A Lidl, a cadeia alemã do desconto, não conseguiu autorização para vender álcool nas prateleiras do seu supermercado na Irlanda do Norte - por isso avançou com uma alternativa inesperada: levantar, mesmo ao lado, um bar com 60 lugares. É um caso inédito, nascido de uma lacuna jurídica.
Um pub Lidl com 60 lugares ao lado do supermercado
Sim, é isso mesmo. A marca conhecida pelos preços baixos - dos biscoitos a 0,89 € às ferramentas em promoção às quintas-feiras - decidiu entrar na restauração, mas em formato de balcão. O grupo deu início oficial à construção do seu primeiro pub, em Dundonald, subúrbio a leste de Belfast, na Irlanda do Norte.
O espaço deverá receber até 60 clientes e servir uma selecção de cervejas, vinhos e bebidas espirituosas do catálogo da Lidl, com destaque para fornecedores locais. O pub ficará num edifício separado, embora imediatamente adjacente ao supermercado já existente. A abertura está apontada para este verão.
Porque a Lidl não pode vender álcool em prateleira na Irlanda do Norte
A razão para este investimento passa por uma das regulamentações do álcool mais rigorosas do Reino Unido. O modelo assenta em dois mecanismos.
O primeiro é o “surrender principle”, que funciona como um mercado fechado: para obter uma licença de venda de bebidas, é necessário comprar a licença de um estabelecimento que esteja a encerrar. Na prática, o número total de licenças fica limitado.
O segundo é o “inadequacy test”, que obriga a provar que a oferta de álcool existente na zona é insuficiente para a população. Foi aqui que a Lidl esbarrou numa barreira: o retalhista não conseguiu cumprir este critério para obter uma licença clássica de venda para consumo fora do local (off-sales).
Em contrapartida, como dois pubs fecharam recentemente perto da loja de Dundonald, a Lidl conseguiu demonstrar que existia uma falha na oferta de consumo no local. Daí a decisão de construir um pub.
Seis anos de processo
Naturalmente, o caminho não foi simples. Concorrentes levaram o caso ao High Court, alegando que a Lidl estava a aproveitar uma lacuna jurídica para contornar a lei. O argumento foi rejeitado em janeiro de 2025 pelo juiz Colton, que considerou que o carácter inovador da iniciativa não é, por si só, um motivo legítimo para negar a licença. Em outras palavras: a lei não proíbe ser astuto.
Gordon Cruikshanks, director-geral da Lidl na Irlanda do Norte, não escondeu a satisfação após seis anos de procedimentos.
Um modelo difícil de replicar no resto da Europa
Devemos esperar que pubs Lidl apareçam por toda a Europa? Provavelmente não. Este projecto resulta de um bloqueio regulamentar muito específico da Irlanda do Norte. O “surrender principle” não existe noutros locais desta forma e, na maioria dos países europeus (incluindo a França), os supermercados não têm qualquer dificuldade em vender álcool nas prateleiras. Pelo contrário…
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