de viagem, um mapa ou uma pasta de sons e dou-lhe quinze minutos. Não mais do que isso. Café, uma cadeira, telemóvel em modo de voo. Ouço, leio, toco. A viagem regressa como um amigo que nunca se foi embora, que apenas esteve calado durante algum tempo.

Às vezes escrevo um postal para mim mesmo a partir da viagem que estou a revisitar. “Estavas mais feliz quando tomavas o pequeno-almoço na rua.” “Dormias bem quando andavas até ficares vazio.” Ponho a data antiga e envio-o da minha rua. Chega dois dias depois e alegra-me de uma forma pequena e parva. Passamos tanto tempo a colecionar e quase nenhum a revisitar. Esta pequena disciplina ajuda as recordações a fazerem o seu trabalho.

Levar menos, reparar mais

Tudo isto pode existir de forma leve. Uma pasta com clips, um envelope, um pedaço de papel, uma caneta que escreva. A ideia não é montar um museu; é guardar faíscas. Há um perigo em transformar a viagem num projeto, e digo-o como alguém que já tentou fazer um horário de reflexão e o ignorou ao terceiro dia. Mantém as ferramentas tão simples que te esqueces de que são ferramentas. Assim reparas mais, não menos.

Em plataformas de comboio e em filas, aponto uma linha ou carrego no gravar. Não interrompo jantares por causa de conteúdo. Se tiver de escolher entre viver uma experiência e documentá-la, ganha a experiência. Quanto melhor o dia, menos notas tiro. E depois, quando a vida real volta a fechar-se sobre mim, as pequenas coisas que guardei trazem o dia de volta às escondidas, como moedas soltas encontradas no bolso de um casaco.

Colecionar com cuidado

Nem tudo nos pertence. Pede autorização antes de gravares alguém. Desliga o telemóvel se um momento parecer privado, mesmo que esteja a acontecer em público. As pessoas não são adereços para a tua nostalgia futura. Tira a fotografia da comida, claro, mas lembra-te também da mão que a cozinhou e da história que ela traz, e se essa história não é tua para contar, deixa que o sabor chegue.

Já apaguei clips que me pareceram errados quando os ouvi de novo. A linha entre guardar e tirar é fina, e prefiro cair do lado da delicadeza. Não deixes rasto onde o rasto possa magoar. Traz para casa o que aumenta o teu cuidado pelo lugar, não o teu estatuto. As melhores recordações muitas vezes fazem-nos querer voltar, não por conteúdo, mas por pessoas.

O eco longo

Meses depois de Nápoles encontrei a nota sobre o cão com uma orelha só e consegui ouvir o tilintar das medalhas. O clip áudio do ferry deu-me sono da melhor maneira. Um pequeno mapa com uma linha pontilhada lembrou-me que nos perdemos de propósito e que isso foi bom. O envelope ainda cheirava vagamente a casca de laranja das frutas ao lado do elevador, ou talvez eu tenha inventado isso. De uma forma ou de outra, o dia voltou, morno nas margens.

Esse é o teste. Não saber se a tua grelha de imagens está arrumada, mas se uma terça-feira de março consegue alargar-se durante dez minutos e transformar-se numa tarde larga e risonha noutro país. Não saber se as pessoas carregam em gosto, mas se tu carregas no play e sentes o canto da boca a subir. Viajamos para nos sentirmos vivos, e a forma como guardamos esses dias devia mantê-los vivos. As fotografias ajudam, e eu gosto delas, mas a memória também vive no som, no papel, no rabisco e no sabor. Guarda as partes que respiram, e a viagem nunca acaba verdadeiramente.

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