Poderiam reordenar 2 000 anos de história da cidade.
Onde hoje juízes deliberam e advogados transportam processos, havia um passado escondido sob o pavimento em pedra: sob o atual Palácio da Justiça, na Île de la Cité, escavações revelaram vestígios da Antiguidade, da Idade Média e da época moderna. As descobertas lançam nova luz sobre a evolução da célebre ilha do Sena - muito antes de Notre-Dame, da prisão e do palácio moldarem a sua imagem.
Escavações no Palácio da Justiça: uma grande obra encontra a Antiguidade
As descobertas estão ligadas às obras de renovação previstas para o Palácio da Justiça de Paris. Antes de chegarem as escavadoras e as máquinas de perfuração, arqueólogos da cidade de Paris e do instituto francês de investigação arqueológica preventiva, o Inrap, tiveram de analisar o terreno no final do verão e no outono de 2025. Em França, estas escavações “preventivas” são obrigatórias sempre que se intervém em zonas de grande sensibilidade histórica.
Num espaço de pouco mais de 100 metros quadrados, no chamado cour du Mai, o pátio de honra do palácio, as equipas foram removendo o subsolo camada a camada. O que começou como uma operação de rotina depressa se transformou numa pequena sensação arqueológica. Os investigadores encontraram:
- os restos de uma muralha maciça de época romana,
- pelo menos onze sepulturas num campo funerário até agora desconhecido,
- ladrilhos decorados dos séculos XIII e XIV,
- indícios de uma cave medieval que não aparece em qualquer planta conhecida.
Os achados estavam sob um dos lugares mais simbólicos de França - e não constam de nenhum mapa histórico.
A muralha enigmática: uma fortificação da cidade tardo-romana?
Para muitos especialistas, a descoberta mais impressionante é a base de uma muralha antiga. O troço preservado tem cerca de três metros de largura, o que indica uma estrutura robusta e não um simples muro de delimitação. A datação e a técnica construtiva apontam para a possibilidade de se tratar de uma parte da fortificação tardo-romana da Île de la Cité, isto é, de um segmento da muralha urbana erguida entre os séculos III e V d.C.
Até agora, os historiadores só conheciam o traçado dessa defesa de forma aproximada. Se a hipótese dos investigadores se confirmar, será necessário corrigir a reconstrução do percurso da muralha. Isso terá consequências para a forma como a história da cidade é apresentada, desde manuais escolares até maquetes de museu.
À volta da muralha surgiu ainda um conjunto denso de vestígios de ocupação humana: as equipas identificaram cerca de vinte fossas, vários buracos de poste e seis sepulturas em simples enterramentos em terra. Estes elementos dizem muito sobre a utilização do espaço, desde construções em madeira a áreas de trabalho.
Vestígios do período de transição entre a República e o Império
Na mesma zona apareceram também sinais de camadas ainda mais antigas. Algumas das fossas datam da viragem do século I a.C. para o século I d.C., ou seja, da época em que a cidade romana de Lutécia começou a ganhar forma. Os indícios reforçam a ideia de que a ilha do Sena foi muito cedo um núcleo central do povoamento - e não apenas a margem esquerda do rio, durante muito tempo mais estudada pela investigação.
Da Lutécia romana primitiva ao atual Palácio da Justiça: poucos lugares em Paris mostram de forma tão concentrada a sobreposição de séculos como esta ilha.
Idade Média e época moderna: ladrilhos, incêndios e uma cave desaparecida
A escavação não termina com a Antiguidade. Sobre as camadas romanas surgem depósitos espessos da Idade Média e da época moderna. Em muitos pontos foram identificadas camadas de demolição: entulho, pedaços de argamassa, tijolos e materiais queimados. Muito indica que estas deposições estão associadas às grandes obras posteriores ao devastador incêndio de 1776, que destruiu vastas partes das instalações régias na ilha.
Entre os escombros apareceram centenas de fragmentos de ladrilhos de pavimento decorados, com motivos heráldicos associados à monarquia francesa e representações de animais. Estes ladrilhos são conhecidos de escavações no Louvre, sobretudo na Cour Carrée. As novas descobertas mostram que um tipo de decoração cortesã semelhante também existia na zona do palácio da Île de la Cité.
Uma cave que ninguém conhecia
Particularmente interessante para a investigação da construção é uma estrutura de cave medieval identificada sob o pátio. Ela remonta à época em que os Capetíngios mantinham na ilha uma das suas principais residências reais. Nos planos históricos já analisados, esse espaço não surge, o que abre duas possibilidades: ou a cave deixou de ser utilizada ainda na Idade Média e acabou esquecida, ou os desenhos preservados estão incompletos.
Este tipo de achado mostra como mesmo edifícios aparentemente bem documentados podem ter lacunas significativas. Aqui, a arqueologia complementa os arquivos e corrige ideias tradicionais.
Onze sepulturas no coração do Palácio da Justiça
Além da muralha e da cave, são os enterramentos que mais ocupam os investigadores. Na área já estudada, foi identificada uma pequena zona funerária com pelo menos onze sepulturas. Tratam-se de enterramentos em terra, sem ofertas funerárias luxuosas, provavelmente de época medieval ou do início da modernidade.
Ainda não se sabe se os mortos pertenciam a um hospital, a uma igreja colegiada ou a um antigo cemitério. Os documentos históricos referem várias instituições religiosas na ilha, muitas das quais desapareceram com as grandes transformações iniciadas no século XVIII. Nos próximos anos, os antropólogos irão estudar os esqueletos com mais detalhe: idade, sexo, doenças, sinais de origem ou mobilidade nos ossos - tudo isso pode ajudar a reconstruir o quotidiano destas pessoas.
| Período | Tipo de achados | Significado |
|---|---|---|
| Século I a.C. / século I d.C. | Fossas, buracos de poste | Utilização romana precoce da ilha |
| Séculos III–V d.C. | Base de muralha maciça | Possível parte da fortificação urbana tardo-romana |
| Séculos XIII–XIV | Ladrilhos decorados, cave | Indícios de presença régia e de ocupação residencial |
| Século XVIII e posteriores | Camadas de demolição, entulho de incêndio | Obras de remodelação após o incêndio de 1776 |
O que vem a seguir: nova fase das escavações na primavera de 2026
A campanha atual é apenas o começo. Na primavera de 2026 está prevista uma nova fase de escavações noutro setor da área do palácio. Só quando todas as zonas tiverem sido examinadas de forma sistemática será possível montar o puzzle completo dos vestígios.
Em paralelo, os investigadores estão a estudar o chamado “material arqueológico”: cerâmica, vidro, objetos de metal, ossos de animais, amostras de argamassa e restos de reboco. Estes elementos ajudam a datar as fases de ocupação e a compreender as condições de vida. Ao mesmo tempo, uma equipa própria está a consultar plantas antigas, processos de obra, registos fiscais e descrições históricas, de modo a ligar os indícios arqueológicos às fontes escritas.
Cada fragmento de cerâmica, cada resto de argamassa e cada traço em plantas antigas pode ser decisivo para reescrever a história da ilha.
Porque é que estas escavações são tão importantes para Paris
A Île de la Cité é considerada a matriz histórica de Paris. Quem quiser perceber como uma povoação romana se transformou numa metrópole de milhões de habitantes não pode ignorar este local. Durante muito tempo, a investigação centrou-se sobretudo em grandes edifícios, como a catedral ou os restos das termas romanas. As pequenas sondagens realizadas em contexto de obra, como as do Palácio da Justiça, oferecem agora peças complementares para este retrato.
Para os urbanistas e para os responsáveis pela proteção do património, estes dados têm grande importância. Influenciam a forma como os novos trabalhos são planeados, que áreas devem receber proteção reforçada e onde, no futuro, poderão ser criadas janelas arqueológicas visíveis no pavimento. Numa cidade tão densa como Paris, cada metro quadrado que revela o subsolo conta.
A articulação entre arqueologia e obra pública é, além disso, particularmente delicada num edifício em funcionamento como o Palácio da Justiça. É preciso conciliar prazos apertados, exigências de segurança e conservação dos vestígios. Quando tudo é documentado com rigor, parte dessa memória subterrânea pode até ser integrada em futuras soluções de visita ou de valorização do espaço, sem interferir com o uso quotidiano do edifício.
O que significam expressões como “arqueologia preventiva”
Quem lê sobre estas descobertas encontra facilmente termos técnicos. “Arqueologia preventiva” designa as escavações realizadas antes de grandes projetos de construção, para salvar e registar os achados a tempo. Este trabalho decorre muitas vezes sob forte pressão temporal e em estreita coordenação com as empresas de construção. O objetivo é recolher o máximo de informação antes de as máquinas avançarem.
Os ladrilhos decorados, ou ladrilhos de pavimento historiados, também têm grande valor interpretativo: mostram o estatuto e o gosto dos encomendantes, revelam brasões, figuras de animais ou cenas bíblicas e dão pistas sobre oficinas e rotas comerciais.
O que o público em geral pode aprender com descobertas deste tipo
Quem conhece Paris apenas como cenário de postal percebe, através de escavações como esta, o grau de estratificação da cidade. Sob cada praça e cada pátio escondem-se marcas de épocas diferentes. Um atual Palácio da Justiça assenta sobre um pátio régio; esse pátio, por sua vez, repousa sobre uma obra defensiva romana - e, por baixo disso, podem ainda existir restos de povoamentos mais antigos.
Situações semelhantes existem em muitas cidades europeias. Em Colónia, Tréveris ou Viena, as janelas arqueológicas em parques de estacionamento subterrâneos ou caves mostram como muralhas romanas podem correr diretamente sob a modernidade. Para quem viaja, vale a pena visitar pequenos museus de cidade ou participar em visitas a obras acompanhadas por arqueólogos, onde o seu trabalho é explicado ao público. Nesses contextos, a história urbana torna-se concreta - não apenas em livros ilustrados, mas mesmo no solo sob os nossos pés.
Em cidades ribeirinhas como Paris, as cheias, as reconstruções sucessivas e as remodelações constantes também contribuem para misturar camadas e apagar limites antigos. É precisamente por isso que cada sondagem, por pequena que seja, ajuda a distinguir o que pertence ao presente do que foi deixado por séculos anteriores.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário