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Guimarães acolhe a retrospetiva de Jorge Molder “Come Di (parte I)” no CIAJG

Homem a observar fotografias em preto e branco de mãos e retratos numa galeria de arte.

Em Guimarães, há uma exposição que justifica a deslocação. Apresentada como a primeira grande retrospetiva sistemática dedicada à obra de Jorge Molder - artista-fotógrafo e figura maior da arte contemporânea -, “Come Di (parte I)” abre a nova programação de Miguel Wandschneider, que assumiu a direção artística do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) em junho passado.

Jorge Molder no CIAJG: retrospetiva em dois tempos

A proposta é invulgar na sua conceção. A partir de um arco temporal que abrange trabalho realizado entre 1991 e 2003, a retrospetiva foi pensada em dois momentos: a Parte I, patente até setembro, e a Parte II, marcada para o período entre 26 de setembro e 28 de fevereiro de 2027. Cada etapa funciona, assim, como uma exposição autónoma.

O objetivo é conduzir o visitante a uma imersão prolongada no universo de Jorge Molder, que ao longo de cinco décadas foi consolidando um território visual denso, feito de variações e derivações sobre o mesmo motivo, até compor um corpo de trabalho de escala colossal.

Como explica Miguel Wandschneider - que partilha a autoria da exposição com António Neves Nobre e Jorge Molder -, a divisão em duas partes resultou de uma necessidade prática. “Não queria que esta experiência fosse indigesta, nem para o visitante e espectador mais leigo, ou mesmo para o mais filiado e conquistado. Mesmo assim, e não sendo possível abarcar toda a obra feita ao longo de 50 anos, foi necessário dividir e concentrar o trabalho a partir de uma baliza cronológica que se estabelece entre o primeiro momento em que o artista começou a apropriar-se da sua figura como objeto de representação para encenar um personagem abstrato e insondável, trabalhado em múltiplas séries até ao momento em que deixou de usar o analógico, passando a recorrer ao digital operando a partir de então mudanças significativas no seu corpo de trabalho.”

Durante cerca de quatro meses, os curadores - sempre em proximidade com o artista-fotógrafo - atravessaram um espólio vastíssimo, retomando e dando palco a diferentes séries, reordenando sequências, redesenhando percursos e construindo composições temáticas que agora se apresentam numa montagem particularmente apurada.

Parte I

Títulos, ficção e o jogo de “Come Di”

Na obra de Jorge Molder, os títulos têm um peso decisivo. Surgem como motor que desencadeia as séries e podem convocar um autor, um filme, um realizador, um livro ou mesmo um Papa - como acontece em “Inox”, onde o nome “Inocêncio X” é desmontado. Mais do que explicarem, os títulos entram num dispositivo ficcional proposto pelo artista, sem revelar as regras desse jogo.

Também “Come Di”, o título enigmático desta mostra, é apropriado pelo próprio a partir do compositor e músico italiano Paulo Conte: uma palavra que, à primeira vista, parece vazia de significado, mas que, cantada, cria um efeito de homofonia na relação sonora entre vocábulos - “La comédie d’un jour, la comédie d’la vie, la comédie, la comédie, la comédie...”. A partir daí, é possível pensar a exposição como um conjunto de palcos diferentes dentro de um mesmo teatro.

1991–1996: o corpo como dispositivo de autorrepresentação

Situada entre 1991 e 1996, esta primeira parte evidencia o ponto de partida de um trabalho que, a partir daqui, prossegue de forma insistente: o corpo aparece como pretexto para construir - ou desmontar - uma personagem que nasce sempre do mesmo corpo, o do próprio artista, multiplicando-se em fragmentos, projetando-se num outro.

Ao percorrer as cinco salas do núcleo expositivo central do CIAJG, percebe-se que a visita assenta num fio cronológico montado em torno de oito séries, interrompido aqui e ali por fotografias isoladas de outras séries do mesmo período que não estão representadas de forma completa, mas que, como refere o curador, funcionam como “costuras”. Somadas, são mais de uma centena de imagens, capazes de dar a ver os diferentes climas fotográficos que estruturam o mundo de criação de Jorge Molder.

O acesso a esse mundo começa logo nas primeiras salas, com um conjunto de séries - Autorretratos (1981-1987), “Esgrimistas” (1986) e “Empregados de Mesa” (1986) - reunidas como preâmbulo de uma fase inicial. Ainda sob a designação de “autorretrato”, Molder ensaia a sua figura como matéria abstrata e performativa, em cenários românticos e intimistas, que tanto podem sugerir uma personagem de um filme noir como uma narrativa enigmática sobre um, ou vários, empregados de mesa num lugar fora do tempo - voltando a jogar com o duplo sentido do termo, porque os empregados de mesa são também os que esperam. Por vezes surge de costas; noutras, apenas um vulto, umas mãos, ou um rosto que evita encarar diretamente a câmara.

Depois desse arranque, a exposição prossegue com “O Agente Secreto” (1991), “Insónia” (1992), “O Sentido do Homem de Prestidigitação” (1993), “Pontos de Não Retorno” (1994), “Inox” (1995) e “T.V.” (1996) - ciclo que assinala o momento em que o artista recusa a palavra autorretrato e se desloca para o território da autorrepresentação. Nessa passagem, altera-se o lugar do sujeito: o corpo, definitivamente central, é encenado e observado em múltiplas variantes, tornando-se metáfora e enigma, numa interrogação insistente, sem solução, sobre um “eu” intangível, testado até ao limite.

Vemos um rosto que encara o seu duplo, de costas para a imagem. Um rosto que, ora em penumbra, ora parcial ou totalmente exposto, se fragmenta sob a intensidade da luz. Um olho que se destaca num perfil que espreita um pequeno rato branco. Uma mão que tapa a face; duas mãos que se recortam como gesto de maestro contra um fundo negro. Outra mão atira uma moeda de prata ao ar e outra oculta uma carta no bolso do casaco. E ainda um homem de corpo inteiro, de fato e gravata, comprimido num estranho objeto de vidro opaco, insinuando uma flutuação de tom fúnebre.

As fotografias surgem saturadas: por vezes impuras e quentes, por vezes frias e depuradas, trabalhadas com contrastes densos de preto e branco. Apresentam-se em formato quadrado, alternando entre 48 por 48 centímetros e 102 por 102, e a figura atravessada por estas narrativas aparece sempre de fato e gravata, camisa, colarinhos e punhos brancos engomados, impecáveis. São imagens belíssimas, realizadas com extremo rigor num estúdio de controlo absoluto, em que a produção de cada série pode estender-se por meses.

Entre 1991 e 1996, esta primeira parte expõe o impulso inaugural de um trabalho em que o corpo funciona como álibi para construir - ou desfazer - uma personagem que nasce sempre do mesmo corpo, o do próprio artista.

Jorge Molder - artista convidado da Bienal de São Paulo em 1994, representante de Portugal na Bienal de Veneza de 1999 e vencedor do Prémio EDP/Arte em 2010 - descreveu numa entrevista ao Expresso, em 2025, que o seu método de criação não obedece sempre ao mesmo ponto de partida. “O acaso importa”, sublinhava. “Não há um processo dirigido, deixo que me dirija. Não parto do princípio de determinados pontos para chegar a um determinado fim. Às vezes até acontece o contrário, de onde parto fica esquecido e acabo por ir parar a um sítio que não estava à espera. Se uma coisa começa a afastar-se daquilo que eu queria, é melhor pensar se não se está a aproximar de outra e se não devo ter atenção ao que está a acontecer. E é sempre uma história inacabada. Se tivesse um fim, seria trágico.”

Outras exposições e o espólio de José de Guimarães no CIAJG

A temporada delineada por Miguel Wandschneider integra igualmente a exposição “De Volta ao Exterior”, do escocês Aidan Duffy, um jovem artista de 31 anos, com um percurso curto iniciado em Londres há pouco menos de meia dúzia de anos. O seu trabalho parte de esculturas feitas com materiais variados, descartados e recolhidos nas ruas, a que junta objetos comprados em leilões online e ainda outros que pertencem a amigos e familiares. A partir desse conjunto, compõe arranjos sofisticados, apresentados em assemblagens escultóricas, onde formas e cores são articuladas em ateliê por via de um gesto informal e inteiramente intuitivo.

É a primeira vez que a obra de Duffy é mostrada num centro de arte - uma aposta do diretor artístico, que o encontrou por acaso numa galeria de Lisboa e ficou de imediato rendido ao trabalho “punk, delicado e vital, em permanente elaboração”, de Aidan Duffy. Esta opção programática procurou, numa primeira fase, criar um contraste entre um artista consagrado e um jovem artista contemporâneo, oferecendo ao público a diversidade que se espera de um centro de arte.

Em paralelo, desenvolve-se um conjunto de exposições temporárias a partir do vasto espólio de José de Guimarães, que permanece uma das vocações centrais do CIAJG, inaugurado em 2012 como projeto-âncora de Guimarães, Capital Europeia de Cultura. Numa etapa inicial, reorganizou-se a coleção de arte tradicional africana reunida por José de Guimarães ao longo de quatro décadas, da qual uma parte se encontra em depósito no CIAJG. Um novo núcleo - reforçado com alguns empréstimos do artista - é agora apresentado em três salas do piso térreo.

Na primeira sala, expõe-se um conjunto de artefactos com representações de animais ou de seres híbridos, entre o animal e o humano. Na segunda, destacam-se figuras de relicários. Na terceira, vê-se um conjunto de pares escultóricos de figuras de corpo inteiro, organizados em duplas com um elemento masculino e um feminino. Soma-se ainda uma série de máscaras escolhidas com rigor que, dispostas sobre uma bancada incrustada na parede branca, se afirmam como esculturas singulares e autónomas.

Esta reorganização, mais depurada e alinhada com os códigos de apresentação da arte contemporânea - em vez de uma lógica de museu de etnologia -, favorece um olhar mais concentrado sobre cada objeto e abre um novo ciclo para a divulgação da obra de José de Guimarães.

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