No dia 28 de fevereiro, os EUA e Israel lançaram uma ofensiva militar contra o Irão, apontando como objetivos assumidos figuras de topo do regime e infraestruturas consideradas estratégicas. Desde esse momento, Teerão respondeu com ataques dirigidos não só ao território israelita, mas também a bases norte-americanas instaladas em países vizinhos do Golfo.
O momento mais crítico surgiu quando o Irão anunciou o encerramento do Estreito de Ormuz (imagem de capa), acompanhado por avisos explícitos a qualquer embarcação que tente atravessar a zona. Apesar de Washington ter negado oficialmente que o bloqueio tenha eficácia real, no terreno o efeito é de bloqueio prático: a navegação na principal artéria do comércio energético global está, na prática, parada.
Embora a escalada tenha menos de uma semana, já se notam impactos nas cadeias de abastecimento, sobretudo no petróleo. E a indústria automóvel já se posiciona para um cenário adverso.
Impacto do bloqueio do Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz é o corredor central por onde escoa o petróleo proveniente do Golfo Pérsico - e funciona como passagem para cerca de 20% do petróleo mundial. Segundo a Alixpartners, atravessam diariamente este estreito mais de 20 milhões de barris de petróleo.
Ainda assim, a relevância de Ormuz não se limita ao crude. Esta rota é igualmente a via de saída mais importante para Gás Natural Liquefeito (GNL), alumínio, matérias-primas usadas na siderurgia e polímeros essenciais (como etileno, polietileno e polipropileno).
No ano passado, já no início do verão, o Estreito viveu um dos períodos de maior tensão geopolítica dos últimos anos. Embora não tenha ocorrido um fecho permanente, a área tornou-se palco de uma escalada militar sem paralelo, depois de ataques cirúrgicos a infraestruturas nucleares iranianas.
Agora, o quadro é descrito como ainda mais preocupante. Na manhã desta terça-feira, 3 de março, o barril já tinha superado os 81 dólares - uma subida de 4,3% -, atingindo o valor mais alto do último ano. Há especialistas a admitir que a cotação pode escalar rapidamente para os 100 dólares, tendo em conta que antes da ofensiva o preço se situava perto dos 72 dólares.
Na Europa, o efeito mais severo sente-se no gás natural: os preços avançaram mais de 50% perante o receio de uma interrupção total do fornecimento de GNL, determinante para a produção de eletricidade e para o aquecimento.
Impacto do Estreito de Ormuz na indústria automóvel
Depois de anos a tentar normalizar cadeias logísticas, o setor automóvel confronta-se com um novo risco de rutura associado ao conflito no Irão. E o impacto não se esgota na fatura dos combustíveis: Ormuz é também um ponto de origem e de passagem de matérias-primas cruciais para fabricar automóveis.
Polímeros, por exemplo, são indispensáveis na produção de componentes automóveis - desde painéis e isolamentos térmicos a para-choques. Com o abastecimento interrompido, os fabricantes antecipam falta de matérias-primas que pode traduzir-se em paragens forçadas nas linhas de montagem na Europa e na Ásia já nas próximas semanas.
Em paralelo, a subida do preço do GNL na Europa e o risco sobre o fornecimento de alumínio fazem disparar os custos de produção, que já estavam sob pressão por via de custos tarifários. Também a componente logística pode agravar-se: com o tráfego marítimo no Estreito a cair quase 70% nesta semana, refinarias na Ásia começaram a procurar alternativas - mas alternativas que encarecem o transporte marítimo à escala global.
O pessimismo já está refletido nos mercados: as ações do setor automóvel foram ontem as que mais perderam, com quedas superiores a 4%. Sem sinais de cessar-fogo no curto prazo e com o presidente dos EUA, Donald Trump, a afirmar que a ofensiva continuará “o tempo que for necessário” - apontando para um conflito de, pelo menos, quatro a cinco semanas - o setor prepara-se para um dos trimestres mais exigentes desta década.
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