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100 dias depois da tempestade “Kristin”: E-Redes e REN ainda reconstruem a rede elétrica em Leiria

Trabalhadores com coletes laranja realizam manutenção em postas de eletricidade numa área rural.

Nuno Cardoso já deixou de conseguir contabilizar quantas vezes percorreu a faixa de segurança entre os postes 41 e 47 da linha de alta tensão que liga a subestação da REN, na Batalha, à da E-Redes, em Andrinos, Leiria. Foi precisamente neste troço que, duas semanas depois de a tempestade “Kristin” ter deixado um rasto de destruição nunca antes visto (na madrugada de 28 de janeiro), o diretor de operação e manutenção da rede de alta tensão da E-Redes descreveu ao Expresso o que significou devolver a luz a Leiria a 10 de fevereiro e recons­truir, em tempo recorde (11 dias), uma das principais artérias elétricas do concelho.

Cem dias mais tarde, o engenheiro mantém-se diariamente no terreno, a acompanhar a empreitada, e ainda não arrisca um prazo fechado para a conclusão total. “Garantidamente, temos trabalho até ao final do ano. Isto se não chover e os incêndios não causarem novas perturbações no verão”, diz.

E-Redes em Leiria: energia a circular por um cabo provisório no solo

Por agora, a eletricidade continua a chegar a Leiria através de um cabo elétrico estendido pelo chão e enterrado a pouca profundidade, devidamente sinalizado com pequenos triângulos amarelos que alertam para “Perigo de morte”. Cardoso explica que, assim que foi possível colocar drones e helicópteros no ar para levantar os estragos, o diagnóstico apontou para três grandes áreas de danos. A baixa tensão foi a rede mais castigada, mas, do ponto de vista operacional, a alta tensão passou à frente: “Quando finalmente conseguimos pôr drones e helicópteros no ar e mapear os danos na rede, tornou-se claro que havia três grandes zonas de estragos. A baixa tensão foi a mais afetada, mas a alta tensão tem prioridade, porque é a grande autoestrada da energia. A solução mais rápida era passar um cabo provisório a corta-mato, pelo chão, e foi isso que fizemos, com uma autorização especial da Direção-Geral de Energia e Geologia obtida em tempo recorde”.

Regresso à linha aérea e a operação “em segredo”

Com as intervenções neste eixo da rede de distribuição muito perto do fim, a E-Redes já definiu o dia para desligar o cabo subterrâneo e voltar a encaminhar a energia pela linha aérea, mas opta por não divulgar a data. O procedimento, sublinha, é exigente e pode prolongar-se por algumas horas: para o realizar será necessário “desligar as proteções da rede (que são como os disjuntores de uma casa)”, o que implicará interromper o fornecimento à cidade.

A mudança estará iminente e deverá ocorrer ainda “durante o mês de maio”, mas Cardoso garante que a população - já demasiado “fustigada” - não deverá notar impacto, porque a E-Redes voltará a recorrer a geradores para manter Leiria com eletricidade. No período imediatamente após a tempestade, a empresa chegou a ter 500 geradores em operação e mobilizou milhares de operacionais vindos do estrangeiro, como a Irlanda e o Brasil, que entretanto já regressaram.

Reparações em altura, novos postes e fornecedores nacionais

No terreno, as equipas continuam a trabalhar a ritmo elevado, por vezes a dezenas de metros de altura. Esta semana, foi no topo de uma torre metálica de alta tensão que encontrámos cinco trabalhadores de uma empresa da Figueira da Foz, subcontratada pela E-Redes, a concluir a passagem de cabos e o isolamento do poste - um trabalho de elevada especialização.

Ao nível do solo, Nuno Cardoso mostra no telemóvel imagens recolhidas ao longo dos últimos três meses, em que operações semelhantes decorreram durante a noite, com vento e chuva. “Só quando há trovoada é que não podemos trabalhar”, explica, já junto ao poste 42. Ali, lado a lado, vêem-se os vestígios da estrutura antiga, partida ao meio (o metal retorcido já seguiu para reciclagem), e o novo poste, descrito como “mais alto e mais robusto”. As peças de aço são fornecidas por empresas portuguesas e, perante a dimensão da destruição, não falharam a resposta ao pedido da E-Redes para erguer novas infraestruturas.

Uma segunda linha mais afetada e o plano de enterramento em 3 km

Para lá desta linha de alta tensão - onde foram contabilizados 10 postes afetados e que foi classificada como prioritária - existe uma outra linha da E-Redes que também alimenta a cidade e que sofreu danos ainda mais pesados: mais de 20 postes necessitam de intervenção e, nesse caso, os trabalhos ainda nem começaram.

Segundo Cardoso, trata-se de um território com maior presença florestal, mas onde entretanto foram construídas casas, o que eleva a complexidade de reposição. Além disso, o segmento destruído é extenso e, por isso, a solução escolhida será diferente: “Estamos a falar de uma zona mais florestal, na qual entretanto já foram construídas algumas casas, o que torna mais difícil a reposição. Além disso, é um troço bastante grande de linha dizimada e por isso vamos optar pelo enterramento da linha em cerca de 3 km. É uma obra que demora mais tempo e é mais cara, mas cria uma resiliência acrescida”.

O projeto encontra-se em fase de licenciamento e aguarda autorização da Direção-Geral de Energia e Geologia e da autarquia. A ambição mantém-se clara: “É uma linha que queremos terminar até ao final do ano.” Quanto ao cabo provisório no chão, a decisão final ainda está em aberto: “Os proprietários dos terrenos podem não querer, mas é uma questão que estamos a negociar com eles.”

Chuva, solos saturados e logística de emergência

O vento não foi o único adversário. A chuva persistente durante grande parte de fevereiro e a água acumulada no terreno criaram problemas adicionais, obrigando a E-Redes a enfrentar postos de transformação totalmente inundados e a erguer um poste numa zona completamente alagada. “Tivemos de improvisar, encontrar fornecedores e trazer 3 mil toneladas de pedra para construir um estradão de acesso ao local. A água era tanta, e com corrente, que tiveram de vir os fuzileiros ajudar-nos a cortar árvores”, recorda.

A execução de fundações em betão, com os solos “empapados”, foi outro obstáculo. Sem comunicações numa fase inicial, a E-Redes instalou em Leiria um quartel-general temporário e recorreu a um satélite Starlink para garantir acesso à internet.

Média e baixa tensão: serviço reposto, mas rede mais fragilizada

Nas redes de média e baixa tensão - muito mais ramificadas e responsáveis por levar energia “porta a porta” - continua a existir trabalho por concluir. Ainda assim, Cardoso afirma que, neste momento, todos os clientes da E-Redes já têm eletricidade. “O fornecimento está todo reposto e estamos a criar as condições de resiliência que tínhamos antes da ‘Kristin’. A rede está, sem dúvidas nenhumas, mais debilitada, porque foram adotadas medidas provisórias para conseguir fazer as ligações”, sustenta.

Sem avançar um montante global em euros, admite que os danos irão acrescentar “mais uns milhões” ao plano de investimento da empresa. No balanço destes 100 dias, e lembrando que “ninguém estava preparado para uma coisa destas”, considera que “tudo correu bem porque não houve falta de materiais nem de recursos humanos”.

A E-Redes espera ter a obra de enterramento de linhas elétricas pronta até ao final deste ano

REN: 11 linhas afetadas, 754 km fora de serviço e mais de 100 postes danificados

A pressão no terreno não recaiu apenas sobre a distribuição. Responsável pelas linhas de muito alta tensão, a REN - Redes Energéticas Nacionais também tem mantido equipas mobilizadas em Leiria. Uma fonte oficial indica que foram afetadas 11 linhas em vários níveis de tensão (quatro linhas de 400 kV, três de 220 kV e quatro de 150 kV), “com danos diversos”, o que levou à “saída de serviço de um total de 754 km de linhas e danificando mais de 100 postes”. Alguns desses postes aproximam-se das 40 toneladas e atingem 60 metros de altura - equivalente a um edifício de 30 andares.

Para responder de imediato e colocar as primeiras equipas no terreno às seis da manhã de 28 de janeiro, a REN “suspendeu todas as suas outras obras em curso de construção de novas redes elétricas para concentrar meios e recursos na reposição urgente das infraestruturas afetadas” na região de Leiria. A prioridade, refere a mesma fonte, passou por identificar situações críticas: cabos no chão e projetados sobre habitações (houve danos em 82 proprietários, já quase todos resolvidos), estradas condicionadas, interferências com outras linhas e áreas de risco para a população.

“No final de março já estavam recuperadas duas linhas de 400 kV [uma delas, entre Batalha e Lavos, ficou pronta em 29 dias, com o dobro da capacidade de transporte], permitindo estabelecer três ligações, e foram estabelecidas duas ligações de 220 kV. Durante o mês de abril foi ainda possível recuperar a ligação da central hidroelétrica da Bouçã, com a recuperação das linhas Bouçã-Zêzere e Cabril-Bouçã, a 150 kV”, acrescenta a fonte, lembrando que “a reposição das linhas de 400 kV e 220 kV é essencial para restabelecer os fluxos estruturais da rede, assegurando a segurança do sistema elétrico nacional e o escoamento da produção a norte para os centros de consumo a sul e os fluxos da produção solar a sul e de Espanha para as centrais hidroelétricas com bombagem a norte”.

Atualmente, a REN mantém no terreno um dispositivo de cerca de 100 pessoas dedicado à reconstrução das linhas afetadas - incluindo o troço Lavos-Rio Maior, que deverá ficar pronto no início de junho -, “prevendo-se a sua total recuperação no decorrer dos próximos meses”.

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